05/09/2026

Feminicídios sobem 4% no Brasil em 2025 e vão na contramão da queda geral de homicídios

Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostram que 1.571 mulheres foram mortas por razões de gênero

Por Fhagner Soares, ContilNet
Notificações de estupro recuaram para 84,3 mil no ano; mais de 87% das vítimas eram crianças e adolescentes/ Foto: Reprodução

O Brasil registrou um avanço de 4% nos casos de feminicídio durante o ano de 2025, contabilizando 1.571 vítimas mortas em razão da condição do sexo feminino ou em contextos de violência doméstica, familiar e discriminação de gênero. O indicador vai na contramão da tendência de retração observada nos homicídios em geral e reforça a persistência da violência letal praticada no ambiente privado.

Os dados constam na 20ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgada nesta quinta-feira (23/7) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

Enquanto os assassinatos absolutos de mulheres apresentaram redução de 5,1% — caindo de 3,728 ocorrências em 2024 para 3,539 em 2025 —, as mortes tipificadas como feminicídio mantiveram curva ascendente. Na avaliação de pesquisadoras do fórum e da Rede Feminina de Estudos de Violência, Justiça e Prisões (Rede Femjusp), o cenário evidencia um recuo seletivo focado na criminalidade urbana, enquanto a violência perpetrada por conhecidos e parceiros dentro dos lares permanece sem reduções expressivas.

O levantamento estatístico detalha a prevalência de fatores demográficos e contextuais no cometimento dos feminicídios no país:

  • Local do crime: 62,5% das vítimas foram assassinadas dentro da própria residência;

  • Autoria: 60,9% dos casos foram praticados por parceiros íntimos das vítimas;

  • Recorte racial: Mulheres negras representam 65,1% do total de mortas;

  • Faixa etária: 56,5% das vítimas tinham entre 25 e 44 anos.

Além das mortes consumadas, as tentativas de feminicídio avançaram 5,9% em 2025, totalizando 4.189 sobreviventes. Estatisticamente, para cada feminicídio concretizado, o país registrou três tentativas não consumadas.

O relatório mapeou também a proporção de outros registros de violência contra a mulher para cada caso de feminicídio consumado no país: foram 501,9 ameaças; 182,2 agressões físicas; 84 descumprimentos de medidas protetivas de urgência; 78,8 registros de stalking (perseguição) e 38,7 episódios de violência psicológica.

O Anuário apontou a primeira retratação nos registros de estupro e estupro de vulnerável no Brasil desde o período da pandemia de coronavírus. Em 2025, foram notificados 84.388 casos — equivalente a uma ocorrência a cada seis minutos —, representando queda de 5,4% frente às 88.843 notificações computadas em 2024. A taxa nacional ficou em 39,5 casos para cada 100 mil habitantes.

Do total de vítimas de violência sexual:

  • 60,3% tinham até 13 anos de idade;

  • 27,1% eram crianças de 9 anos ou menos.

Pesquisadoras do FBSP ressaltam que a diminuição nos boletins de ocorrência precisa ser analisada com cautela devido à elevada subnotificação histórica que caracteriza os crimes sexuais. Estimativas balizadas em dados do sistema público de saúde indicam que aproximadamente 10% dos casos ocorridos no país chegam ao conhecimento das autoridades policiais.

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