Meteorito que caiu em casa traz moléculas ligadas à origem da vida, diz estudo

Fragmento raro de protoplaneta preservado por morador continha aminoácidos e inéditos minerais de sal

Por Fhagner Soares, ContilNet 18/07/2026 às 13:33
Condrito carbonáceo caiu em Hillsborough em 2024 e gerou onda de choque vista por dezenas de pessoas/ Foto: Reprodução

Uma rocha espacial que perfurou o telhado de uma residência na cidade de Hillsborough, no estado de Nova Jersey (EUA), continha aminoácidos, estruturas de carbono e outras moléculas essenciais para a química prebiótica — estágio que antecedeu o surgimento dos primeiros organismos vivos. O achado científico foi publicado na última quarta-feira (15) na prestigiada revista acadêmica Science Advances.

Além da riqueza orgânica do material, a equipe de astrofísicos responsável pelo estudo conseguiu mapear a rota percorrida pelo objeto antes do impacto. Os dados mostram vestígios geológicos de que o fragmento se desprendeu de um antigo protoplaneta, um corpo celeste embrionário formado nos primórdios do Sistema Solar que não chegou a se consolidar como um planeta de fato.

De acordo com o relatório dos pesquisadores, o fato de o proprietário do imóvel ter recolhido e armazenado os pedaços da rocha de forma ágil foi o fator determinante para o sucesso da pesquisa. O isolamento rápido evitou o contato do objeto com elementos biológicos terrestres, impedindo a contaminação da amostra e garantindo a integridade dos testes de laboratório.

O objeto foi catalogado pela comunidade científica como um condrito carbonáceo, uma tipologia escassa de meteorito conhecida por reter materiais químicos primitivos quase intactos desde a formação do nosso sistema planetário.

A varredura laboratorial detectou uma alta concentração de compostos prebióticos. Embora essas moléculas não configurem vida em si, elas funcionam como as peças fundamentais para as reações que geraram as primeiras estruturas biológicas na Terra primordial.

A grande surpresa dos analistas, contudo, foi a identificação de minerais gerados a partir da ação de fluidos abundantes em sal dentro do corpo de origem. A equipe destacou que essa reação química específica nunca havia sido registrada em meteoritos dessa categoria, o que abre um novo leque de hipóteses sobre as transformações termoquímicas que ocorreram no início do Sistema Solar.

O choque contra a estrutura da residência aconteceu no dia 16 de julho de 2024. Naquela data, mais de 60 relatos foram formalizados no nordeste americano por testemunhas que avistaram uma densa bola de fogo rasgando o céu, acompanhada por estrondos e tremores provocados pela onda de choque atmosférica.

Utilizando dados de monitoramento e gravações de circuitos domésticos capturados pela Sociedade Americana de Meteoros, os cientistas triangularam os dados posicionais. O modelo matemático concluiu que o bloco rochoso viajou a partir da borda interna do cinturão de asteroides, faixa situada no espaço entre as órbitas de Marte e Júpiter. A maior parte da massa original se desintegrou por fricção ao furar a atmosfera terrestre, restando apenas os fragmentos que caíram sobre o imóvel.

A nova fase da pesquisa prevê o cruzamento de dados minerais do fragmento de Hillsborough com poeira e rochas cósmicas coletadas diretamente no espaço profundo. Os cientistas vão usar amostras dos asteroides Ryugu e Bennu, trazidas à Terra recentemente por missões espaciais das agências do Japão (Jaxa) e dos Estados Unidos (Nasa).

A meta da comunidade científica é decifrar se os compostos que ativam a química da vida estavam espalhados de forma homogênea ou se ficaram confinados em setores específicos do Sistema Solar durante a sua criação.

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