Promotoria aponta Pix fragmentado e firmas de fachada em acusação contra Deolane

Promotor Lincoln Gakiya aponta movimentação de R$ 140 milhões por empresas de fachada da influenciadora

Por Fhagner Soares, ContilNet 11/06/2026 às 05:48
nquérito que começou com bilhete na prisão vira denúncia do MPSP contra Deolane Bezerra/ Foto: Instagram/Reprodução

O Ministério Público de São Paulo (MPSP) ofereceu denúncia formal à Justiça contra a advogada e influenciadora digital Deolane Bezerra, acusando-a de integrar organização criminosa e atuar como operadora estrutural de lavagem de dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC). A peça acusatória, assinada pelo promotor Lincoln Gakiya, da Subprocuradoria-Geral de Justiça de Políticas Criminais, foi protocolada nesta quarta-feira (10) e fundamenta o pedido de manutenção da prisão preventiva da empresária.

De acordo com o MPSP, o conglomerado empresarial e o núcleo familiar de Deolane foram utilizados para internalizar e conferir aparência de legalidade a ativos financeiros de origem ilícita produzidos pela facção. Os relatórios de inteligência financeira indicam que as contas bancárias ligadas à influenciadora movimentaram mais de R$ 140 milhões em créditos e débitos em um intervalo de menos de dois anos, entre julho de 2022 e maio de 2024.

O rol de denunciados pelo Ministério Público inclui a cúpula histórica e operacional da organização criminosa:

  • Marco Willians Herbas Camacho, o “Marcola”: Apontado pelas forças de segurança como o líder máximo e decisório do PCC;

  • Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior: Irmão de Marcola e quadro de relevância na hierarquia da facção;

  • Paloma Sanches Herbas Camacho e Leonardo Alexsander Herbas Camacho: Sobrinhos do chefe do grupo;

  • Everton de Souza (conhecido como “Player” ou “Temer”): Identificado pelos investigadores como o operador financeiro central dos repasses.

Os promotores do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) detalham que Deolane Bezerra constituiu pessoas jurídicas com características típicas de firmas de fachada. As sedes declaradas dessas empresas funcionavam em imóveis sem qualquer estrutura operacional ou administrativa condizente com o volume de capital transacionado, além de omitirem movimentações bancárias regulares junto ao fisco.

O monitoramento efetuado pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) detectou um fluxo financeiro atípico e sem lastro contábil ou comercial. A denúncia aponta que a imagem pública de Deolane nas redes sociais era usada de maneira estratégica para justificar o enriquecimento abrupto, criando uma narrativa de faturamento por publicidade digital.

Contudo, os peritos criminais destacaram que na documentação bancária apreendida há uma ausência completa de notas fiscais, contratos formais de engajamento ou comprovantes de honorários advocatícios lícitos. Em vez disso, o MPSP identificou um padrão de fraude financeira caracterizado pela fragmentação e pulverização de depósitos bancários de valores idênticos, além do uso sistemático de transferências instantâneas por meio do Pix para fracionar o capital e burlar os mecanismos automatizados de controle do Banco Central.

Para afastar as alegações da defesa de que a influenciadora possuía apenas contatos esporádicos ou profissionais com os investigados, o Ministério Público anexou ao processo um acervo fotográfico extraído de redes sociais e aparelhos celulares. As imagens registram Deolane em episódios de convívio íntimo e prolongado com membros da família Camacho em ambientes privados.

Os registros documentam encontros reiterados com Francisca Alves da Silva, companheira de Alejandro Juvenal, bem como interações sociais com Bárbara Alves Mota e Alejandro Juvenal Herbas Camacho Neto, enteada e filho de Alejandro, respectivamente. Para a Polícia Civil e o MPSP, os registros materiais comprovam uma proximidade orgânica com diferentes gerações do mesmo clã criminoso.

A atual fase da investigação penal é o desdobramento de uma apuração de longo curso iniciada há sete anos pelas agências de inteligência do Estado:

  • Em 2019: Policiais penais interceptaram bilhetes manuscritos com detentos na Penitenciária II de Presidente Venceslau. Os textos revelavam planos de ataques contra servidores públicos e faziam menção a uma suspeita sob o codinome “mulher da transportadora”, responsável por levantar os endereços dos agentes;

  • Em 2021 (Operação Lado a Lado): A Polícia Civil deflagrou a segunda fase da investigação, comprovando que a transportadora alvo das buscas funcionava como braço financeiro do PCC. Durante o cumprimento de mandados, a apreensão de um telefone celular revelou mensagens com indícios de repasses de dinheiro para Deolane Bezerra e elos com os gestores ocultos da empresa;

  • Em 21 de maio de 2026: Após a consolidação dos laudos de incompatibilidade patrimonial, Deolane foi presa preventivamente pela Polícia Civil paulista em sua residência, uma mansão localizada no condomínio de alto padrão Tamboré I, em Barueri (Grande SP).

Atualmente, a advogada encontra-se custodiada na Penitenciária Feminina de Tupi Paulista, no extremo oeste do estado de São Paulo, a cerca de 640 quilômetros da capital. Trata-se do segundo período de reclusão de Deolane, que já havia sido presa em Recife (PE), em setembro de 2024, em uma investigação que mirava lavagem de capitais por meio de plataformas de jogos de azar e apostas esportivas (bets).

Na denúncia desta semana, o MPSP formalizou o pedido de manutenção da prisão de todos os envolvidos para garantia da ordem pública, alegando o risco de fuga e planos documentados de expansão internacional da facção, além de requerer o sequestro de bens e a perda definitiva do patrimônio sem origem lícita comprovada.

O corpo jurídico que representa a influenciadora Deolane Bezerra refuta integralmente o teor da denúncia apresentada pelo Ministério Público de São Paulo. Em nota oficial distribuída à imprensa pelos advogados Aury Lopes Jr., Josimary Rocha, Rogério Nunes e Luiz Ricardo Imparato, a banca afirma que a cliente é inocente e que sua atividade financeira decorre de contratos lícitos de imagem e advocacia.

“A defesa ainda não teve acesso à acusação e, tão logo for citada, apresentará a devida resposta, reafirmando que Deolane não faz parte de nenhuma organização criminosa e tampouco cometeu qualquer crime, o que será provado ao longo do processo”, encerra o posicionamento oficial dos defensores.

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