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Pimenta no Reino

João Campos suspende candidatura de acreana: ‘Violência de gênero’

Por Matheus Mello, ContilNet 17/08/2026 15:33 Atualizado em 17/08/2026 15:40
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Uma decisão tomada em Brasília, a quilômetros de Rondônia e ainda mais distante do Acre, abriu uma crise eleitoral que promete chegar à Justiça, e colocou uma acreana no centro de uma disputa que envolve a direção nacional do PSB, alianças de esquerda e a corrida pelo governo de Rondônia.

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A Executiva Nacional do PSB decidiu destituir o diretório estadual da legenda em Rondônia e nomear uma comissão provisória. No sábado (15), a nova direção aprovou, por unanimidade, o cancelamento das candidaturas e das coligações que haviam sido construídas pelo partido no Estado.

Na prática, a decisão desmonta a chapa que o PSB havia apresentado semanas atrás: Samuel Costa para o governo, Sargento Machado como vice e Neidinha Suruí para o Senado. O partido também abriu mão das candidaturas proporcionais para deputado estadual e federal.

O detalhe que dá uma dimensão maior à crise é que a composição que o PSB decidiu apoiar agora tem como cabeça o petista Expedito Netto, candidato ao governo de Rondônia pela Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, em aliança com a Federação PSOL/Rede.

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E é justamente aí que começa a parte mais delicada da história.

Uma candidatura que durou poucas semanas

O PSB havia oficializado Samuel Costa e Neidinha Suruí em julho, apresentando a chapa como uma alternativa do campo progressista em Rondônia. A legenda chegou a anunciar também candidaturas para a Assembleia Legislativa e a Câmara dos Deputados.

Agora, pouco depois de colocar os nomes oficialmente na rua, a direção nacional decidiu puxar o freio de mão.

Samuel não aceitou.

Classificou a decisão como arbitrária e disse que a tentativa de retirar as candidaturas deverá ser contestada judicialmente. Segundo ele, a medida seria tão irregular que poderia sequer ser reconhecida pela Justiça Eleitoral.

Neidinha foi além. Ao reagir à decisão, afirmou se considerar vítima de violência política e de gênero.

É uma acusação politicamente pesada e que aumenta ainda mais a temperatura de uma disputa que, até aqui, era interna do PSB, mas pode rapidamente se transformar em uma briga eleitoral aberta.

E onde entra Expedito Netto?

Nos grupos políticos que apoiam Samuel e Neidinha, a versão que circula é a de que a mudança não teria ocorrido simplesmente por uma decisão administrativa da direção nacional.

A suspeita levantada pelos aliados é de que houve uma articulação política para retirar a chapa do PSB do caminho e abrir espaço para uma nova composição em torno de Expedito Netto.

É importante separar suspeita de fato comprovado.

A eventual participação direta de Expedito, do PT ou de qualquer outro grupo ainda depende de apuração e comprovação. Até o momento, o que existe é a acusação feita por integrantes do grupo de Neidinha e Samuel e o fato político de que, depois da intervenção, o PSB passou a apoiar justamente a candidatura petista.

Mas, em política, a coincidência é grande demais para passar despercebida.

A pergunta que começa a circular em Rondônia é simples: por que o PSB nacional desmontaria uma chapa própria já apresentada ao eleitorado para apoiar outra candidatura?

E a resposta, se houver, provavelmente estará menos nos documentos partidários e mais nas negociações que antecederam a decisão.

A acreana no olho do furacão

Neidinha Suruí não é uma personagem desconhecida da política rondoniense. E talvez justamente por isso sua retirada da disputa tenha ganhado peso.

Ivaneide Bandeira Cardozo, conhecida como Neidinha Suruí, nasceu em Plácido de Castro, no Acre, em 1959. Indigenista, ambientalista e defensora dos direitos dos povos indígenas, construiu sua trajetória em Rondônia e chegou a disputar uma vaga na Câmara Municipal de Porto Velho pela Rede em 2024.

Sua história pessoal também se confunde com a Amazônia. Ela viveu parte da infância em meio à floresta e se tornou conhecida nacionalmente pela atuação em defesa dos povos indígenas e da preservação ambiental.

Em abril, quando migrou para o PSB, Neidinha foi apresentada como uma das principais apostas da legenda para representar o campo progressista na disputa pelo Senado.

Ou seja: não se trata apenas de uma candidatura que desapareceu de uma ata partidária.

É uma liderança indígena, ambientalista e acreana que havia colocado seu nome em uma das disputas mais concorridas de Rondônia.

O fator João Campos

E há ainda um personagem nacional nessa história: João Campos.

Presidente nacional do PSB e candidato ao governo de Pernambuco, Campos está comandando uma eleição própria a milhares de quilômetros de Rondônia, mas sua decisão partidária agora o coloca diretamente no centro da crise rondoniense.

A ironia política é inevitável: João Campos disputa uma eleição majoritária em Pernambuco enquanto sua direção nacional interfere em uma disputa majoritária em Rondônia.

E a decisão produz um efeito curioso. Ao tentar reorganizar o palanque do PSB em Rondônia, a direção nacional acabou criando uma crise que pode deixar marcas justamente entre os grupos que deveriam compor o campo político apoiado pela legenda.

Neidinha, por sua vez, escolheu uma expressão que dificilmente será retirada da campanha: “violência de gênero”.

A frase transforma uma disputa partidária em uma discussão muito maior sobre o espaço das mulheres na política e sobre até onde uma direção partidária pode interferir em uma candidatura já oficializada.

Agora é com a Justiça

O episódio está longe de terminar.

Samuel Costa e Neidinha dizem que continuarão cumprindo agenda de campanha. Para este domingo (16), estavam previstas atividades na Zona Leste de Porto Velho, incluindo adesivaço e reunião com pré-candidatos a deputado estadual e federal.

Ou seja: enquanto Brasília diz que a candidatura acabou, os candidatos dizem que continuam candidatos.

É o tipo de conflito que a política brasileira conhece bem, mas que ganha uma dimensão especial quando a disputa partidária encontra o calendário eleitoral.

Agora, a questão deixou de ser apenas política. Passou a ser jurídica. Quem tem legitimidade para falar em nome do PSB de Rondônia? A comissão provisória pode desfazer decisões tomadas pela direção estadual? E, principalmente, qual será o entendimento da Justiça Eleitoral diante de candidaturas que foram oficialmente apresentadas e depois rejeitadas pela própria legenda?

As respostas podem definir não apenas o destino de Samuel e Neidinha, mas também o desenho da eleição em Rondônia.

E, para o Acre, há uma curiosidade adicional: uma candidata nascida em Plácido de Castro acabou virando personagem de uma das primeiras grandes crises partidárias das eleições de 2026 em um Estado vizinho.

No Acre, PT faz o caminho inverso e abre mão de candidatura para apoiar nome do PSB

Se em Rondônia a direção nacional do PSB decidiu retirar uma candidatura própria ao governo para apoiar o PT, no Acre o movimento político foi exatamente o contrário.

Por aqui, o PT abriu mão de lançar candidatura própria ao Palácio Rio Branco e decidiu apoiar o médico infectologista Thor Dantas, nome do PSB para a disputa.

E há um detalhe que dá ainda mais peso à comparação: o presidente nacional do PSB, João Campos, já deixou claro de que lado está.

VEJA MAIS: Futuro governador”: João Campos reforça confiança do PSB nacional na candidatura de Thor Dantas

Em encontro com Thor, Campos reforçou o apoio da direção nacional e tratou o acreano como “futuro governador”.

“Estamos juntos do futuro governador Thor, do nosso partido, PSB. Tamo junto, meu irmão, conta com a gente. Estamos pegados para cuidar do povo, cuidar de quem mais precisa”, afirmou.

A diferença entre os dois estados chama atenção.

No Acre, o PT não trabalhou para tirar o PSB da disputa. Fez o contrário: abriu mão de uma candidatura própria para construir uma aliança em torno de Thor.

É uma diferença importante porque coloca os dois episódios dentro de uma mesma moldura política: enquanto em Rondônia o PSB nacional interfere para desmontar uma chapa própria e se aproximar do PT, no Acre o PT recua da cabeça de chapa para preservar a candidatura do PSB.

E João Campos, pelo menos por aqui, não deixa margem para dúvida sobre sua posição.

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