Acre em pixels: como jovens transformaram a Amazônia em jogo e chegaram à Europa

O mercado de games encontrou no Acre um solo fértil, embora desafiador

Por Maria Fernanda Arival, ContilNet 07/06/2026 às 11:34
Reforest é um jogo desenvolvido pela KGame/Foto: Reprodução

O mercado profissional de games cada vez mais chama atenção no Brasil, que conta com mais de 100 milhões de jogadores e um grande potencial de crescimento. O país tem se tornado um mercado promissor para produtoras de jogos eletrônicos. No Acre, não seria diferente. Um estúdio independente de desenvolvimento de jogos tem ganhado destaque nacional e internacional.

A imagem tradicional da Amazônia e da história do Acre costuma remeter aos seringais, à extração da borracha e às narrativas da floresta. Esse imaginário do Acre chegou à Alemanha, com o jogo Reforest, da KGame, estúdio independente de desenvolvimento de jogos do Acre.

Em Rio Branco, um grupo de jovens tem unido a identidade regional à tecnologia de ponta. A KGame vem se consolidando no mercado e apresentando a estética e a vivência acreana para grandes palcos nacionais e internacionais, como a Gamescom LATAM, em São Paulo.

Apesar de parecer apenas ‘brincadeira’, o mercado de games no Brasil tem apresentado grande faturamento anual. O número de brasileiros que têm o costume de jogar jogos digitais atingiu o nível mais alto já registrado pela Pesquisa Game Brasil (PGB) em 2025, levantamento anual sobre o comportamento dos jogadores de jogos eletrônicos no país, realizado desde 2013.

Acre em pixels: como jovens transformaram a Amazônia em jogo e chegaram à Europa

Brasil tem grande mercado de jogos eletrônicos/Foto: Ilustração

O mercado de games, que transita entre a produção cultural e o ecossistema de startups, encontrou no Acre um solo fértil, embora desafiador. Para prosperar, a potência criativa desses desenvolvedores conta com um braço direito estratégico: o apoio ao empreendedorismo fornecido pelo Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

O nascimento da KGame

“A acessibilidade está no centro da nossa filosofia de design. Dedicamos atenção especial a jogadores no espectro autista, garantindo que nossos jogos sejam divertidos, inclusivos e acolhedores para todos. Das profundezas da Amazônia para jogadores ao redor do mundo, somos mais que um estúdio — somos contadores de histórias, inovadores e criadores apaixonados, compartilhando a essência do Acre em cada jogo que fazemos”. É assim que a KGame se define para o mundo, de acordo com a sua biografia disponível no site do estúdio.

Fundado por volta de 2020, o estúdio nasceu com o propósito de criar jogos casuais — títulos rápidos, dinâmicos e ideais para serem jogados com apenas uma mão na rotina do dia a dia. Pouco tempo depois, o estúdio passou por uma reformulação.

Foi nesse momento que Andrey Araújo, de 25 anos. Formado em Análise de Sistemas pela Unama e graduando em Jogos Digitais pela Unimar, Andrey assumiu as funções de programador e CEO da empresa. Atualmente, a equipe é composta por quatro pessoas.

Andrey Araújo é CEO da KGame

Andrey Araújo é CEO da KGame/Foto: cedida

Manter uma desenvolvedora de jogos na Região Norte exige o que Andrey define como uma dose de “rebeldia e persistência”. Como o estúdio ainda está em fase de maturação financeira, os integrantes dividem o tempo entre seus empregos e criação dos jogos.

“É bem difícil, porque a gente tem que conciliar os nossos empregos com o desenvolvimento de jogos, porque fazer um jogo requer paciência, tempo, estudo, dedicação, pesquisa, que é assim como qualquer outro projeto que é artístico, a gente tem que ter um trabalho, conversas, testes. Então, acaba sendo algo que a gente demanda bastante tempo e a gente tem que conciliar, mas assim, é muito divertido. Ver uma pessoa que está testando algo que você fez, algo que você dedicou, colocou sua mão, deu o carinho, é muito legal”, disse.

Um dos jogos de maior destaque do estúdio é o Reforest. “Ele começou em uma game jam e hoje está em uma forma completamente diferente, muito mais evoluído. É algo que dá bastante orgulho”, disse.

“É um jogo de simulação de seringal, onde a gente recebe uma fazendinha, um seringal que está abandonado e a gente tem que fazer ele prosperar com plantação, colhendo… um joguinho de fazendinha, só que ambientado em um seringal. Colocamos algumas coisas na nossa região, como a nossa água barrenta, os barrancos”, explicou.

Sinopse do jogo: Você herdou uma fazenda cansada, mas cheia de potencial. Restaure, cultive, explore e transforme o que sobrou em algo seu — no seu tempo, no seu ritmo. Limpe o açude, plante onde era mato, reconstrua espaços esquecidos e descubra, passo a passo, a beleza que ainda mora ali.

Reforest é um jogo desenvolvido pela KGame

Reforest é um jogo desenvolvido pela KGame/Foto: Reprodução

De acordo com Andrey, o estúdio ainda não é a única renda do grupo. “Todos nós temos nossos trabalhos. A KGame está em desenvolvimento, está em crescimento. A gente está sempre tentando desenvolver algo mais. Ela está rendendo pra gente, porque já ganhamos prêmios, além de dinheiro, e a gente usa para comprar equipamento ou outras coisas que precisamos para o estúdio. Não é uma renda imediata, é algo que estamos trabalhando e crescendo, mas temos todo o processo de formulação, temos CNPJ”, disse. É nessa fase que o Sebrae joga.

De acordo com o analista técnico – gestor de Economia Criativa e Games do Sebrae Acre, Diogo Soares, a missão da instituição é apoiar os pequenos negócios.

“A gente atua desde a capacitação até no auxílio da construção de políticas públicas que melhorem esse ambiente de negócios onde o cliente está envolvido. No caso dos games, a gente tem uma situação muito particular. Eles fazem parte de uma linha de atuação que é muito importante para o Sebrae, que é a economia criativa. É exatamente essa área baseada na criatividade e criação de várias linguagens. Os games estão inseridos nesse contexto”, explicou.

Acre em pixels: como jovens transformaram a Amazônia em jogo e chegaram à Europa

Diogo Soares é analista técnico do Sebrae Acre/Foto: Bruno Moraes

Diogo conta, ainda, que os games têm uma atenção especial da instituição. “A geente tem um ecossistema nacional de games, que hoje é trabalhado com grande força do Sebrae Nacional. Nosso trabalho está muito ligado aqui no Acre aos estúdios de games, dentre eles a KGame, que eu considero o nosso case de maior sucesso”, disse.

Para Andrey, o Sebrae é um parceiro. “Tanto é que a gente quando participou dos eventos, a gente já era próximo do Sebrae. Nós vamos para reuniões que juntam pessoas da cultura, porque o desenvolvedor de jogos precisa de artistas para fazer uma música para a produção ou outros trabalhos. O Sebrae sempre foi uma ponte de contatos. Quando a gente ganhou a Game Jam deles na Expoacre, o prêmio que o Sebrae forneceu para a gente foi a viagem para São Paulo com os ingressos do evento Gamescom, o ingresso B2B, destinado para empresa, com possibilidade de negociar”, contou.

O analista relembrou a chegada da Headscon ao Acre, uma plataforma nacional que conecta games, educação, cultura e tecnologia para transformar realidades em todo o Brasil. “O único estúdio formalizado era a Kgame, e hoje temos mais de sete estúdios no estado. A gente teve um crescimento exponencial e isso se deve muito ao trabalho que o Sebrae vem fazendo, que é um trabalho de base mesmo, de conversa, de escuta e de possibilitar acesso a mercado”, ressaltou.

Acre na Alemanha

Foi com a possibilidade de acesso ao mercado oferecida pelo Sebrae e com comprometimento da equipe que a KGame chegou à Alemanha para participar da Gamescom, a maior feira global de jogos eletrônicos, realizada anualmente na cidade de Colônia.

“A premiação que nos levou a Alemanha foi uma amostra de jogos que ocorreu na antiga Gamecon, que virou Headscon, que foi por voto popular. A gente recebeu mais votos e o Ciro foi representando a gente lá na Alemanha. Ele conheceu a cultura de lá, viu o mercado de jogos, viu desde o momento do Triple A, que são jogos assim que tem bilhões investidos, até a parte indie, que são jogos independentes. Ele fez contatos com pessoas, empresas e publishers”, conta.

Na época, o estúdio ganhou a votação popular com um jogo chamado “Guardião Soturno: Redenção na Escuridão”, feito em parceria com outro grupo. O estúdio atuou como desenvolvedora do título, com prestação de serviço.

Além da Alemanha, o grupo também chegou à Gamescom LATAM em São Paulo e Headson Espírito Santo.

Acre em pixels: como jovens transformaram a Amazônia em jogo e chegaram à Europa

Estúdio acreano participou da Gamescom Latam/Foto: Reprodução

Em São Paulo, o jogo do estúdio acreano estava entre os 14 melhores jogos nacionais escolhidos pelo Sebrae. “Eles tiveram um estande na Gamescon LATAM. Isso representa muito o que é a KGame e o que é esse apoio que o Sebrae dá, que é exatamente ser um braço direito na melhor organização e no melhor aproveitamento da potência que tem um estúdio criativo como eles”, disse Diogo.

‘Nerd fazendo negócios’

O CEO da KGame, Andrey, destacou a parceria com o Sebrae para a publicação dos jogos. “O Sebrae está ajudando a gente a aprender a fazer negócio, porque fazer jogo a gente já sabe. A maior dificuldade, às vezes, é porque a gente é um bando de nerd que agora está aprendendo a fazer um negócio”, disse, rindo.

“A gente sabe fazer jogo, porém às vezes a parte de conversar é mais complicado. O Sebrae tem isso e ajuda muito a gente a conversar, saber ver proposta, saber se vender.

Acre em pixels: como jovens transformaram a Amazônia em jogo e chegaram à Europa

Estúdio acreano levou o jogo para eventos nacionais e internacionais/Foto: cedida

Para Diogo, empresas como a KGame surgindo no Acre é ‘magnífico’. “Os estúdios de games reúnem vários criadores. Eles têm uma natureza muito específica. Eles estão entre uma empresa de cultura e uma startup, porque tem essa característica muito grande de inovação. Quando a gente junta inovação, tecnologia e cultura, o resultado é o melhor possível. Não é à toa que eles estão tendo todo esse reconhecimento, porque além da qualidade do trabalho deles, são uma equipe muito bacana e muito competente, por isso os jogos deles têm sido reconhecidos em todas as oportunidades que tem”, afirmou.

Portfólio da KGame

A maturidade técnica da KGame reflete-se na diversidade de seus projetos. O portfólio do estúdio mescla entretenimento acessível e narrativas profundas:

  • SimFarm: Você opera uma colheitadeira sem controle que colhe tudo pela frente , mas tome cuidado para não quebrar ela.
  • Reforest: Você recebe um seringal abandonado e tem a missão de fazer ele prosperar novamente através do cultivo e cuidar da natureza.
  • Crianças Crescidas: Uma releitura de Alice no País das Maravilhas.
  • Forbbiden.Log: Você deve restaurar sua mente dos erros.
  • Dino Runner: Pensando em conscientizar a sociedade sobre as consequências das queimadas na Amazônia, desenvolvemos o jogo Dino Runner, onde o Dino tenta escapar das chamas fugindo para a cidade mais próxima, buscando refúgio em outros estados da região Norte do Brasil.

Confira todos os jogos do estúdio acreano aqui.

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