O coordenador regional do Morhan (Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela HansenĂase) no Acre, Elson Dias, alertou nesta terça-feira (13) para o aumento da doença entre a população acreana, principalmente entre crianças e adolescentes. A hansenĂase Ă© uma doença infecciosa e contagiosa, caracterizada por sintomas como manchas na pele, sensação de formigamento, fisgadas ou dormĂŞncia nas extremidades. Ela atinge inicialmente a pele, os olhos, o nariz e a garganta, podendo causar sĂ©rias incapacidades fĂsicas nos pĂ©s e nas mĂŁos.

No ano passado, o total de pacientes confirmados ficou em 111, alcançando o terceiro ano seguido com mais de 100 casos/Foto: Reprodução
Elson Dias informou que, do ano passado até esta primeira quinzena de maio de 2025, foram registrados pelo menos 150 novos casos da doença no Acre.
“Na última semana, cinco crianças e adolescentes chegaram até nós e, após encaminharmos para exames médicos, infelizmente os testes deram positivo”, disse o coordenador, ao alertar para a necessidade de os poderes públicos e os sistemas de saúde estadual e municipal prepararem profissionais para os atendimentos e diagnósticos precoces. “Quanto mais cedo a doença for diagnosticada, maior é a chance de cura”, acrescentou.
Dados do MinistĂ©rio da SaĂşde apontam que o Acre tem a oitava maior taxa de casos de hansenĂase a cada 100 mil habitantes no paĂs, com prevalĂŞncia nos municĂpios de Rio Branco e Cruzeiro do Sul, os mais populosos do estado. Os mesmos dados indicam que o Acre tem 16,26 casos por 100 mil habitantes, Ăndice que coloca o estado na quarta posição na regiĂŁo Norte e acima da mĂ©dia nacional, que foi de 9,67. Em 2023, o estado apresentou redução nos casos, mas o nĂşmero seguiu acima de 100. Nos dois Ăşltimos anos, já sĂŁo mais de 150 casos — o estado com maior taxa foi Mato Grosso, com 66,20 casos por 100 mil habitantes.
Em 10 anos, o Acre tambĂ©m teve redução nos casos novos. Em 2013, foram 137 novas confirmações, contra 135 em 2022, o que representa uma queda de 1,4%. Nesse perĂodo, o pico de confirmações foi registrado em 2014, com 141 casos. Entre 2022 e 2023, o Acre teve uma redução de 22% nos casos de hansenĂase, de acordo com dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação, divulgados pela Vigilância EpidemiolĂłgica da HansenĂase do estado.
VEJA MAIS:Â Com mais de 160 novos casos em 2024, Acre atinge maior registro de hansenĂase em 10 anos
No ano passado, o total de pacientes confirmados ficou em 111, alcançando o terceiro ano seguido com mais de 100 casos. Em 2020, primeiro ano da pandemia de Covid-19, foram registrados 86 casos. Em 2021, o número subiu para 109 e voltou a crescer, chegando a 143 em 2022.
A Secretaria de Estado de SaĂşde do Acre (Sesacre) ressalta que a falta de informação ainda Ă© um dos principais obstáculos no combate Ă infecção. Essa Ă© uma das questões abordadas por campanhas como o “Janeiro Roxo”, que busca conscientizar sobre a hansenĂase.
Nas dĂ©cadas de 1940, os portadores da doença eram caçados como bichos e internados Ă força em colĂ´nias, onde passavam a viver isolados, inclusive de seus familiares. Um decreto assinado pelo entĂŁo presidente general Eurico Gaspar Dutra, em 13 de janeiro de 1949, determinava o isolamento compulsĂłrio dos portadores de hansenĂase. O documento, composto por 34 artigos, revelava uma verdadeira caçada aos doentes.
Na época, a doença — ainda chamada de lepra — fazia com que os pacientes fossem perseguidos e afastados da sociedade. Toda essa perseguição só terminou após 30 anos, na década de 1980. “É obrigatório o isolamento dos casos contagiantes de lepra”, enfatizava o artigo 7º do decreto. Ao longo do texto legal, havia medidas ainda mais radicais, como a separação forçada de filhos de pais acometidos pela doença.
O Estado localizava os doentes por meio de denúncias da própria comunidade. Com medo, muitos fugiam para a mata, iniciando uma verdadeira caçada humana, segundo o Morhan.
“A comunidade era pequena, e a época era de seringueiros. Tinha o chefe do barracão, chamado de patrão. Quando aparecia uma pessoa com sintomas, o próprio patrão denunciava e ela tinha que sair da comunidade. Se resistisse, era caçada com cachorros. Os pacientes tinham medo, sabiam que seriam isolados”, conta Elson Dias.
O coordenador afirmou que Ă© preciso maior ação do poder pĂşblico para impedir o surgimento de novos casos. Ele citou como exemplo a EstratĂ©gia Nacional para o Enfrentamento Ă HansenĂase do MinistĂ©rio da SaĂşde para o perĂodo de 2024-2030, elaborada em oficina representativa, com metodologia participativa e que incluiu os principais interessados na temática: gestores dos trĂŞs nĂveis de governo, das áreas tĂ©cnicas de vigilância.
Como parte da estratĂ©gia, segundo Elson, estĂŁo as oficinas de capacitação de profissionais de saĂşde para a busca do diagnĂłstico precoce da doença, com foco tambĂ©m em pessoas com deficiĂŞncias decorrentes da hansenĂase, alĂ©m da atuação de movimentos sociais e centros de referĂŞncia.



