Um inseto que passou mais de um século sem ser visto pela ciência voltou a aparecer, desta vez no coração da Amazônia acreana. A descoberta de um exemplar raro do gênero Bagriella foi feita no Parque Nacional da Serra do Divisor, no extremo oeste do Acre, durante uma expedição de pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
O inseto recebeu o nome de Bagriella meneguettii e o registro feito no Acre é o primeiro do gênero em toda a América do Sul. O exemplar anterior permanece depositado no Museu Nacional de História Natural, em Washington, nos Estados Unidos.
LEIA TAMBÉM: Pesquisa descobre no Acre espécie rara de inseto ‘esquecida’ por um século
O achado foi divulgado pela Revista Amazônia e ganhou destaque pelo tempo que o gênero estava sem novos registros. O último exemplar conhecido havia sido coletado em 1923, na América Central. Desde então, nenhum outro havia sido encontrado ou registrado pela ciência.
Mas os pesquisadores não estavam na Serra do Divisor à procura desse inseto. A expedição tinha outro objetivo: investigar insetos que poderiam atuar como vetores da doença de Chagas. Para isso, a equipe instalou armadilhas luminosas na floresta e acabou encontrando, entre milhares de exemplares coletados, um animal que chamou atenção por não se encaixar no que já era conhecido naquela região.
Foi a partir daí que começou a investigação. A identificação levou os pesquisadores ao gênero Bagriella, que estava há 103 anos sem um novo registro científico.
Para o biólogo Jader de Oliveira, coautor do estudo, esse tipo de descoberta é um dos momentos mais importantes para quem trabalha com taxonomia. “O troféu do taxonomista é quando encontra algo novo. E esse bicho ficou 103 anos esperando por alguém que o reconhecesse”, afirmou.
O Bagriella meneguettii pertence à família Reduviidae, grupo conhecido pelos chamados percevejos predadores. São insetos que capturam outros animais e possuem características adaptadas para esse tipo de comportamento, como pernas raptoriais.
Apesar da descoberta, a história do inseto ainda está longe de ser completamente conhecida. Até agora, os pesquisadores encontraram apenas um exemplar. A equipe pretende analisar o DNA para entender melhor a espécie, inclusive sua relação evolutiva e possíveis hábitos alimentares. Outra busca importante é por um macho, que pode ajudar a esclarecer aspectos da reprodução e da biologia do animal.
O reencontro depois de 103 anos também mostra como ainda existem partes da Amazônia que permanecem pouco conhecidas pela ciência. Uma espécie pode passar décadas sem ser registrada não necessariamente porque desapareceu, mas porque vive em locais pouco explorados ou tem hábitos que tornam sua coleta difícil.
No caso do Bagriella, há ainda uma questão que intriga os pesquisadores: como um gênero registrado anteriormente na América Central foi parar no extremo oeste da Amazônia. A descoberta abre espaço para novas perguntas sobre a distribuição do inseto e a possibilidade de existirem outras populações ainda não identificadas.
A Serra do Divisor é justamente o tipo de lugar onde descobertas assim podem acontecer. Cercado por floresta e localizado na fronteira do Acre com o Peru, o parque reúne áreas de difícil acesso e uma enorme variedade de espécies. Mesmo com pesquisas realizadas ao longo dos anos, muito do que existe na região ainda não foi catalogado.
Por isso, o pequeno inseto encontrado durante uma pesquisa que buscava outra coisa acabou se tornando uma grande notícia para a ciência. Depois de 103 anos, o Bagriella meneguettii reapareceu. E fez isso em um dos lugares mais preservados e menos explorados da Amazônia brasileira.

