Pesquisa descobre no Acre espécie rara de inseto ‘esquecida’ por um século

Inseto do gênero Bagriella foi capturado na Serra do Divisor durante expedição sobre doença de Chagas

Por Fhagner Soares, ContilNet 27/05/2026 às 06:25
Bagriella meneguettii foi identificada por pesquisadores paulistas a partir de armadilhas luminosas montadas na fronteira/ Foto: Divulgação

Uma expedição científica realizada na floresta do Parque Nacional da Serra do Divisor, no Acre, resultou na descoberta de uma espécie inédita e rara de inseto pertencente à família Reduviidae (percevejos). O achado, liderado por pesquisadores da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) de Araraquara, representa um avanço para a taxonomia a ciência de identificação e classificação dos seres vivos. Batizado de Bagriella meneguettii, o inseto pertence a um gênero que permaneceu sem novos registros na ciência por mais de 100 anos.

Até então, o único exemplar de Bagriella conhecido no mundo havia sido coletado na América Central em 1923 e encontra-se depositado no Museu Nacional de História Natural, em Washington, nos Estados Unidos. O novo espécime foi localizado por cientistas da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Unesp e liga o interior paulista à fronteira amazônica.

“O troféu do taxonomista é quando encontra algo novo. E esse bicho ficou 103 anos esperando por alguém que o reconhecesse”, afirmou o biólogo Jader de Oliveira, coautor do estudo.

O objetivo primário da viagem dos pesquisadores à Amazônia era mapear a presença e o comportamento de triatomíneos os “barbeiros”, insetos vetores do protozoário causador da doença de Chagas. O foco da amostragem concentrava-se em áreas de mata dos estados de Rondônia e do Acre.

Para a coleta, o grupo instalou dez armadilhas luminosas em pontos estratégicos da Serra do Divisor, região de tríplice fronteira entre o Brasil, o Peru e a Bolívia. A estrutura atraiu uma miscelânea de mais de 10 mil insetos de ordens variadas. Ao triar o material, a morfologia de um percevejo específico chamou a atenção de Oliveira, que suspeitou tratar-se do gênero raro.

Para confirmar a tese, o pesquisador recorreu ao professor Hélcio Reinaldo Gil Santana, um dos dois únicos especialistas brasileiros na família Reduviidae. Diante do indício de novidade, os cientistas contataram o curador do museu em Washington, que enviou fotografias em alta resolução do holótipo de 1923 para comparação direta.

Os testes morfológicos comprovaram que a anatomia das asas e das pernas raptoriais — estruturas dianteiras adaptadas em formato de pinça para agarrar presas — não correspondia à Bagriella ornata, a espécie centro-americana. A descoberta da Bagriella meneguettii foi chancelada e publicada na edição de abril do Journal of the International Heteropterists’ Society (JHIS), fruto do consórcio de pesquisa Amazônia+10, financiado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

Seguindo a tradição acadêmica de batizar organismos em tributo a cientistas de relevância regional, o nome meneguettii foi escolhido em consenso para homenagear o professor Dionatas Ulises de Oliveira Meneguetti, da Universidade Federal do Acre (UFAC). Segundo os autores do projeto, o docente atuou como peça-chave para viabilizar a logística na região norte.

“Sem ele, dificilmente chegaríamos até lá. Ele abriu as portas, conhecia a região, tinha alunos daquela área. Isso facilita tudo, desde o contato com as comunidades locais até o conhecimento do território”, explicou Jader de Oliveira.

A escolha da Serra do Divisor como campo de análise justifica-se pela posição geopolítica. Cientistas alertam que vetores biológicos não respeitam linhas divisórias de mapas, tornando vital compreender a fauna que circula na fronteira. O grupo alerta, contudo, que o avanço da pressão econômica e do desmatamento na Amazônia corre o risco de extinguir espécies endêmicas de ecossistemas restritos antes mesmo que a ciência consiga catalogá-las.

Com a descrição taxonômica consolidada, os próximos passos da pesquisa preveem o emprego de técnicas de sequenciamento de DNA no trato digestivo do inseto para rastrear os hábitos alimentares da espécie e preencher lacunas de seu papel ecológico na floresta.

O grupo também planeja novas incursões de campo em áreas de transição da floresta tropical para verificar se o percevejo habita exclusivamente o ecossistema da Serra do Divisor ou possui distribuição geográfica mais ampla. A meta principal das futuras coletas é capturar um exemplar macho, uma vez que tanto o inseto achado no Acre quanto o guardado nos Estados Unidos desde a década de 1923 são fêmeas, impedindo o desenho da biologia reprodutiva completa do gênero.

Conteúdo Original / Fonte: Fhagner Soares, ContilNet

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