Saerb aponta desperdício como vilão do abastecimento de água em Rio Branco
Rio Branco atravessa mais um período de estiagem com o Rio Acre em níveis baixos e o consumo de água em alta. Embora o cenário ainda não represente, segundo o Serviço de Água e Esgoto de Rio Branco (Saerb), risco de colapso no abastecimento da capital, a seca expõe fragilidades que vão além do nível do rio.
Em entrevista ao ContilNet, o diretor do Saerb, Enoque Pereira, afirmou que a autarquia acompanha de perto o comportamento do Rio Acre e das estruturas de captação. A preocupação ganhou força depois de 2024, quando o rio atingiu 1,23 metro, a menor marca registrada em mais de cinco décadas de medições.
O cenário daquele ano mudou a forma como o sistema passou a ser acompanhado. Desde então, o Saerb intensificou o monitoramento das estruturas das ETAs I e II, que já sofreram com desbarrancamentos e movimentações de solo. Mesmo com esses riscos, segundo Enoque, as captações conseguiram atravessar o atual período de inverno sem grandes interrupções.
“A gente passou a monitorar muito mais de perto essa situação e esse enfrentamento tem todo ano. O rio sobe é problema, seca também é problema. E a gente enfrentou tudo isso e esse ano agora a gente não teve nenhuma intercorrência grave, salvo paradas pontuais, a gente trabalha com equipamentos muito grandes, tem motor de 350 cavalos a 400 cavalos, rodando 24 horas por dia, não dá problema”, disse.
Enoque Pereira, afirmou que a autarquia acompanha de perto o comportamento do Rio Acre/Foto: ContilNet
O diretor explica que a estrutura de captação continua operando. Os equipamentos responsáveis pela retirada da água funcionam durante 24 horas e passam por manutenção preventiva para reduzir a possibilidade de falhas.
“As duas captações (ETA I e ETA II), elas realmente estão em um local hoje que ainda representa risco de desbarrancamento, de movimento de solo. Ocorreu mais ou menos dois meses, um mês pra dois meses, uma situação que ele mexeu o cabeamento dos equipamentos, então ele cortou, aí teve que parar, a gente teve que tirar e enterrar o botemilho aéreo pra não ter mais esse tipo de problema”, explicou.
O problema começa quando a água precisa chegar aos bairros
O crescimento de Rio Branco, principalmente nas áreas mais altas, aumentou a pressão sobre uma estrutura de reservação que, segundo o Saerb, já não acompanha o tamanho da capital.
Bairros mais distantes dos reservatórios podem enfrentar dificuldades de pressão e vazão. Em alguns pontos, existem quilômetros de tubulações consideradas finas para a demanda atual, fazendo com que a água demore mais para chegar às residências.
“O que a gente precisa é que tenha esse cuidado de não desperdiçar. Então na parte alta, por ser uma área que cresceu demais, mantendo só dois reservatórios, infelizmente tornou-se pequena a reservação mediante a área que cresceu então é um problema que para a gente resolver nós estamos fazendo todo o estudo inclusive vai ter licitação esse ano ainda para a gente ampliar a reservação do nosso centro de reservação”, completou.
Bairros mais distantes dos reservatórios podem enfrentar dificuldades de pressão e vazão/Foto: Assecom
A solução passa pela ampliação da estrutura. O Saerb planeja aumentar em 4 mil metros cúbicos a capacidade do Centro de Reservação Bem-Te-Vi e implantar uma nova reserva no Quixadá. Somadas, as intervenções devem acrescentar cerca de 8 mil metros cúbicos de capacidade à parte alta de Rio Branco.
A previsão é que as melhorias sejam concluídas até o fim de 2027, embora o órgão trabalhe com a possibilidade de antecipar parte das obras.
“A reservação que tem hoje na parte alta e os reservatórios que bombeiam para os bairros, eles já estão defasados há anos. Então a gente pegou um sistema com defasagem crítica mesmo, assim. Mas estamos corrigindo”, informou.
Outro fator que pesa durante a estiagem é o comportamento do consumo. No período seco, moradores que normalmente utilizam poços passam a depender da rede pública quando essas fontes diminuem ou deixam de fornecer água.
O resultado é uma pressão maior sobre o sistema justamente quando a demanda também cresce.
Apesar disso, o diretor afirma que a quantidade de água tratada não é, atualmente, o principal problema. Segundo ele, a produção do Saerb chega a quase o dobro do volume necessário para manter o abastecimento durante 24 horas.
Caixas-d’água que continuam recebendo água depois de cheias, vazamentos e uso excessivo dentro das residências acabam aumentando a demanda sobre uma rede que já apresenta dificuldades em algumas regiões.
“O enfrentamento que a gente tem maior é o da casa, então assim, o usuário muitas das vezes enche a caixa d’água em uma hora de abastecimento e derrama mais 5 horas e não está nem aí. Então assim, isso atinge diretamente o sistema. Hoje a gente produz praticamente o dobro da água. Rio Branco precisa para ter água 24 horas, então assim, a gente já vê que o volume de água não é problema, a água que a gente trata não é problema, é muita água o problema é que o desperdício é muito alto”, completou.
O Saerb passou a intensificar as ações de fiscalização e, segundo Enoque, já possui mecanismos para notificar e multar usuários que insistirem no desperdício, além de outras medidas previstas para casos de reincidência.
Zona rural depende de caminhões-pipa
Fora da área atendida pela rede convencional, a situação é ainda mais delicada. Comunidades rurais de Rio Branco não contam com o sistema regular de abastecimento e, durante a estiagem, dependem de ações emergenciais.
Neste ano, o Saerb disponibilizou dois caminhões-pipa para reforçar o atendimento, em conjunto com ações da Defesa Civil.
“O ambiente rural, e não tem a rede nossa de água, todo ano eles utilizam o pipa da Defesa Civil. Inclusive esse ano agora o Saeb tem dois pipas, a gente botou dois pipas para ajudar, inclusive, nessa situação. A gente sabe que na zona rural tem garapé, por exemplo, que secou”, disse.
A falta de água também atinge animais. Segundo o diretor, alguns igarapés utilizados por moradores e produtores rurais secaram, obrigando pessoas e animais a percorrer distâncias maiores em busca de água.
Saerb disponibilizou dois caminhões-pipa para reforçar o atendimento/Foto: Assessoria
“Não só as pessoas que precisam de água, mas até os animais estão indo buscar água mais longe. Algumas não estão conseguindo, estão morrendo nesse período. E a gente está atendendo, mas são regiões que não têm atendimento do Saerbe. Então, a gente atende”, ressaltou.
Na área urbana, também existem pontos onde a rede foi instalada, mas a estrutura não possui capacidade suficiente para garantir o abastecimento regular. Distância dos reservatórios, baixa vazão e tubulações de pequeno diâmetro estão entre os fatores que dificultam a chegada da água.
Nesses casos, os caminhões-pipa acabam sendo utilizados como alternativa emergencial.
A seca pode deixar de ser exceção
Para o Saerb, o maior desafio não está apenas em atravessar a estiagem atual, mas em preparar Rio Branco para um cenário em que eventos extremos se tornem cada vez mais frequentes.
A alternância entre períodos de seca intensa e grandes cheias já faz parte da realidade enfrentada pela capital. O diretor avalia que o planejamento do abastecimento precisa considerar essa mudança e não depender apenas das condições normais do Rio Acre.
Uma das alternativas estudadas é a construção de uma grande estrutura de armazenamento, como uma represa ou açude, que permita criar uma reserva estratégica para períodos em que o rio esteja muito baixo. A ideia é garantir que uma eventual redução extrema do nível do Rio Acre não interrompa imediatamente o fornecimento de água à população.
alternância entre períodos de seca intensa e grandes cheias já faz parte da realidade enfrentada pela capital — Foto: Juan Diaz, ContilNet
O próprio histórico recente mostra a dimensão do desafio. Em 2024, o rio chegou a 1,23 metro. Neste ano, segundo o Saerb, o nível chegou a ficar próximo de 1,69 metro antes de uma chuva elevar temporariamente a marca.
“Mesmo a gente chegar em 1,23m, a gente já passou por isso em 2024 e a gente consegue passar por esse ano. E essa dificuldade que a gente está tendo, e na atividade nós estamos já voltando dentro da nossa rotina, porque vai ter cada vez pior, cada ano. Então, a gente precisa só que nessa parte crítica da cidade, as pessoas nos compreendam, entendam que a situação, embora que seja passageiro, mas é todo ano, então a gente vai aprender a economizar água”, disse.
LEIA TAMBÉM: Prefeitura amplia distribuição de água potável em comunidades rurais
O desafio que começa dentro de casa
Enquanto obras de infraestrutura são planejadas, uma parte da resposta depende diretamente dos moradores.
Para o Saerb, não basta ampliar a capacidade de captação, tratamento e armazenamento se uma parcela significativa da água produzida é desperdiçada antes mesmo de chegar ao consumidor seguinte.
A orientação, portanto, é que a economia não seja tratada apenas como uma medida emergencial durante a seca. Em uma cidade que precisa conviver com períodos cada vez mais extremos, reduzir o desperdício passa a fazer parte da rotina.
“Então, a gente precisa só que nessa parte crítica da cidade, as pessoas nos compreendam, entendam que a situação, embora que seja passageiro, mas é todo ano, então a gente vai aprender a economizar água. Isso aí tem que ser uma rotina. Não é só quando está em crise que eu vou… Não. Às vezes, no momento bom de produção, a gente observa na parte… Não é na parte alta. Muito desperdício. Então, isso contribui para que o vizinho não tenha água”, finalizou.