A temporada 2022 da Fórmula 1 vai começar oficialmente nesta sexta-feira (18/3) com os primeiros treinos livres do GP do Bahrein. Mas nada indica que o campeonato deste ano será uma sequência natural da última e tumultuada corrida de 2021, quando o holandês Max Verstappen ultrapassou o inglês Lewis Hamilton na última volta em Abu Dabi e se sagrou campeão em meio às polêmicas decisões do então diretor de provas Michael Masi.


O grande diferencial deste ano Ă© a profunda reformulação dos carros da categoria. Na busca por melhor rendimento dos monopostos sem a famigerada turbulĂŞncia, que impede maior nĂşmero de ultrapassagens durante as provas, a F-1 encontrou soluções na dĂ©cada de 80, no conceito de “carros-asa” e “efeito-solo”. A novidade tambĂ©m se deve Ă busca por disputas mais equilibradas na pista para aumentar a competitividade e atrair mais pĂşblico.Na prática, os modelos foram recriados do zero, a partir do chassi, que passou a ter papel determinante na aerodinâmica dos veĂculos. Houve mudanças ainda nos aerofĂłlios, dianteiro e traseiro, nos pneus, nas laterais, tudo para deixar o carro mais eficiente e com maior capacidade para fazer ultrapassagens. De quebra, os modelos se tornaram mais agressivos e bonitos visualmente. A direção americana da F-1 promete um show nas pistas. AtĂ© o safety car mudou de cor.
“Pulos” na pista
Os novos carros trouxeram novas preocupações. Logo nos primeiros testes da pré-temporada, em Barcelona, os modelos deste ano apresentaram leves solavancos nas retas do Circuito da Catalunha Com essas vibrações, o carro “quica” sobre o asfalto, como se percorresse um traçado cheio de buracos. O problema ganhou o nome de “porpoising”, em referência ao movimento de nado de alguns animais aquáticos, caso do golfinho (porpoise, em inglês)
Este movimento do carro não chega a reduzir a velocidade dos monopostos, mas pode trazer danos ao modelo e ao próprio piloto, principalmente nas costas. A causa é uma falha aerodinâmica do chamado “efeito-solo”. O ar que passa sob o carro não estaria trazendo os efeitos mais desejados.
Na prática, a maior parte das equipes amenizou, ainda que aparentemente, o problema já na segunda e última bateria de testes da pré-temporada, na semana passada. Mas há a expectativa sobre como cada carro vai se comportar nas diferentes pistas do calendário. Traçados de maior velocidade podem ampliar o problema.
Hamilton x Verstappen
Apesar das novidades do ano e da expectativa por novos protagonistas no campeonato, a rivalidade entre Hamilton e Verstappen deve ser mantida, talvez atĂ© ampliada, na temporada 2022. Se o holandĂŞs terá o combustĂvel extra da confiança elevada, pelo tĂtulo conquistado, o britânico já avisou que nĂŁo está para brincadeira neste ano. Ele quer retomar o trofĂ©u.




Ao fim da prĂ©-temporada, Hamilton disse que a Mercedes nĂŁo tinha carro para vitĂłrias neste ano, ao menos temporariamente. Mas afirmou que se vĂŞ “mais perigoso” e ainda “no topo”, depois da experiĂŞncia traumática na corrida final de 2021. Na ocasiĂŁo, vencia a prova com certa folga, muito perto do oitavo tĂtulo mundial (entĂŁo novo recorde da F-1), quando uma batida mudou a histĂłria da prova e do campeonato.
Decisões desastradas e contestadas de Michael Masi deixaram Verstappen colado em Hamilton na pista após a entrada do safety car no traçado. Com pneus novos, o holandês passou fácil o rival na última volta e venceu. A Mercedes contestou, os dirigentes do time ameaçaram mover mundos e fundos para rever o resultado. Sob pressão, a Federação Internacional de Automobilismo (FIA) apurou o caso, não alterou o resultado, mas demitiu seu então diretor de provas.
Mesmo sem se destacar na prĂ©-temporada, a Mercedes pode atĂ© perder a hegemonia – sĂŁo oito tĂtulos do Mundial de Construtores consecutivos -, mas deve estar na briga pelos trofĂ©us. Afinal, vem investindo tempo e dinheiro (dentro do teto de gastos) no novo projeto dos carros da F-1 há alguns anos em sua poderosa fábrica, com mais de 2 mil funcionários.
O sumiço de Hamilton
O decepcionante fim de temporada fez Hamilton desaparecer das redes sociais por dois meses. Neste perĂodo, fez apenas duas aparições pĂşblicas, quase inevitáveis, na despedida do finlandĂŞs Valtteri Bottas da Mercedes, na fábrica, e na cerimĂ´nia em que recebeu o tĂtulo de Cavaleiro da Rainha, do prĂncipe Charles, no Castelo de Windsor.
Declarações do chefe da equipe, Toto Wolff, aumentaram os rumores de que o piloto poderia se aposentar da Fórmula 1. Nem a Mercedes e nem o próprio Hamilton desmentiam o boato, usado de certa forma para pressionar a FIA a respeito de uma decisão sobre o resultado do campeonato de 2021.
No inĂcio de fevereiro, Hamilton retornou Ă s redes sociais sem comentários explicativos. Disse apenas: “Eu fui. Agora estou de volta!”. Os rumores foram ao chĂŁo e os fĂŁs respiraram aliviados. De volta Ă s pistas nos testes de Barcelona e Bahrein, o inglĂŞs esteve longe de brilhar e acabou voltando ao noticiário por um motivo improvável.
Ele revelou que pretende mudar seu nome para acrescentar o sobrenome da mãe, Larbalestier. O inglês, portanto, pode aparecer com “nova identidade” na tabela de tempos dos treinos e corridas da F-1 neste ano.
Finais de semana mais enxutos
A partir deste ano, os finais de semana da Fórmula 1 serão mais enxutos, de forma a aumentar a economia na categoria. Até 2021, a etapa começava na quinta-feira, quando os pilotos faziam a tradicional caminhada na pista e passavam a maior parte do dia atendendo a imprensa.
A tradicional entrevista coletiva de quinta e as eventuais individuais agora serão realizadas às sextas-feiras, antes do primeiro treino livre do dia. Na prática, isso significa um dia a menos de trabalho para o estafe interno de todas as equipes, dos pilotos aos funcionários que cuidam dos centros de hospitalidade de cada time.
Por causa da pandemia de covid-19, a coletiva de quinta chegava a ter quase quatro horas de duração, envolvendo os 20 pilotos do grid. Agora serão duas horas de atendimento aos jornalistas na sexta. A imprensa, portanto, terá menos acesso aos pilotos e aos dirigentes dos times.
Estes vĂŁo conceder coletiva aos sábados, um dia depois do que acontecia atĂ© 2021. Esta entrevista será sempre realizada no inĂcio do dia, uma hora e meia antes do inĂcio do terceiro e Ăşltimo treino livre. A programação de domingo foi mantida.
DemissĂŁo de Michael Masi e novo diretor de provas
As decisões controvérsias de Michael Masi como sucesso de Charlie Whiting fizeram o novo presidente da FIA, Mohammed Ben Sulayem, tirá-lo do cargo de diretor de provas. Nesta temporada, o alemão Niels Wittich e o português Eduardo Freitas se alternam no posto, com assistência do veterano Herbie Blash, escolhido para voltar a ser conselheiro sênior permanente. Blash é muito próximo de Bernie Ecclestone, ex-chefão da Fórmula 1, o que evidencia a influência de Ecclestone na nova gestão da FIA.
Ben Sulayem também implementou outras mudanças, como a adoção de uma sala virtual de controle de corrida, em um escritório da FIA fora dos circuitos, em processo semelhante ao VAR do futebol, além de restringir as comunicações de rádios das equipes para resguardar a direção de prova de pressões externas.
Recorde de audiĂŞncia de pĂşblico nos circuitos em 2021
Focada em jovens e mais popular, a Fórmula 1 registrou recorde de audiência televisiva global em 2021, de 1,55 bilhão de espectadores, com alta de 4% em relação a 2020, o que demonstra o aumento do interesse mundial pela categoria, puxado, sobretudo, pela rivalidade entre Hamilton e Verstappen. A corrida derradeira em Abu Dabi atraiu 108,7 milhões de espectadores, 29% a mais que a mesma etapa de 2020. Algumas das maiores praças do campeonato, como EUA, França, Itália e Inglaterra, se destacaram com números expressivos em audiência.
No Brasil, os nĂşmeros diminuĂram, mas “houve resultados muito positivos”, segundo relatĂłrio da F-1, que apontou que a categoria desfruta de “cobertura muito mais aprofundada e com mais horas de transmissĂŁo do que em 2020”, em referĂŞncia Ă transmissĂŁo da Band, emissora que voltou a transmitir as etapas depois de 41 anos. A Globo abriu mĂŁo do campeonato. Em 2021, as corridas levaram 2,69 milhões de pessoas Ă s arquibancadas. O GP de SĂŁo Paulo atraiu 181 mil espectadores em trĂŞs dias de evento, maior pĂşblico da histĂłria.
Efeitos da invasão russa à Ucrânia
Como quase tudo no mundo, a Fórmula 1 foi impactada pela invasão da Rússia à Ucrânia. A Haas rompeu o contrato com o russo Nikita Mazepin e desfez a parceria com a empresa russa Uralkali, cujo dono, Dmitry, pai do piloto, é amigo pessoal do presidente Vladimir Putin.
A guerra na Ucrânia tambĂ©m fez a direção romper o contrato com os russos em definitivo e, portanto, banir a nação do Leste Europeu de seu calendário de corridas. O GP do paĂs estava marcado para o mĂŞs de setembro, em Sochi. Foram oito provas realizadas na cidade. Em 2023, SĂŁo Petersburgo estrearia no calendário. Sem o GP russo nĂŁo haverá recorde de corridas. SĂŁo 22 provas confirmadas. Resta saber se a data aberta será preenchida.
Sem brasileiro, mais uma vez
A saĂda de Mazepin da Haas criou esperanças nos fĂŁs brasileiros, que gostariam de ver Pietro Fittipaldi no grid. O brasileiro, porĂ©m, foi preterido pelo dinamarquĂŞs Kevin Magnussen, que retorna Ă equipe apĂłs um ano fora, e o PaĂs continuará sem um representante na pista – o Ăşltimo foi Felipe Massa.
O neto do bicampeão mundial Emerson Fittipaldi era o candidato mais natural à vaga por ter sido piloto reserva do time americano nos últimos três anos. No entanto, pesou contra ele a ausência de patrocinadores poderosos. Pietro participou da última bateria de testes da pré-temporada no Bahrein.
Danças das cadeiras dos pilotos
A temporada começa com cinco mudanças entre os 20 pilotos do grid. A principal delas Ă© a entrada na Mercedes do britânico George Russell, que será o parceiro de Lewis Hamilton. A Williams assinou com o tailandĂŞs Alexander Albon para repor a saĂda de Russell. O antigo companheiro de equipe do heptacampeĂŁo mundial, o finlandĂŞs Valtteri Bottas, migrou para a Alfa Romeo para ocupar o lugar de seu compatriota Kimi Raikkonen, que deixou a categoria.
Bottas terá a companhia Guanyu Zhou, piloto de 22 anos que será o primeiro chinês na Fórmula 1. Na Haas, Kevin Magnussen retorna para formar parceria com Mick Schumacher substituir Nikita Mazepin, fora da equipe em virtude da invasão da Rússia à Ucrânia.

