Os momentos de badalação e glĂłria foram substituĂdos por uma espĂ©cie de isolamento social. Aos 38 anos, o jogador Robinho, segundo pessoas de sua confiança, estaria vivendo de forma discreta na Baixada Santista, agora o oposto daquele atleta sorridente, divertido e confiante.
Robinho estaria se mantendo graças ao dinheiro que obteve durante a carreira, acumulando passagens por paĂses nos quais recebeu bons salários, como Inglaterra, Espanha, China e Turquia, onde jogou pela Ăşltima vez, antes de ser julgado e condenado por participar de estupro coletivo em MilĂŁo, em 2013, quando era uma das estrelas do Milan. O Santos e a seleção brasileira foram outras camisas que o atacante vestiu com orgulho.
Após a sentença, proferida em janeiro desde ano, foram encaminhados à Justiça brasileira, pelo Ministério Público de Milão, o pedido de extradição e mandado de prisão internacional do jogador. Robinho foi considerado culpado, junto com o amigo Ricardo Falco, de ter cometido violência sexual em grupo contra uma jovem de 23 anos. A condenação é definitiva na Itália, em terceira instância. A pena é de 9 anos de prisão. Robinho alega inocência e não esteve presente no julgamento.
Questionada pelo EstadĂŁo a respeito de pedidos da Justiça italiana para a captura ou intimação do jogador, a PolĂcia Federal evitou dar maiores detalhes do caso, mas, nas entrelinhas, admitiu que Robinho Ă© procurado.
Essa foi a mesma opiniĂŁo da criminalista Jacqueline do Prado Valles, ouvida pela reportagem. “As informações sobre a localização ou pedido de localização de pessoas procuradas sĂŁo sigilosas, uma vez que a sua divulgação pode atrapalhar ou inviabilizar possĂveis diligĂŞncias”, informou a assessoria de imprensa da PF brasileira apĂłs pedido do EstadĂŁo.
Para Prado Valles, sĂłcia da Valles e Valles Sociedade de Advogados, na capital paulista, a declaração da PF indica que o jogador Ă© considerado procurado e a PF aguarda os trâmites entre os paĂses para realizar algum tipo de ação em relação ao jogador “Sim, cabe dizer que Robinho Ă© procurado, em razĂŁo da cooperação entre os paĂses. Acredito que esta cooperação já está ocorrendo”, afirma.
A criminalista explica que, apĂłs ter conhecimento formal dos fatos, o MinistĂ©rio PĂşblico brasileiro tem 30 dias para apresentar a denĂşncia. “Isso quando o acusado está solto pelas nossas leis. Supostamente, ele está solto no Brasil porque nĂŁo foi homologada essa decisĂŁo de prisĂŁo ainda. O que está acontecendo na PolĂcia Federal Ă© que eles podem estar investigando onde está o Robinho para iniciar um depoimento, um processo, de retomada da investigação ou para que ele tome ciĂŞncia de que a ação penal vai começar”, defende.
Caso o MinistĂ©rio PĂşblico nĂŁo entre com a denĂşncia nesses 30 dias, conforme informa Prado Valles, qualquer cidadĂŁo poderia acionar com uma “queixa-crime supletiva”, como Ă© conhecida nos meios jurĂdicos. “Uma pessoa que se revolta com a perda do prazo pode contratar um advogado e oferecer uma queixa-crime, que Ă© uma ação penal privada no lugar do MinistĂ©rio PĂşblico. Essa queixa-crime Ă© recebida e o MinistĂ©rio PĂşblico pode aĂ dar continuidade Ă ação penal ou ficar como fiscal da lei. E quem tocaria a ação seria o advogado particular”, explica.
Elo entre autoridades
A PolĂcia Federal ressaltou que tem como uma das principais atribuições atuar como um elo entre as autoridades, no caso do Brasil com a Itália. “A PF funciona como o ponto de ligação entre as autoridades policiais brasileiras e as congĂŞneres de outros paĂses, sendo o canal de comunicação para todas as ações de cooperação policial internacional. AlĂ©m disso, tambĂ©m representa a Interpol (organismo internacional de cooperação policial), sendo responsável por receber e transmitir todos os pedidos e respostas dos paĂses associados”, informou a nota da entidade.
Para a PF, porĂ©m, a extradição de Robinho para a Itália está descartada. Ele nĂŁo será enviado para o paĂs europeu, onde ocorreu o estupro quando atuava em MilĂŁo. “De acordo com o art. 5Âş , inciso LI, da nossa Constituição Federal, nĂŁo Ă© possĂvel a extradição de brasileiros natos, motivo pelo qual inexiste qualquer processo relacionado Ă extradição de Robson de Souza em nosso paĂs”, declarou a entidade.
Já o advogado Luciano Santoro, que tambĂ©m considera que a extradição nĂŁo Ă© permitida, acrescenta que há a possibilidade de a pena ser cumprida no Brasil, caso seja realizado um novo julgamento no PaĂs. Santoro fez parte da equipe que defendeu Robinho, no Brasil, antes da condenação do jogador.
Santoro conta que foi contratado pelo Santos, no fim de 2020, para ajudar na defesa do jogador. Robinho foi revelado e teve quatro passagens pelo clube santista. Na última nem jogou em função de pressão de patrocinadores por causa do julgamento em andamento. O contrato, assinado, ficou na gaveta do presidente. Santoro, por sua vez, ressaltou que já não atua mais no caso.
Na visão de Santoro, ainda de acordo com a lei penal brasileira, há a chamada “extraterritorialidade” (aplicação da lei para crimes cometidos fora do Brasil), para delitos praticados por brasileiro fora do território nacional, pelo artigo 7°, inciso II.
“Em tese, Ă© possĂvel ao Estado Brasileiro vir a julgar os mesmos fatos, observando-se as garantias e direitos fundamentais e o ordenamento jurĂdico penal e processual penal pátrio. Em consequĂŞncia, como o artigo 15 do Decreto no 862/1993 (Tratado sobre Cooperação Judiciária em MatĂ©ria Penal, entre a RepĂşblica Federativa do Brasil e a RepĂşblica italiana) prevĂŞ que a Itália informará o Brasil da sentença condenatĂłria imposta, Ă© possĂvel que nosso governo solicite cĂłpia do processo italiano para instruir eventual ação penal perante a Justiça brasileira”, observa.
Há correntes que negam a possibilidade de transferĂŞncia da execução da pena, pelo fato de, baseadas no artigo 5Âş, inciso LI, da Constituição, nĂŁo sendo possĂvel a extradição de brasileiro nato, nĂŁo haveria como ser utilizado o artigo 100 da Lei de Migração, no qual a transferĂŞncia do julgamento está diretamente ligada Ă possibilidade da extradição.
Coordenação com o Ministério da Justiça
Segundo a PF, a “possĂvel localização e intimação” de Robinho necessitaria vir por meio de uma coordenação com uma Autoridade Central do governo brasileiro, no caso o DRCI (Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação JurĂdica Internacional) do MJSP (MinistĂ©rio da Justiça e Segurança PĂşblica). AtĂ© o fechamento desta matĂ©ria, o ĂłrgĂŁo nĂŁo respondeu Ă s perguntas da reportagem, assim como a Embaixada da Itália no Brasil.
A criminalista Prado Valles acrescenta que a PF tem um acordo, uma ligação para que seja feita uma busca de pessoas procuradas, situação em que, segundo ela, Robinho se encaixa. “Não quer dizer que a PF pegará o Robinho e o entregará para a Justiça italiana, pode capturar e iniciar uma ação aqui no Brasil com uma denúncia feita pelo Ministério Público brasileiro, em cima de todas as provas já utilizadas pela Justiça Italiana”, diz.
Para a criminalista, os trâmites para o julgamento seriam os mesmos de qualquer processo criminal no Brasil. “O único item que seria mais rápido seria a investigação, porque o Poder Judiciário vai utilizar toda a parte investigatória feita pela Justiça Italiana, e isso ajuda muito na rapidez do julgamento. A demora seria na parte judicial. Acredito que, caso o julgamento ocorresse novamente no Brasil, o prazo estimado poderia ser de seis meses”, observa.
Prado Valles destaca, no entanto, que um novo julgamento de Robinho poderia até levá-lo à absolvição no Brasil. “Se o Robinho for absolvido em território brasileiro, estará absolvido, mas a decisão da Itália impede que ele entre na Europa. No Brasil, porém, ele seria um homem absolvido, livre, isso poderia acontecer”, completa.



