De janeiro a agosto deste ano, Manaus registrou 651 homicĂdios, segundo dados da Secretaria de Segurança PĂşblica. Em oito meses, a quantidade de assassinatos chegou quase ao mesmo nĂşmero registrado em todo o ano de 2020, quando houve 657 homicĂdios na capital. Em 2019, antes da pandemia, foram registradas 839 mortes.
E todo crime desse tipo que ocorre em Manaus Ă© investigado pela Delegacia Especializada em HomicĂdios e Sequestros (DEHS), que conta somente com 19 investigadores para elucidar os casos de assassinatos.
Há 12 anos a PolĂcia Civil nĂŁo realiza concurso pĂşblico para integração de pessoal. O dĂ©ficit de servidores Ă© um problema que sobrecarrega os agentes.
Questionada, a Secretaria de Segurança PĂşblica informou que tem reforçado incursões em bairros com altos Ăndices de criminalidade e que tem sido fortalecido o combate ao tráfico de drogas, que Ă© o crime que gera mais de 80% dos homicĂdios.
O Ăşltimo concurso para a PolĂcia Civil do Amazonas foi realizado em 2009. A lei nÂş 2.875 de 2004 – que institui o plano de classificação de cargos, carreiras e remuneração dos servidores da PolĂcia Civil – apresenta um nĂşmero total de vagas a serem ocupadas, que estruturam os cargos.
Desde o último concurso, o Amazonas teve uma expansão demográfica considerável, o que exigiria um número maior de servidores em relação à população. O Sindicato dos Funcionários da Policia Civil do Estado (Sinpol-AM) aponta também outros motivos que aumentam o déficit de profissionais, como exonerações, aposentadorias e mortes de policiais.
Atualmente, a PolĂcia Civil no estado conta com 1.855 policiais divididos entre delegados, investigadores e escrivĂŁes. Confira:Â Veja abaixo:
Servidores da PolĂcia Civil do AM
| Delegados de polĂcia | 211 (vagas ocupadas) | 435 – vagas disponĂveis |
| Investigadores de polĂcia | 1243 (vagas ocupadas) | 912 – vagas disponĂveis |
| EscrivĂŁes de polĂcia | 401 (vagas ocupadas) | 254 – vagas disponĂveis |
| Total | 1855 | 1601 |
“É um nĂşmero insuficiente, precisamos da reposição de pessoal. Os policiais civis estĂŁo muito sobrecarregados e, considerando o tempo desde o Ăşltimo concurso, que foi em 2009, nĂłs temos a necessidade de reposição do pessoal”, afirmou o presidente do Sinpol do Amazonas, Jaime Lopes.
Enfrentando a carĂŞncia de recursos e um efetivo insuficiente, os servidores dizem que trabalham como podem.
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Presidente do Sinpol-AM, Jaime Lopes — Foto: Eliana Nascimento/G1 AM
Muitos crimes para poucos policiais
O g1 apurou que a Delegacia Especializada em HomicĂdios e Sequestros conta somente com 19 investigadores no expediente da unidade para elucidar diretamente os homicĂdios de todos os bairros da capital. Conforme IBGE, oficialmente, Manaus possui 63 bairros, porĂ©m, existem grandes regiões que nĂŁo sĂŁo reconhecidas pela prefeitura, mas que integram os bairros.
Os 19 investigadores do expediente são divididos em quatro zonas: Sul/Centro-Sul, Centro/Oeste, Norte e Leste. Além dos investigadores, a unidade conta com cinco delegados e mais 15 policiais plantonistas, que colhem as informações iniciais e passam para os policias que atuam no expediente.
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Movimento da DEHS, em Manaus — Foto: Eliana Nascimento/G1
O bairro Jorge Teixeira, na zona leste, por exemplo, Ă© o segundo mais populoso da capital. Somente em sete meses de 2021, a regiĂŁo registrou 82 homicĂdios. A equipe que investiga os casos Ă© da área Leste, e conta com um nĂşmero reduzido de agentes.
“Inegavelmente, esse problema decorre da carĂŞncia de policiais. Por isso, faço um apelo publicamente para a delegada-geral e para o diretor de PolĂcia Metropolitana: que possam rever essa situação de todas as delegacias, em especial, da HomicĂdios e das Centrais. Os policiais que trabalham na homicĂdios sĂŁo colegas qualificadĂssimos, que tem a expertise para apurar o crime que Ă© a maior responsabilidade que o estado tem”, disse o presidente do Sinpol, Jaime Lopes.
A DEHS tambĂ©m nĂŁo conta mais com delegados e escrivĂŁes nos plantões, o que dificulta e prejudica a elucidação de casos. Quando um homicĂdio era registrado, o delegado plantonista ouvia de imediato as testemunhas.
Segundo policiais, a medida sobrecarregou as centrais de flagrante por conta do acúmulo de mais uma atribuição: atender local de crime.
O g1 apurou que os equipamentos que o governo entrega para a PolĂcia Civil e podem auxiliar em trabalhos investigativos, muitas vezes, nĂŁo contemplam a DEHS. Em dezembro de 2020, a Delegacia chegou a receber uma van da Secretaria de Segurança PĂşblica que deveria ajudar nas investigações em locais de crime. O veĂculo apresentou problemas e foi recolhido da sede.
Já o Departamento de Repressão ao Crime Organizado (DRCO) conta com somente 11 investigadores, dois delegados e três escrivães. Quando a nova sede do DRCO foi inaugurada, em fevereiro de 2020, a equipe do departamento era composta por 11 investigadores da equipe de operações, três investigadores na busca eletrônica, cinco investigadores na análise criminal, quatro escrivães e quatro delegados.
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Van foi entregue para a DEHS em dezembro de 2020 e deveria ser usada em locais de crimes — Foto: PolĂcia Civil
O que diz a PolĂcia Civil?
O Departamento de PolĂcia Metropolitana (DPM) informou ao g1 que busca otimizar o andamento das ocorrĂŞncias policiais e realocou os delegados plantonistas da DEHS para os demais Distritos Integrados de PolĂcia (DIPs) da capital, “sem causar nenhum tipo de prejuĂzo as investigações dos crimes de homicĂdios e sequestros”.
Com essa medida, a PC informou que o atendimento Ă população continuará com o mesmo rigor, bem como a atuação policial em todas as zonas da cidade, que contará com “um suporte mais assertivo e eficaz”.
O delegado Alessandro Albino, diretor do DPM, disse que os delegados plantonistas das centrais de flagrantes suprirĂŁo a ausĂŞncia das autoridades policiais da DEHS no local do crime, tendo em vista que as testemunhas e as vĂtimas, que anteriormente eram ouvidas na Especializada, passarĂŁo a ser ouvidas na respectiva central de flagrante que atender a ocorrĂŞncia.
“Com a alocação dos servidores nas demais delegacias, o trabalho será otimizado e de lá, continuarĂŁo realizando o mesmo procedimento, de ir ao local de crime; o delegado fazendo o acompanhamento e suporte jurĂdico necessário, e o investigador de polĂcia da DEHS produzindo o relatĂłrio do delito”, explicou.
O delegado relatou que essa “reorganização” foi feita pelo fato da DEHS realizar poucos flagrantes. Tendo em vista isso, as DIPs precisam e demandam mais a presença de um delegado para a realização de procedimentos como a lavratura de Auto de PrisĂŁo em Flagrante (APF) e Termos Circunstanciados de OcorrĂŞncia (TCOs), algo que o plantĂŁo da Especializada realizava em nĂşmeros menores.
Manaus possui 30 Distritos Integrados de PolĂcia, alĂ©m de 16 unidades especializadas e departamentos como o de RepressĂŁo ao Crime Organizado, Departamento de PolĂcia do Interior, metropolitana, entre outros. Atualmente, a capital possui quatro centrais de flagrante que funcionam 24 horas e atendem as zonas Sul, Norte, Leste e Oeste. (1Âş, 6Âş, 14Âş e 19Âş DIP).
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Delegacia de Iranduba, no Amazonas — Foto: Matheus Castro/G1
Delegacias do interior e acúmulo de funções
Diferente da delegacia de homicĂdios, que conta com poucos policiais, o portal da transparĂŞncia do Governo do Amazonas mostra que a delegacia de Iranduba, na regiĂŁo metropolitana, conta com 50 servidores lotados. No dia 15 de agosto, quando a Ăşltima fuga foi registrada na unidade, apenas um policial estava no local. Ele levou uma coronhada e foi rendido pelos detentos, que fugiram. TrĂŞs fugas foram registradas na delegacia de Iranduba em pouco mais de dois meses.
Sete delegacias instaladas em sete municĂpios do alto Solimões nĂŁo contam com delegados: nas cidades de Benjamin Constant, Atalaia do Norte SĂŁo Paulo de Olivença, Amaturá, Santo AntĂ´nio do Içá e Tonantins, os investigadores acumulam o cargo de gestor nas cadeias pĂşblicas e falta efetivo para investigar crimes. E somente o municĂpio de Tabatinga possui titular.
Para o Sinpol, não é ilegal que investigadores e escrivães ocupem os cargos de gestores de delegacias. Segundo Jaime Lopes, há uma legislação estadual que tem a sua presunção de constitucionalidade que foi aprovada ainda no ano de 2017.

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