Foi em meio à serpentinas, confetes e marchinhas durante o carnaval de 1976, no clube do Atlético Acreano, que começou a história de amor do casal Francisca dos Santos Abugoche, mais conhecida como “Kika”, de 56 anos e Davi Elias Abugoche, de 64 anos.
Há 41 anos os dois achavam que o romance não passaria de um “amor de carnaval”, mas segundo seu Davi, desde a primeira vez que seus olhares se cruzaram ele disse para si mesmo: “essa é a mulher da minha vida”. Os dois eram vizinhos na época, mas nunca haviam trocado uma palavra e a primeira conversa foi na segunda noite de carnaval daquele ano, quando Kika foi falar de uma amiga para Davi.
“Eu estava com uma grande amiga, que na época nos considerávamos irmãs, ela achou o Davi bonito e inocentemente eu fui até ele e falei que tinha uma amiga interessada nele. Porém eu mal terminei de falar, ele me puxou e disse que queria mesmo era eu, aí nós ficamos (risos). Eu perdi a amiga, que ficou muito chateada comigo e até hoje não nos falamos, mas ganhei um esposo e pai maravilhoso para os meus filhos”, declarou-se Kika.

Davi e Kika viveram a noite de suas vidas no Carnaval de 76
A senhora conta ainda que no dia seguinte ao beijo Davi adoeceu, mas os amigos Elson e Zilá Santiago, que foram grandes incentivadores do romance, foram buscá-lo em casa mesmo assim, porque sabiam que ela estaria novamente no baile.
“A partir daí a gente começou a namorar, com um ano de namoro a gente ficou noivo. Na época eu tinha 17 anos e no dia do meu aniversário de 18, no dia 02 de abril, a gente casou”, completou.
Davi Abugoche foi funcionário muitos anos da antiga Cageacre e hoje é aposentado. Ele conta que teve certeza que Kika era a esposa ideal desde o momento em que ela se aproximou dele no baile.
“Nós morávamos na mesma rua, mas não tínhamos contato, meus irmãos que falavam com ela e nesse dia que a Kika veio falar da amiga, eu nem quis conhecê-la. Pensei logo que ela era a mulher da minha vida (risos) e eu estava certo, pois estamos casados até hoje. Passamos por momentos felizes, tristes, de dificuldade, porém sempre juntos e hoje temos quatro filhos e quatro netos, graças a Deus”, disse seu Davi.
De lá pra Kika e Davi brincaram vários outros carnavais juntos. Ela conta que sua mãe tinha a tradição de festejar a data todos os anos, confeccionando fantasias para toda a família e agregados que caiam na folia.

Família Abugoche: O orgulhoso fruto do Carnaval de 1976
“Minha mãe se preparava bem antes do carnaval, fazendo fantasias e programando tudo para os quatro dias de folia. Participávamos de todos os bailes de clube que haviam em Rio Branco. Nessa época as brincadeiras eram saudáveis, não existiam brigas, então era diversão garantida.
Hoje eles são evangélicos e desde 2009 que não brincam o carnaval, mas Kika e seu Davi respeitam muito quem gosta de comemorar a data, desde que seja com responsabilidade e sem exageros.
“Desde de que nos tornamos evangélicos tudo ficou melhor, antes eu bebia e apesar da bebida nunca ter atrapalhado minha vida ou ser um vício, eu percebi que vivo melhor sem ela, mas também não tenho nada contra com quem bebe”, disse seu Davi.
Ao ser questionada se no cenário em que o mundo vive atualmente, onde o sexo e a ‘pegação’ se tornaram palco principal do carnaval e os relacionamentos cada vez mais descartáveis, dona Kika disse que hoje em dia é muito difícil se consolidar um namoro no carnaval.

Há 41 anos juntos, o casal espera que as pessoas recuperem a alegria e as brincadeiras saudáveis dos saudosos carnavais /Foto: ContilNet
“Eu não acredito muito não, porque hoje as pessoas se conhecem e já vão pra outro lugar “namorar”. Acabou aquela magia da conquista e respeito, porque na minha época, mesmo no carnaval, os rapazes respeitavam as moças. Hoje os casais também já não estão mais tão dispostos a lutar pelo casamento, já entram na relação pensando se vai durar ou não”, disse Kika.
Já seu Davi diz que nada é impossível para Deus, e que mesmo diante a um cenário bem mais evoluído e perigoso, ele acredita que casais ainda podem surgir em pleno carnaval.
“As coisas estão mais difíceis hoje porque os casamentos têm prazo de validade, as pessoas pensam que se não der certo, o melhor é separar. Perderam o conceito de família, mas eu acredito que nada é impossível quando Jesus está no controle, e se for da vontade dele, pode ser em qualquer lugar, até mesmo no carnaval”.
Carol Abugoche, a filha de 31 anos do casal, conta que para os filhos a história dos pais sempre foi muito engraçada e ao mesmo tempo um grande exemplo de casamento.
“Pra gente sempre foi muito engraçado, porque na nossa geração o carnaval é mais pegação, então pra virar um amor ou formar uma família era algo quase impossível, e ao mesmo tempo é maravilhoso porque isso aconteceu com os meus pais. Eu sempre brinco com a mãe e digo que ela perdeu uma amiga pra ganhar um marido (risos), e graças a Deus hoje nós temos uma família linda e unida e sempre brincamos carnaval juntos, inclusive meus pais sempre nos acompanharam nesta data e isso nunca foi problema, porque eles se divertiam até mais que a gente”, finalizou.
A mensagem que o casal deixa para os foliões é que o carnaval seja de alegria, paz e responsabilidade com a vida. Eles esperam que todos possam resgatar a brincadeira saudável e sem maldades.
“Divirtam-se de uma maneira que em meio a folia possam ainda surgir amores verdadeiros e não deixem o brilho e o colorido do carnaval se acabar em cinzas na vida de cada folião”.
