Ashaninka denunciam falta de segurança: ‘Quem protege os guardiões?’
A ida a Brasília, que levou lideranças indígenas do Acre a denunciar invasões, ameaças e conflitos territoriais às autoridades federais, não encerrou a sensação de insegurança de quem vive na floresta. Em uma carta aberta divulgada ainda nesta segunda-feira (24), representantes do povo Ashaninka afirmam que continuam vulneráveis mesmo depois de procurar o Estado e cobrar medidas de proteção para a Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, em Marechal Thaumaturgo.
A preocupação ganhou força após uma invasão registrada em 6 de julho, quando homens armados teriam entrado no território indígena. Desde então, segundo as lideranças, a comunidade permanece sob o temor de que os invasores retornem.
“O que acontece com um povo indígena depois que ele denuncia uma invasão em seu próprio território?”, questiona Francisco Piyãko, liderança Ashaninka e coordenador-geral da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (OPIRJ), em trecho da carta.
A manifestação ocorre depois de uma série de articulações feitas pelas lideranças para levar a situação às autoridades. Uma delegação formada por representantes da Associação Ashaninka do Rio Amônia (Apiwtxa), do Instituto Yorenka Tasorentsi e da OPIRJ esteve em Brasília para alertar órgãos federais sobre a situação e cobrar uma resposta diante do que classificam como uma ameaça que ultrapassa os limites da comunidade.
Ida a Brasília buscou resposta do governo
A viagem à capital federal ocorreu no contexto de uma mobilização maior de povos indígenas do Acre e do sul do Amazonas. Entre 27 e 30 de abril, lideranças de diferentes etnias estiveram em Brasília para denunciar invasões, exploração ilegal de madeira, conflitos territoriais e dificuldades de acesso a áreas essenciais para as comunidades.
Na ocasião, representantes dos povos Jamamadi, Nukini, Huni Kui, Jaminawa, Manchineri e Madija participaram de reuniões com órgãos federais e instituições públicas. Entre as principais reivindicações estavam a demarcação de terras indígenas e o reforço da proteção aos territórios.
As denúncias incluíram ainda preocupações com o avanço do agronegócio na região conhecida como AMACRO, que reúne áreas do Acre, Amazonas e Rondônia, além de relatos de invasões e exploração de recursos naturais.
Indígenas do Acre e Sul do Amazonas em audiência na sede da Funai, em Brasília. Foto: Adi Spezia | Cimi
No caso dos Ashaninka, a situação ganhou uma dimensão ainda mais delicada por envolver uma área localizada na região de fronteira entre Brasil e Peru.
Segundo a carta, durante a agenda em Brasília foram discutidas medidas emergenciais e mecanismos permanentes de segurança, além da elaboração de um plano de proteção para a região. Também foram iniciadas articulações envolvendo cooperação internacional e mecanismos para reforçar a segurança de algumas lideranças.
Apesar disso, os indígenas afirmam que existe uma distância entre o que é discutido nas reuniões e aquilo que é sentido diariamente por quem permanece no território.
“Existe uma diferença fundamental entre uma medida discutida em uma reunião e a sensação de estarmos, de fato, protegidos”, afirma Piyãko.
“Continuamos aqui”
É justamente essa sensação que sustenta o principal argumento da carta aberta. Para as lideranças, denunciar uma invasão não significa que a ameaça desaparece.
Os indígenas continuam vivendo, circulando e trabalhando na mesma região onde ocorreu a entrada dos homens armados. Por isso, segundo Piyãko, o período posterior à denúncia pode ser acompanhado por uma sensação ainda maior de vulnerabilidade.
“Aqueles que foram denunciados sabem que foram vistos. Sabem que as autoridades foram procuradas. Sabem que as comunidades falaram. Enquanto isso, nós continuamos aqui, entrando na mesma floresta e percorrendo os mesmos caminhos pelos quais os homens encapuzados chegaram”, escreveu.
A liderança defende que a resposta não dependa de uma nova ocorrência para que a situação seja considerada urgente.
Entre as medidas cobradas estão presença permanente do Estado, inteligência, prevenção, integração entre instituições e mecanismos específicos de proteção para comunidades indígenas localizadas em áreas de fronteira.
LEIA TAMBÉM: Lideranças indígenas liberam BR-364 após acordo com PRF e Energisa
Conhecimento indígena é apontado como ferramenta de proteção
A carta também chama atenção para o papel dos próprios indígenas na identificação das ameaças. Segundo as lideranças, o conhecimento acumulado ao longo de gerações permite perceber alterações na dinâmica do território que podem não ser identificadas por agentes externos.
Os Ashaninka conhecem os rios, caminhos, áreas de caça e pesca e os locais de uso tradicional. Por isso, defendem que esse conhecimento seja incorporado às estratégias de segurança e monitoramento.
Foi a partir dessa percepção, segundo Piyãko, que a comunidade identificou a ameaça e iniciou uma articulação por meio da Comissão Transfronteiriça Juruá–Yurúa–Alto Tamaya, que reúne organizações e lideranças para discutir problemas que ultrapassam a fronteira entre Brasil e Peru.
A preocupação está relacionada também ao avanço de atividades ilícitas em regiões de difícil acesso. Para as lideranças, a distância dos grandes centros e a presença insuficiente do poder público podem criar condições para a atuação de grupos envolvidos com crimes ambientais e outras atividades ilegais.
“Quem protege os guardiões?”
Os Ashaninka também questionam uma ideia frequentemente associada aos povos indígenas: a de que são “guardiões da Amazônia”.
Para Piyãko, reconhecer o papel dos povos na conservação da floresta precisa vir acompanhado de mecanismos capazes de garantir a segurança daqueles que vivem nesses territórios. “Quem protege os guardiões quando a ameaça chega?”, questiona.
A Terra Indígena Kampa do Rio Amônia possui aproximadamente 87 mil hectares e está localizada em Marechal Thaumaturgo, na região de fronteira com o Peru. Os Ashaninka mantêm vínculos históricos e culturais que atravessam a fronteira política entre os dois países.
No Brasil, as terras indígenas com presença Ashaninka no Acre somam cerca de 715 mil hectares. Do lado peruano, o povo está presente em diferentes áreas da Amazônia, incluindo o departamento de Ucayali.
Para as lideranças, portanto, a proteção da comunidade não pode ser tratada apenas como uma questão local. O temor é de que a fragilidade da presença estatal na região seja aproveitada por redes criminosas que atuam além das fronteiras.
Lideranças dizem não querer esperar uma nova invasão
Apesar das cobranças, a carta deixa claro que os indígenas não se colocam como espectadores da situação. As lideranças afirmam que já identificaram riscos, denunciaram a invasão, buscaram as instituições, viajaram a Brasília e continuam articulando medidas de proteção.
O que reivindicam, segundo o documento, é que a responsabilidade pela segurança não seja transferida às próprias comunidades.
“Somos parte ativa da proteção desse território e temos feito a nossa parte”, afirma Piyãko. A preocupação central é evitar que uma nova invasão ou um episódio de violência seja necessário para que as medidas sejam efetivamente colocadas em prática.
“Não queremos esperar por uma nova invasão para provar que a ameaça era real. Não queremos que uma nova violência aconteça para que medidas de proteção sejam consideradas urgentes”, diz a carta.
Ao final, a liderança reforça que a questão ultrapassa a defesa de um território específico. Para os Ashaninka, garantir a segurança dos povos indígenas que vivem em áreas estratégicas da floresta também significa proteger a própria Amazônia.“Queremos manter viva nossa casa. Queremos poder chegar em casa livres de ameaças”, conclui.