Professor de Economia da Universidade Federal do Acre (Ufac), o ex-deputado João Correia tem 40 anos de vida acadêmica (aluno, professor e pesquisador). Sempre preocupado com contemporaneidade, ele consegue fazer uma leitura da realidade sem receber a pecha de marxista, apesar de ter uma leitura dialética do mundo e acreditar que a luta de classe é atualíssima.
Ardoroso crítico do Socialismo Real, regime que, após sua queda, deu um baque na esquerda mundial, Correia diz que, apesar dos “anacronismos”, o regime ficou sem parâmetros e teve que se reinventar, “É preciso mudar o mundo para depois mudar o mundo mudado” filosofa ele, dizendo que a frase é do pensador alemão Von Gothe.
Se João Correia não vê o capitalismo como um sistema moribundo, também não concorda com a tese do escritor nipo-americano, Francis Fukuyama, que o interpreta com algo triunfante, isto é, acabaram-se os processos históricos caracterizados como processos de mudança. Quem o conhece sabe que ele não aderiria ao que se convencionou chamar de o fim da história.
Fundador do extinto MDA, ele fala da desvirtualização dos projetos políticos originais da oposição e também critica o longevo governo petista acreano, para quem é um “retumbante fracasso” nos áreas econômica e social. “Serão 20 anos de atraso que precisarão de mais 20 para sairmos dele”, avalia.
Correia defende a democracia e a liberdade como valores universais, além de uma nova cultura política, legitimada no diálogo, com justiça social, equidade e sempre em uma perspectiva emancipatória. Na redação ContiNet, ele concedeu esta entrevista. Veja os principais trechos:
ContilNet – O senhor costuma dizer que não gosta da direita e odeia a extrema esquerda. Explique isso.
João correia – De forma mais incisiva, a crítica ao socialismo começa nos anos 60. Um grupo de intelectuais, que editava a revista Socialismo ou Barbárie, tinha por certo que os socialismos experimentados na Europa e União Soviética não eram aqueles pensados. O fim da “Cortina de Ferro” foi importante porque provou que não existiu nem existe um modo de produção socialista. A crise não foi percebida na época, fato que a fez se estender por duas décadas. A extrema esquerda atropela princípio e valores universais, como a democracia e a liberdade, além de tirar do ser humano perspectivas emancipatória, empreendedoras e de livre arbitro. Poucas pessoas afirmariam, pelo menos abertamente, não desejar que todas as sociedades fossem justas e decentes. Claro que é mais fácil dizer que as sociedades deviam ser assim do que torná-las assim, especialmente numa era de capitalismo de mercado livre mundial que entrega a boa vida à maior parte dos residentes nos países industrializados avançados. No Ocidente rico é agora ortodoxo pensar que a ideologia do mercado livre ganhou a discussão e, portanto, compreensivelmente, que o futuro, tal como o presente, lhe pertence. Daí a declaração de Francis Fukuyama de que a história chegou ao fim. A extrema direita, mantenedora do Status quo, suprime a democracia e ver no livre mercado a solução para as contradições e mazelas criadas pelo próprio regime. A mais-valia capitalista é aposta à felicidade e ao bem viver de um povo.
Como o senhor analisa o pensamento triunfalista do escritor Francis Fukuyama, segundo o qual o capitalismo se consolidou como sistema de produção?
É a tese do fim da história. O capitalismo sempre se readequou aos seus tempos. O sistema já foi comercial, industrial, especulativo e agora, na era da informação e tecnologia, está com outra roupagem. A luta de classe de hoje não é mesma formulada na época de Marx, no capitalismo da primeira Revolução Industrial. No mundo contemporâneo, existem novas classes porque se formaram novas elites. No Brasil existe no topo da pirâmide com 5% de abastados. Os demais estão na linha (ou abaixo) da pobreza. Isso gerou e vai continuar gerando a luta de classe.
O senhor fala muito em perspectivas emancipatórias. A partir desse prisma, como analisa o atual sistema educacional brasileiro?
Nenhum país atingiu etapas de desenvolvimento sem investir maciçamente em educação. Não se pode pensar educação se não tivermos um projeto de nação. Faltam investimentos que não são apenas prédios e 10% do PIB destinador para o setor. É preciso investir da base à universidade. Os professores que saem da academia não estão suficientemente preparados para ensinar na educação básica. A educação de qualidade faz as pessoas reflitam e mudarem de paradigmas, ou seja, a educação é uma dos principiais meios de transformação de sociedade. Mas para isso o país precisa voltar a crescer.
Ao avaliar o Acre nos últimos 20 anos, o senhor, além de criticar o governo petista, costuma dizer que, para superarmos o atraso econômico e social, precisaríamos de um choque de capitalismo. Explique isso?
O Acre ficou preso a uma concepção baseada no neo-extrativismo. O zoneamento ecológico-econômico, estudo que mostra as potencialidades e fragilidades de cada micro e grandes regiões do Estado, precisa sair do papel. Temos vocações econômicas distintas. Precisamos investir nas potencialidades e ocupar um papel de destaque na economia brasileira, mesmo porque estamos numa região geograficamente estratégica. O Brasil tem parte considerável de seu PIB oriundo do agronegócio. Esse caminho é quase inevitável e já pode ser percebido na expansão das nossas fronteiras agrícolas. O Acre, por sinal, é o único estado da federação que ainda não entendeu o quanto esse setor é estratégico. Saímos do combalido extrativismo para o nada. A agricultura precisa chegar aos rincões para desenvolvê-los e fazer o desenvolvimento vir do interior para os grandes centros urbanos. Se tivermos uma grande produção agrícola, nos alimentaremos melhor e o excedente vai para a exportação. Óbvio que isso vai acontecer formulado e executando uma bem definida cadeia produtiva, que posso chamar de autodesenvolvimento ou agroindustrialização, que precisa ser estimulada por programas institucionais como forma de conter o êxodo rural. O Acre tem as condições naturais para ser um estado desenvolvido. Estudos da Embrapa mostram que o solo acreano é apropriado para o cultivo da mandioca. A fécula ou goma, subproduto da raiz, é versátil como matéria-prima industrial, que pode ser utilizada em setores tão diversos quanto o alimentício, o têxtil e o de papel, entre outros. Eu poderia citar várias possibilidades. Choque de capitalismo foi uma frase usada por Lênin ao assumir a Rússia ainda em um estágio econômico semifeudal.
Como o senhor avalia o atual momento político do Acre
Nós somos o penúltimo PIB do Brasil, ficando apenas atrás do Estado de Roraima, onde um terço de suas terras pertence aos índios Yanomames. Existe uma distribuição de renda bastante precária, que foi fomentada nos últimos anos. Alguns chegam a comemorar, de uma maneira mórbida, que já temos 80 mil bolsas famílias. É claro que a proteção social aos desvalidos precisa existir, sim, mas não pode ser elemento de júbilo. Para termos distribuição de renda é preciso ter produção, geração de riquezas. Eu esperava que o governador mudasse a substância do projeto em curso, que fracassou nesses últimos anos. O povo acreano, nas eleições passadas, demonstrou que queria progresso, geração de emprego e incremento de novas tecnologias. Mas isso não aconteceu até agora. As ações do governo Tião Viana são meramente adjetivas. Eles estão fazendo como o Giuseppe Tomasi di Lampedusa (escritor italiano), descreve no livro O Lepardo: ‘mudaram alguma coisinha para que tudo continuasse o mesmo’. A nossa elite, que é muito predatória, ainda não percebeu que esse modelo, do banco mundial, fracassou em todos os aspectos.
O Senhor fala muito em democracia. Quais são as propostas do PMDB enquanto postulante à candidatura própria nas próximas eleições municipais? E como seriam as relações do partido com as instituições?
Os poderes são livres, autônomos e harmônicos desde os tempos de Charles Montesquieu, do livro O Espírito das Leis. Nós podemos redemocratizar o nosso Estado e nossa Capital a partir desses princípios. A relação com o MP (Ministério Público) deve ser de parceria, adicionando aquilo que está faltando nos procedimentos administrativos, que é transparência. Os processos internos com as licitações, por exemplo, podem ser acompanhadas pelos órgãos de controle e fiscalização. Tudo isso com controle social, dando satisfação à população daquilo que foi pactuado nas esferas participativas. Podemos dar um choque de transparência e participação popular, apesar dessas expressões terem sido distorcidas e erroneamente usadas. Elas serão marcas, e não fantasias.
Nas ultimas décadas, o PMDB foi atraído por várias candidaturas majoritárias no campo das oposições. O senhor acredita que essa relação possa acontecer de forma contrária, ou seja, os demais partidos virem a apoiar uma candidatura da legenda em Rio Branco?
É uma possibilidade. Alguns concordam e outros até a desejam. Quem pode o mais, pode o menos. Sempre defendi a unidade na diversidade. De mesma maneira que defendo candidatura própria, defendo que outras candidaturas se viabilizem. Mas o que é essencial, o vital é a candidatura do PMDB. As oposições não são um bloco homogêneo. Temos diferenças programáticas, dentre outras. A gente não tem diferença daquilo que não queremos, como esse modelo político-administrativo em vigor. O PMDB é uma oposição original, que nunca não compôs numa perspectiva com o PT. Também temos uma prática democrática muita grande, de parceria com a população, e de extrair dela o que há de melhor, ou seja, a sua alegria e espontaneidade. Somos o partido das Diretas Já, da redemocratização deste país e do Estado do Acre.


