aventura
“Morra, mas me dê passagem”
De Campo Grande – MS a Botucatu-SP
Parti de Campo Grande na manhã seguinte. Sol e Tempo bom. Tem duas maneiras de se chegar ao estado de São Paulo e tenho que decidir por qual.
Há um caminho mais usual, ao sul, cruzando o rio Paraná entre as cidades de Bataguassu e Presidente Epitácio. A outra opção, mais ao norte, passa por Três Lagoas e Andradina, no mesmo rio Paraná.
Para mim, o que importa mesmo é evitar o tráfego pesado de caminhões. Depois de perguntar a uma meia dúzia de moradores de Campo Grande, quase todos afirmam que o tráfego é menos intenso na rota para Três Lagoas, embora a estrada seja um pouco pior.
De fato, achei a estrada razoável e o tráfego também. A paisagem é quase toda uma tomada por uma monotonia monocórdica e monocromática monocultura de eucaliptos.
É tudo tão igual que chega a dar sono.
Bem, pelo menos o ar é “cheiroso”. Parece “desinfetante”.
Caminhões passam por mim carregados de toras de eucalipto, que sei, serão utilizadas desde a construção civil, até a produção de celulose para papel.
O que me chama a atenção é que as plantações seguem por muitos e muitos quilômetros, sem qualquer esboço de mata nativa, o que certamente significa um problema para o solo, para as águas, e para a fauna e a flora do pantanal.
Com pouco mais de três horas chego à divisa entre MS e o estado de SP. Ali, atravesso um caminho estreito através da hidrelétrica de Jupiá, no rio Paraná.
Do lado de lá, após atravessar a cidade de Andradina, tem início a Rodovia Estadual Marechal Rondon. A qualidade da pista é realmente incomparável com qualquer rodovia estadual até ali.
Trata-se de uma rodovia privatizada e um bom número de pedágios garante a arrecadação necessária para a manutenção da rodovia.
A viagem por este trecho foi muito, mas muito tranquilo. Só o fato de não correr o risco de ser esmagado por um caminhão no sentido contrário, traz imenso alívio.
Contudo, parece que o ser humano é realmente pródigo em criar problemas, onde eles não existem. Foi o que aconteceu comigo enquanto realizava a ultrapassagem de um caminhão.
Estava na pista da direita, há 120 km/h, velocidade máxima permitida na rodovia. Mas ainda assim, era pouco para um veículo que, contrariando uma das leis mais elementares do trânsito, ultrapassou-me pela direita. No mesmo instante em que este veículo me ultrapassava pela direita, costurando no caminhão, outro veículo, colou na traseira da moto e passou a dar incessantemente o farol alto, para que lhe desse passagem, o que ali, naquele momento era impossível.
Diante das condições do momento, o recado do motorista era claro: “morra, mas me dê passagem”.

Demétria
Cheguei a Botucatu pela noite, e acomodei-me na casa de meu irmão, que vive no peculiar Bairro Demétria.
O bairro que leva o nome da deusa grega da agricultura foi criado justamente por um grupo de pessoas que implantou no Brasil uma iniciativa pioneira com a chamada agricultura biodinâmica.
A teoria desenvolvida pelo criador da Antroposofia, Rudolf Steiner busca resgatar a agricultura como vocação, além de evocar uma preocupação com a terra, a natureza e a qualidade dos alimentos produzidos.
No dia seguinte, faço uma “tour” pelo bairro. Conheço um pouco das verduras produzidas a partir deste conceito. Há uma boa variedade de folhagens como couve, alface e repolho, mas também cenoura, rabanete, brócolis, entre outras.
Em um dos espaços que comercializa mercadorias produzidas a partir do princípio biodinâmico há uma grande quantidade de pães, bolos e doces, mas também chocolates, leite e laticínios, café, sorvete e frutas.
Quando estou saboreando um delicioso café expresso biodinâmico sou interpelado:
-Você é de Cruzeiro do Sul, não é?
– Sim. Digo
Com poucos minutos de conversa descubro ser um engenheiro agrônomo que deu aula na UFAC em Cruzeiro do Sul durante alguns anos. Pergunto-lhe o motivo de estar ali, no bairro Demétria, em Botucatu.
– É pela agricultura biodinâmica. Depois de anos, descobri que tudo que estava fazendo estava errado. Nosso jeito de fazer agricultura está acabando com o solo, envenenando as águas, comprometendo a natureza e alimentando de todo este desequilíbrio, um ser humano doente.
Aqui descobri o jeito certo de fazer agricultura: cuidando da terra, da natureza, da vida, e do ser humano que vai se alimentar de tudo isso.