bate-papo
Poucas vezes bati um papo tão reto, maneiro, descontraído e ao mesmo tempo despropositado, quanto na última sexta-feira com o senador Sérgio Petecão (PSD). Na verdade, num encontro absolutamente casual com ele, transmiti algumas verdades ouvidas nas ruas sobre ele e sua carreira política, até aqui muito boa, pelo menos se forem consideradas apenas as vitórias nas urnas, mas questionada ultimamente, principalmente, pela condução “equivocada” nesses primeiros quatro anos, ou, no mínimo, mal divulgada.
No alto de seus 1,94 de altura e uma compleição física nada comum para os padrões de quem é nascido onde ele nasceu, na beira do rio Acre – é um ganzelão desajeitado, mas de pele rosada e com alguma pinta de ex-jogador de futebol -, o senador mistura aquilo tudo a um bom humor indisfarçável e uma gentileza capaz de atrair dezenas de pessoas ao seu redor. Vi ele de dentro do carro, o cumprimentei e recebi logo o convite para entrar.
Cercado por assessores e prestadores de serviços de sua casa, no conjunto Procon, é ai que se revela o homem gentil: o aparador de grama é tratado sem diferença em relação a prefeitos e empresários presentes. É a primeira vez que ele vem a Rio Branco depois do início dos trabalhos no Senado, esse ano, e a casa está lotada. Há pelo menos duas cozinheiras preparando um almoço de galinha caipira e pescoço de peru, muito bife de carne de boi e o senador circula de bermuda, um colete do tipo de peladeiro de futebol e um chinelo de correias finas e antigas, que deixam expor facilmente as joaninhas dos pés. Na mão direita um copo com suco de quiuí e na cabeça uma resposta para tudo e para os questionamentos referentes a sua vida pública.
Aos 54 anos, prestes a completar 55 no próximo dia 20 de abril, Sérgio Oliveira Cunha, o Petecão, pai de quatro filhos, se mostra disposto a não omitir a falar de si mesmo, fazer uma autocrítica, opinar sobre as lambanças da oposição e, principalmente “nesse aleijo que virou o PT nos últimos anos”. O que pensa sobre os governos Tião Viana (PT) e Dilma Roussef, por exemplo, disse sem rodeios, numa sinceridade quase inocente. Sobre as próximas eleições falou com espontaneidade. Acha que ainda tem futuro e sobre a “roubalheira na Petrobras” é incisivo: “Quando eles dizem que veio 300 mil pro Tião Viana, veio várias vezes mais esse valor. O governador do Acre está enrolado nesse negócio”.
Veja a seguir o bate-papo que terminou em entrevista:
ContilNet Notícias – Senador, tua situação não é legal na boca das pessoas. Nas rodas políticas tenho ouvido que o senhor está acabado politicamente…
Petecão – Acabado? Eu ganhei a eleição para senador dum Edvaldo Magalhães quando ele era presidente da Assembleia Legislativa e ele usou bem a máquina do poder para fazer a campanha dele. A Frente Popular tava na moda. Os irmãos Viana ainda eram os doidos e eu fui pro sacrifício, porque ninguém da oposição teve coragem de disputar o Senado em 2010. Me lembro que no início da campanha sabia que ia perder, mas um mês depois tinha certeza que ia ganhar. Foi uma vitória linda. Não tem nenhum político que faz o que eu faço. A minha casa você está vendo como é. Não fico em Brasília. Tenho um partido grande, estruturado. Na última eleição dei uma demonstração de grandeza política ao não querer ser candidato a governador, para abrir pra outros, no caso o Marcio Bittar e o Tião Bocalom. Outra, velho: nunca disse a ninguém que eu ia ser o melhor senador. Quem foi para Brasília para querer ser o melhor foi o Jorge Viana, eu não. Eu sai do governo para vir pra oposição. Como é que eu posso estar acabado. Conseguiu liberar emenda para todas as prefeituras, estou com as pessoas na rua. Então não acho isso. Algumas poucas pessoas que não conseguiram ser contempladas diretamente pelo mandato é que andam falando besteira a meu respeito.
ContilNet Notícias – Mas o senhor não elegeu nem a sua irmã, a Lene Petecão, nem o anão Montana Jack, na última disputa para vereador. Isso não dá cabo a comentários como esse de que o senhor é um político em fim de carreira?
Petecão – Eu não elegi a Lene, nem o Montana, do mesmo jeito que o Jorge Viana não elegeu o Edvaldo. Evandro, rapaz, ninguém transfere votos assim não, meu irmão. Olha como política é um negócio interessante. O povo do Acre votou no Aécio Neves para presidente, mas não elegeu o Marcio Bittar governador. As pessoas não sabem o quanto é difícil transferir votos.
ContilNet Notícias – Se o senhor não se eleger mais, pelo menos financeiramente não terá problemas. Me parece que é um homem rico, de muitas posses.
Petecão – Pobre não sou, mas rico igual a uns que tem ai também não sou. Sou um cara estruturado, organizado com dinheiro. E tem mais: tenho um partido forte. Para disputar uma eleição, hoje eu não entro mais só com a cara e a coragem.
ContilNet Notícias – Dias desses o senhor declarou que sonha em disputar a eleição de 2018 com os irmãos Viana (Tião e Jorge). Isso não é blefe?
Petecão – Blefe? Tú é doido. Meu sonho, velho. A disputa com esses caras é mesmo que um Fla x Flu, embora eles não metam mais medo como antigamente. Hoje em dia você chega no bar, na lanchonete, no supermercado e todo mundo fala mal deles. Não são mais o bicho doido que eram até 10 anos atrás. Eles ganham a eleição daquele jeito que todo mundo sabe.
ContilNet Notícias – Que jeito?
Petecão – Ahh, nem precisa ficar repetindo. Eles usam a máquina como ninguém. O Marcio Bittar e o Gladson sentiram na última eleição como é encarar eles. O sistema é bruto demais.
ContilNet Notícias – Porque o senhor não denuncia esse sistema?
Petecão – Eles são lisos. Eles só vão ser pegos como o Al Caponi, num detalhe. Pode esperar.
ContilNet Notícias – A despeito dos irmãos Viana, eles podem escapar do Petrolão?
Petecão – Acho difícil, principalmente, o Tião Viana escapar. Rapaz, quando dizem que mandaram 300 mil pra ele é porque veio várias vezes mais que isso. Esses 300 mil foi só o declarado. Esse governador do Acre está enrolado nesse negócio. Vamos só esperar um pouco.
ContilNet Notícias – Então Tião Viana já era?
Petecão – Não sei se já era, porque esses caras são malandros. Ele vai chegar aqui no Acre chorando e vai colocar a culpa na oposição, como eles fazem quando são acuados por denuncias. O PT está naquela de dizer ‘ah, mas o PSDB também rouba’. Chegaram nesse ridículo.
ContilNet Notícias – O senhor fala pouco do Petrolão e do Mensalão porque aqui atua como oposição, mas em Brasília é da base de apoio da presidente Dilma. É isso?
Petecão – Rapaz, isso é bobagem. Aqui no Acre só tem um partido que é oposição aqui e em Brasília, o PSDB. O resto da oposição é assim: contra o PT, a favor lá. É a conjuntura nacional. Eu sou membro de um partido. A nacional do PSD só me exige que seja da base lá. Aqui eles sabem que sou oposição.
ContilNet Notícias – Até quando o PT vai continuar ganhando da oposição no Acre?
Petecão – A oposição do Acre é muito aguerrida, mas enfrenta um governo louco, que gasta tudo, que vende até a mãe para se manter no poder. Só em ter coragem de enfrentar esses caras já acho isso uma vitória. Esse negócio de dizer que a oposição é desorganizada e desunida é o papo mais fuleiro que já ouvi. Eles, da Frente Popular, é que tem grana para garantir organização e união. Mesmo assim eles brigam.
ContilNet Notícias – E a derrota da sua esposa, a professora Marfisa Galvão (PSD), na última eleição, não lhe abateu. Dizem que o senhor gastou uns 3 milhões na campanha dela?
Petecão – Como me abater com uma pessoa que não é deputada federal por causa de 170 votos. A Marfisa virou uma estrela sozinha. Ela me surpreendeu e surpreendeu a todo analista político. Na metade da campanha ela tocou sozinha. E quanto aos 3 milhões, a se eu tivesse gasto esse dinheiro!? Rapaz, 3 milhões ninguém tem assim não, irmão.
ContilNet Notícias – E a eleição para prefeito, ano que vem? A oposição já tem uns quatro candidatos. O senhor também não é?
Petecão – Não é minha ideia. Temos que dá lugar a novas lideranças. Colocar uma rapaziada nessas disputas. Tem tanta gente que se destacou na última eleição. Gente boa, bem formada. No entanto, meu irmão, se não tiver outro, eu vou outra vez para o sacrifício. Sou um soldado.
ContilNet Notícias – Marcio Bittar, Flaviano Melo, Tião Bocalom, Vagner Sales e outras figuras da oposição não já terminaram seus ciclos? Não seria mais possível contar com essas pessoas.
Petecão – Que? Negativo. Ninguém fala que o Tião mais o Jorge também já estão velhos e não deixam surgir novas lideranças lá, mas questionam esses caras do nosso lado. Bittar, Flaviano, esses homens são umas feras. Pensam política como ninguém. Como eu, eles também querem o surgimento de novos líderes, mas eles não estão descartados. Pelo contrário.
ContilNet Notícias – E o Alan Rick, vem pra oposição?
Petecão – Sei não. Só sei que ele é um grande nome e é bom. (Alan, do PRB, é o deputado federal que tirou, por 170 votos, a vaga que seria da Marfisa Galvão, esposa do senador Petecão)
ContilNet Notícias – O senhor só fala em disputar o senado com os irmãos Viana em 2018. E o governo?
Petecão – Não sei, sou um soldado da oposição.