Uma nota técnica publicada pelo Ministério Público do Estado do Acre (MPAC) alerta que o próximo episódio do El Niño pode repetir — ou até superar — os impactos da seca histórica registrada em 2023 no estado. O documento, divulgado nesta quarta-feira (22), reúne projeções climáticas e recomendações para que os órgãos públicos adotem medidas preventivas antes da intensificação do fenômeno.
De acordo com a nota, há entre 96% e 98% de probabilidade de persistência do El Niño e cerca de 63% de chance de que o fenômeno atinja a categoria de “Super El Niño”, considerada uma das mais intensas, com pico previsto entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.
O MPAC destaca que o Acre já enfrentou eventos severos associados ao El Niño, especialmente em 2005, 2010, 2015/2016 e 2023/2024, quando a redução dos níveis dos rios comprometeu o abastecimento de água, o transporte fluvial, a produção agrícola e o acesso a serviços essenciais em diversas comunidades. Em 2024, inclusive, o nível do Rio Acre, em Rio Branco, atingiu o 1,23 metro.
Segundo a nota técnica, as projeções atuais indicam que um novo episódio poderá produzir efeitos semelhantes ou ainda mais graves caso não haja planejamento antecipado.
O documento também ressalta que os impactos vão além da estiagem. Entre os riscos apontados estão o aumento das queimadas, piora da qualidade do ar, crescimento de doenças respiratórias e de veiculação hídrica, insegurança alimentar, interrupção do ano letivo em áreas isoladas e dificuldades de acesso à água potável.
Além disso, a nota técnica chama atenção para os reflexos sociais provocados por eventos climáticos extremos. Com base em estudos científicos, o MPAC afirma que crises dessa natureza podem agravar fatores de risco relacionados à violência doméstica, feminicídios, exploração sexual e outras violações de direitos, sobretudo em contextos de vulnerabilidade social e econômica.
Diante desse cenário, o Ministério Público recomenda que Estado e municípios reforcem os planos de contingência, ampliem os sistemas de alerta, garantam o abastecimento de água e fortaleçam as redes de saúde, assistência social e proteção às populações mais vulneráveis. Para o órgão, diante da antecedência dos alertas climáticos, a atuação do poder público deve ser preventiva e não apenas emergencial.
