Os inimigos da democracia musical ligada à viola caipira no cenário paulista

Por Marina, ContilNet 02/01/2015 às 13:48

O Violeiro DivulgacaoSonoridades

O Violeiro DivulgacaoHá pelo menos duas décadas, um segmento da música brasileira produzi­da no estado de São Paulo teve uma mo­vimentação de grupos e artistas individu­ais que passaram a intensificar busca de sonoridades vinculadas à música tradi­cional de origem rural.

A divulgação do trabalho artístico des­ses músicos independentes passou a ser um desafio no Brasil, uma vez que estes concorrem num mercado que atua sob regras ditadas por grandes empresários e gravadoras, num contexto atrelado so­bretudo aos meios televisivos, radiofôni­cos e outros fortes elementos da indús­tria cultural e agrícola.

Atualmente, a possibilidade de formar público de viola por meio de circuito de shows tem sido um caminho de agregar pessoas para divulgar o trabalho musical, vender discos e dar continuidade à obra artística de violeiros.

Instituições como Sesc e Sesi têm da­do espaço à veiculação da música tocada com o cordofone de São Gonçalo em seus espaços. Paralelamente a esses circuitos, algumas cidades têm procurado cami­nhos destinados ao destaque dessa músi­ca que se vincula à cultura do interior por meio de festivais culturais em que se des­taca também esse instrumento.

Em Jaú, Botucatu, Salto, Santa Fé do Sul, por exemplo, ocorreram, nos últi­mos anos, festivais e mostras, em que se apresentaram Zeca Collares, Zé Mulato e Cassiano, Inezita Barroso, Ricardo Anas­tácio, Levi Ramiro, Ivan Vilela, Ricar­do Vignini, Índio Cachoeira, Júlio San­tin, Osni Ribeiro, Trio Tamoyo, Lucia­no Queiroz, Milton Araújo, Cacique e Pa­jé, Craveiro e Cravinho, Liu e Léu e ou­tros nomes ao lado de artistas populares, além das participações das duplas “anô­nimas” de caipiras que se apresentaram em palcos grandiosos.

Em Irapuru, no Oeste paulista, ocorre há mais de dez anos o festival Caipirapu­ru, do qual participam nomes vinculados a esse instrumento residentes não só no território paulista, mas também em ou­tros estados, levando um público de 10 mil pessoas por dia de espetáculos, o que equivale aproximadamente a um terço da população da cidade.

É muito comum que, nesses eventos, artistas consagrados dividam camarim com grandes mestres dos folguedos, co­mo integrantes das catiras participantes, de romarias de São Gonçalo, de folias de reis, de cururus, de fandangos do litoral sul e de virtuosos artistas desconhecidos. Todos esses artistas, famosos ou não, ex­põem e comercializam seus CDs nesses eventos de forma completamente inde­pendente e com sucesso invejável.

O outro lado

Existe, porém, um outro lado dessa aparente democracia da música e da cul­tura rural . Uma força que vem dos veí­culos massivos de comunicação, da in­dústria cultural e de outros setores coage de forma expressiva manifestações musi­cais e culturais que estejam ligadas à et­nomúsica do campo.

Atrelado ao circuito dos rodeios, existe um cardápio de artistas que se apresen­tam falsamente como sertanejos univer­sitários, que atingem , com apoio da mí­dia televisiva, alcance nacional nas are­nas de rodeios adaptadas à estrutura de grandes espetáculos, com ingressos ofe­recidos a elevados preços.

Preconceitos

Esse movimento proveniente se seto­res da indústria cultural tem trabalhado o fortalecimento de ações que ridiculari­zam elementos ligados às raízes rurais, enaltecendo a estética do caubói texano em detrimento da figura do “Jeca”, sepa­rando numa mesma população dois gru­pos: um que se vincula aos elementos nostálgicos da cultura rural do século 20; outro que nega essa identidade e se atrela a uma ascensão social do migrante, con­sumista, americanófilo, submisso aos va­lores impostos pelas políticas imperialis­tas ligadas à agricultura no país.

Na Vila Olímpia, em São Paulo, há uma casa de shows de música sertaneja uni­versitária que proíbe a entrada de pes­soas com chapéu de palha, negando per­missão a qualquer associação entre o Je­ca e o local.

Em parte, pode-se considerar que al­guns dos preconceitos que sempre exis­tiram em relação à cultura caipira se es­tendem à aceitação da música produzida pelos violeiros caipiras em alguns seto­res da sociedade uma vez que estes, em temática comumente abordada em seus álbuns, reverenciam um sentimento de saudade da realidade tida como atrasada por grande parte dessa população, pre­dominantemente de origem rural, que migrou da Zona Rural para a cidade nas últimas décadas.

Segundo Stuart Hall, a identidade se preenche a partir de nosso exterior, is­to é, da forma como queremos ser vistos. Dessa maneira, a dissociação da imagem do Jeca, atrasado, se dá também pela ne­gação da música tocada com viola caipi­ra, que é marcada por grande pluralida­de de ritmos e formatos de apresentações nesse movimento que se fortalece entre os artistas ligados a esse instrumento.

Partir para uniformização daquilo que se ouve é uma das metas da indústria da música de massa. Para Tzvetan Todo­rov, porém, a redução do plural ao úni­co é uma prática que se opõe à democra­cia. Toda a variedade rítmica presente na música caipira ou na música que artistas executam com viola é massacrada pela ditadura imposta pelos poucos gêneros explorados pelos músicos do nicho serta­nejo universitário. Um regime democrá­tico não se pode definir por um único tra­ço, mas por uma pluralidade de caracte­rísticas que se devem equilibrar e formar um complexo e rico arranjo.

Diversidade

A música brasileira, em todos os gêne­ros é marcada por diversidade e rique­za, entretanto o filtro imposto pelos gru­pos que produzem e vendem a música dos rodeios trabalha de modo que aceite­mos a pobreza musical e poética das can­ções que circulam nos rodeios e feiras do agronegócio.

Nesse contexto, a indústria cultural se­gue impondo elementos que geram in­certezas no que diz respeito à identida­de de indivíduos e grupos, ancorada na busca de identidade nas grandes cidades, numa característica forma de violência contra a cultura brasileira.

Ao criar produtos musicais para atin­gir o grande público, essa indústria cul­tural promove o vazio, materializado em empobrecidas canções de amor ou em canções com letras metalinguísticas que consistem em reproduzir danças e bor­dões dos artistas que as executam.

“Incerteza social”

Nas palavras do pesquisador Arjun Appadurai, a velocidade com que as mo­dernas sociedades globalizadas promo­vem a uniformização de valores e ne­cessidades, que podem, de um lado, ge­rar um sentimento de identidade nacio­nal e, por outro, o desapego de tradições locais e regionais, gera o que o autor cha­ma de “incerteza social”, ignorando suas origens e misturas étnicas e levantando a questionamentos sobre quem faz parte de “nós” e quem faz parte do “eles”.

Entre os vários tipos de incertezas apontados, destaca-se aquela que um indivíduo pode questionar se é algo que diz ser ou parece ser ou tem sido histo­ricamente. Assim, a negação da identi­dade caipira no interior paulista é uma constante que se estabeleceu desde a evolução das ferrovias ao longo de todo o século 20.

Inicialmente, esperando que o trem de ferro levasse progresso ao oeste pau­lista, invadindo territórios kaingang e se tornasse o “arauto da grande luz” daque­la região, as populações que se formaram ao longo desse século nunca assumiram nem parte da identidade indígena paulis­ta, mas somente a identidade imigrante advinda com os seus sobrenomes nas ci­dades dessa região do Estado.

Como os indígenas eram a representa­ção de um atraso social, impasse do pro­gresso e de derrota, sem dúvida, não se atrelaria assumidamente um orgulho de identidade de parte das populações com esses grupos.

Etnocídio da cultura caipira

Por último, é importante salientar que a dinâmica do agribusiness tem acarre­tado, após a queda da produção cafeei­ra, da emergência do plantio da laranja e, posteriormente, da cana-de-açúcar, nas últimas décadas, a assimilação de bens culturais oferecidos por essa indústria que promove o etnocídio da cultura cai­pira paulista. Não apenas os recursos na­turais se tornam escassos com essa dinâ­mica, mas recursos culturais são amea­çados à extinção.

A abertura para o exercício da di­versidade musical em diferentes espa­ços, principalmente no berço da músi­ca caipira, que é o estado de São Paulo, é uma necessidade para a sobrevivência da identidade cultural dessa população, que está ameaçada de ser teleguiada por grupos que dominam setores de comu­nicação, a indústria cultural e as políti­cas voltadas ao espaço rural.

Em 27, 28 e 29 de novembro des­te ano, reuniram-se os principais no­mes da viola caipira do cenário brasilei­ro no 6º Encontro Nacional de Violeiros em São Paulo, para organizar a cena por meio de ações que garantam a abertura de espaços para circulação de sua músi­ca, de sua cultura, de sua sobrevivência como seres inseridos numa democracia de fato.

*Fabius é pesquisador musical, doutorando no DIVERSITAS – FFLCH (USP) e violeiro do trio Tamoyo.

Conteúdo Original / Fonte: Brasil de Fato

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