Sonoridades
Há pelo menos duas décadas, um segmento da música brasileira produzida no estado de São Paulo teve uma movimentação de grupos e artistas individuais que passaram a intensificar busca de sonoridades vinculadas à música tradicional de origem rural.
A divulgação do trabalho artístico desses músicos independentes passou a ser um desafio no Brasil, uma vez que estes concorrem num mercado que atua sob regras ditadas por grandes empresários e gravadoras, num contexto atrelado sobretudo aos meios televisivos, radiofônicos e outros fortes elementos da indústria cultural e agrícola.
Atualmente, a possibilidade de formar público de viola por meio de circuito de shows tem sido um caminho de agregar pessoas para divulgar o trabalho musical, vender discos e dar continuidade à obra artística de violeiros.
Instituições como Sesc e Sesi têm dado espaço à veiculação da música tocada com o cordofone de São Gonçalo em seus espaços. Paralelamente a esses circuitos, algumas cidades têm procurado caminhos destinados ao destaque dessa música que se vincula à cultura do interior por meio de festivais culturais em que se destaca também esse instrumento.
Em Jaú, Botucatu, Salto, Santa Fé do Sul, por exemplo, ocorreram, nos últimos anos, festivais e mostras, em que se apresentaram Zeca Collares, Zé Mulato e Cassiano, Inezita Barroso, Ricardo Anastácio, Levi Ramiro, Ivan Vilela, Ricardo Vignini, Índio Cachoeira, Júlio Santin, Osni Ribeiro, Trio Tamoyo, Luciano Queiroz, Milton Araújo, Cacique e Pajé, Craveiro e Cravinho, Liu e Léu e outros nomes ao lado de artistas populares, além das participações das duplas “anônimas” de caipiras que se apresentaram em palcos grandiosos.
Em Irapuru, no Oeste paulista, ocorre há mais de dez anos o festival Caipirapuru, do qual participam nomes vinculados a esse instrumento residentes não só no território paulista, mas também em outros estados, levando um público de 10 mil pessoas por dia de espetáculos, o que equivale aproximadamente a um terço da população da cidade.
É muito comum que, nesses eventos, artistas consagrados dividam camarim com grandes mestres dos folguedos, como integrantes das catiras participantes, de romarias de São Gonçalo, de folias de reis, de cururus, de fandangos do litoral sul e de virtuosos artistas desconhecidos. Todos esses artistas, famosos ou não, expõem e comercializam seus CDs nesses eventos de forma completamente independente e com sucesso invejável.
O outro lado
Existe, porém, um outro lado dessa aparente democracia da música e da cultura rural . Uma força que vem dos veículos massivos de comunicação, da indústria cultural e de outros setores coage de forma expressiva manifestações musicais e culturais que estejam ligadas à etnomúsica do campo.
Atrelado ao circuito dos rodeios, existe um cardápio de artistas que se apresentam falsamente como sertanejos universitários, que atingem , com apoio da mídia televisiva, alcance nacional nas arenas de rodeios adaptadas à estrutura de grandes espetáculos, com ingressos oferecidos a elevados preços.
Preconceitos
Esse movimento proveniente se setores da indústria cultural tem trabalhado o fortalecimento de ações que ridicularizam elementos ligados às raízes rurais, enaltecendo a estética do caubói texano em detrimento da figura do “Jeca”, separando numa mesma população dois grupos: um que se vincula aos elementos nostálgicos da cultura rural do século 20; outro que nega essa identidade e se atrela a uma ascensão social do migrante, consumista, americanófilo, submisso aos valores impostos pelas políticas imperialistas ligadas à agricultura no país.
Na Vila Olímpia, em São Paulo, há uma casa de shows de música sertaneja universitária que proíbe a entrada de pessoas com chapéu de palha, negando permissão a qualquer associação entre o Jeca e o local.
Em parte, pode-se considerar que alguns dos preconceitos que sempre existiram em relação à cultura caipira se estendem à aceitação da música produzida pelos violeiros caipiras em alguns setores da sociedade uma vez que estes, em temática comumente abordada em seus álbuns, reverenciam um sentimento de saudade da realidade tida como atrasada por grande parte dessa população, predominantemente de origem rural, que migrou da Zona Rural para a cidade nas últimas décadas.
Segundo Stuart Hall, a identidade se preenche a partir de nosso exterior, isto é, da forma como queremos ser vistos. Dessa maneira, a dissociação da imagem do Jeca, atrasado, se dá também pela negação da música tocada com viola caipira, que é marcada por grande pluralidade de ritmos e formatos de apresentações nesse movimento que se fortalece entre os artistas ligados a esse instrumento.
Partir para uniformização daquilo que se ouve é uma das metas da indústria da música de massa. Para Tzvetan Todorov, porém, a redução do plural ao único é uma prática que se opõe à democracia. Toda a variedade rítmica presente na música caipira ou na música que artistas executam com viola é massacrada pela ditadura imposta pelos poucos gêneros explorados pelos músicos do nicho sertanejo universitário. Um regime democrático não se pode definir por um único traço, mas por uma pluralidade de características que se devem equilibrar e formar um complexo e rico arranjo.
Diversidade
A música brasileira, em todos os gêneros é marcada por diversidade e riqueza, entretanto o filtro imposto pelos grupos que produzem e vendem a música dos rodeios trabalha de modo que aceitemos a pobreza musical e poética das canções que circulam nos rodeios e feiras do agronegócio.
Nesse contexto, a indústria cultural segue impondo elementos que geram incertezas no que diz respeito à identidade de indivíduos e grupos, ancorada na busca de identidade nas grandes cidades, numa característica forma de violência contra a cultura brasileira.
Ao criar produtos musicais para atingir o grande público, essa indústria cultural promove o vazio, materializado em empobrecidas canções de amor ou em canções com letras metalinguísticas que consistem em reproduzir danças e bordões dos artistas que as executam.
“Incerteza social”
Nas palavras do pesquisador Arjun Appadurai, a velocidade com que as modernas sociedades globalizadas promovem a uniformização de valores e necessidades, que podem, de um lado, gerar um sentimento de identidade nacional e, por outro, o desapego de tradições locais e regionais, gera o que o autor chama de “incerteza social”, ignorando suas origens e misturas étnicas e levantando a questionamentos sobre quem faz parte de “nós” e quem faz parte do “eles”.
Entre os vários tipos de incertezas apontados, destaca-se aquela que um indivíduo pode questionar se é algo que diz ser ou parece ser ou tem sido historicamente. Assim, a negação da identidade caipira no interior paulista é uma constante que se estabeleceu desde a evolução das ferrovias ao longo de todo o século 20.
Inicialmente, esperando que o trem de ferro levasse progresso ao oeste paulista, invadindo territórios kaingang e se tornasse o “arauto da grande luz” daquela região, as populações que se formaram ao longo desse século nunca assumiram nem parte da identidade indígena paulista, mas somente a identidade imigrante advinda com os seus sobrenomes nas cidades dessa região do Estado.
Como os indígenas eram a representação de um atraso social, impasse do progresso e de derrota, sem dúvida, não se atrelaria assumidamente um orgulho de identidade de parte das populações com esses grupos.
Etnocídio da cultura caipira
Por último, é importante salientar que a dinâmica do agribusiness tem acarretado, após a queda da produção cafeeira, da emergência do plantio da laranja e, posteriormente, da cana-de-açúcar, nas últimas décadas, a assimilação de bens culturais oferecidos por essa indústria que promove o etnocídio da cultura caipira paulista. Não apenas os recursos naturais se tornam escassos com essa dinâmica, mas recursos culturais são ameaçados à extinção.
A abertura para o exercício da diversidade musical em diferentes espaços, principalmente no berço da música caipira, que é o estado de São Paulo, é uma necessidade para a sobrevivência da identidade cultural dessa população, que está ameaçada de ser teleguiada por grupos que dominam setores de comunicação, a indústria cultural e as políticas voltadas ao espaço rural.
Em 27, 28 e 29 de novembro deste ano, reuniram-se os principais nomes da viola caipira do cenário brasileiro no 6º Encontro Nacional de Violeiros em São Paulo, para organizar a cena por meio de ações que garantam a abertura de espaços para circulação de sua música, de sua cultura, de sua sobrevivência como seres inseridos numa democracia de fato.
*Fabius é pesquisador musical, doutorando no DIVERSITAS – FFLCH (USP) e violeiro do trio Tamoyo.