Aborto de menina de 11 anos Ă© causa de polĂȘmica na BolĂ­via

Por TIÃO MAIA, PARA CONTILNET 10/11/2021 às 10:07 Atualizado: hå 5 anos
Vale do Rio Chapare, na BolĂ­via. Daniela Zubieta CC

A cidade de Santa Cruz de La Sierra, na BolĂ­via, estĂĄ envolvida numa polĂȘmica nos Ășltimos dias por causa da gravidez seguida de aborto de uma menina de 11 anos, estuprada seguida vezes pelo pai de seu padrasto, em casa. A polĂȘmica envolve a Igreja CatĂłlica local, que se posicionou contra o aborto e o caso ganhou conotação pĂșblica em todo o paĂ­s.

A Defensoria PĂșblica da BolĂ­via confirmou nesta quarta-feira (10) que a menina de 11 anos engravidou devido aos contĂ­nuos abusos sexuais cometidos pelo pai de seu padrasto e sua famĂ­lia decidiu interromper a gestação. “A menor assumiu uma definição, junto com a sua mĂŁe, no Ăąmbito do resguardo de seu direito Ă  vida e seu direito Ă  integridade”, declarou a defensora pĂșblica Nadia Cruz em entrevista coletiva sobre o caso, que aconteceu em YapacanĂ­, departamento de Santa Cruz, no leste da BolĂ­via.

O episĂłdio gerou uma polĂȘmica nacional nas Ășltimas semanas, tendo a Igreja CatĂłlica no centro da discussĂŁo. “A menor tem direito Ă  confidencialidade, tem direito de continuar com sua vida, depois de toda invasĂŁo da Igreja e da permissividade das instituiçÔes pĂșblicas”, completou a defensora. A autoridade boliviana.

Por mais de nove meses, a menina foi vĂ­tima de abuso sexual cometido pelo pai do atual companheiro de sua mĂŁe. A gravidez foi descoberta quando a menina disse Ă  famĂ­lia que sentia “movimentos estranhos” na barriga. Exames mĂ©dicos determinaram que, na ocasiĂŁo, ela estava com 21 semanas de gestação. Uma tia da menor apresentou queixa contra o suposto agressor, detido em prisĂŁo de segurança mĂĄxima. Ao mesmo tempo, foi apresentado um pedido de interrupção legal da gravidez (ILE, na sigla em espanhol) para a menina. Quando o caso se tornou pĂșblico, começou um acalorado debate entre a Igreja CatĂłlica e grupos prĂł-vida e as entidades de proteção de menores que defendiam o direito constitucional da menina de abortar.

Na BolĂ­via, uma decisĂŁo constitucional de 2014 determinou que a mulher pode ter acesso ao aborto legal e seguro nos casos em que a gravidez Ă© fruto de estupro, incesto, estupro de menor de idade, ou se a gravidez coloca em risco a vida ou saĂșde da mĂŁe. É necessĂĄrio, no entanto, que seja feita a denĂșncia de estupro e ter o consentimento da vĂ­tima, eliminando a exigĂȘncia de autorização judicial que consta no CĂłdigo Penal Boliviano para a realização de um aborto sem que haja punição aos mĂ©dicos e Ă  paciente.

Quando a polĂȘmica sobre o caso veio Ă  tona algumas semanas atrĂĄs, a cobertura da imprensa e a pressĂŁo de grupos antiaborto fizeram a menina e sua mĂŁe desistirem de continuar com a interrupção da gravidez, conforme contou a defensora Nadia Cruz Ă  BBC News Mundo, serviço de notĂ­cias em espanhol da BBC. Foi assim que a menina recebeu alta do hospital onde se encontrava e foi transferida para um centro de acolhimento da Igreja CatĂłlica, instituição que se comprometeu a cuidar da menor e do seu filho ainda nĂŁo nascido.

De acordo com dados da Casa da Mulher – uma instituição de defesa do gĂȘnero da BolĂ­via – divulgados pela agĂȘncia de notĂ­cias EFE, em 2020 ocorreram 39.999 gestaçÔes de menores de 18 anos na BolĂ­via, o que significa que 104 meninas engravidaram por dia no paĂ­s, das quais seis sĂŁo menores de 13 anos. Os nĂșmeros sĂŁo considerados alarmantes e preocupam instituiçÔes de defesa da Criança e do Adolescente, como o Unicef.

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