O governo já decidiu pelo retorno do auxĂlio emergencial. SerĂŁo pagas quatro parcelas de atĂ© R$ 250 entre março e junho, que custarĂŁo atĂ© R$ 40 bilhões, dos quais R$ 30 bilhões serĂŁo bancados por meio do aumento da dĂvida pĂşblica e o restante, pelo orçamento do Bolsa FamĂlia. A perspectiva Ă© de que 40 milhões de pessoas sejam beneficiadas, depois de um amplo cruzamento dos dados daqueles que receberam o auxĂlio no ano passado. O valor do benefĂcio será definido por meio de medida provisĂłria, a ser editada depois de o Congresso aprovar a proposta de emenda Ă Constituição (PEC) Emergencial.
A perspectiva Ă© de que a PEC seja votada na prĂłxima quinta-feira em dois turnos no Senado e dentro de, no máximo, duas semanas, na Câmara. Se esse prazo for cumprido, acredita a equipe econĂ´mica, já será possĂvel pagar o auxĂlio emergencial no mĂŞs que vem. O governo nĂŁo descarta, porĂ©m, baixar a MP logo depois do aval do Senado, apostando que os deputados cumprirĂŁo o acordado. TĂ©cnicos admitem o risco da medida, mas justificam a emergĂŞncia do momento, devido ao recrudescimento da pandemia do novo coronavĂrus.
Para bater o martelo em relação Ă volta do auxĂlio emergencial, a equipe econĂ´mica exigiu uma sĂ©rie de contrapartidas na PEC Emergencial, como um novo marco fiscal, que define, claramente, o que Ă© emergĂŞncia fiscal e o que Ă© processo de calamidade. Dessa forma, o governo quer dar uma garantia aos agentes econĂ´micos de que a volta do auxĂlio emergencial nĂŁo Ă© uma licença para gastar, ainda que as despesas com o benefĂcio fiquem livres dos limites impostos pela regra de ouro, pelo teto de gastos e pela previsĂŁo de deficit primário de R$ 247,1 bilhões neste ano.
Segundo tĂ©cnicos da Esplanada, o espaço para o gasto com o auxĂlio emergencial por mais quatro meses foi aberto pelo congelamento dos salários de servidores em 2020 e 2021. A economia, nesse perĂodo, será de R$ 138 bilhões, dos quais R$ 40 bilhões no governo federal. A PEC Emergencial, por sinal, prevĂŞ que gatilhos sejam disparados automaticamente quando decretado estado de calamidade. Isso inclui a suspensĂŁo imediata de reajuste ao funcionalismo. Ou seja, nĂŁo será preciso submeter tais medidas restritivas novamente ao Congresso.
PolĂŞmicas
O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-RJ), acredita que a votação da PEC Emergencial poderá se encerrar em março. Mas reconhece que um tema complexo incluĂdo na proposta, como a desvinculação de verbas para educação e saĂşde, provocará controvĂ©rsia (leia na página 3). Pelo relatĂłrio preparado pelo senador Marcio Bittar (MDB-AC), a PEC conta com uma cláusula de calamidade pĂşblica que permitirá ao governo manejar o Orçamento com maior liberdade — hoje, 93% dos recursos estĂŁo vinculados. Pacheco lembrou que o pagamento do auxĂlio ocorrerá apĂłs um projeto de lei ou uma medida provisĂłria baixada pelo governo. “O que fazemos na PEC Ă© estabelecer um protocolo de responsabilidade fiscal”, explicou.
Na avaliação do diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI), Felipe Salto, em vez de atrelar a PEC Emergencial a temas polĂŞmicos, seria mais seguro para o governo cortar despesas para viabilizar o auxĂlio emergencial. “O ideal seria que o MinistĂ©rio da Economia adotasse medidas compensatĂłrias, como redução de gastos ou aumento de receitas, que permitissem comportar essa despesa nova no Orçamento. A tendĂŞncia, no entanto, Ă© de que venha gasto novo e, em troca, aprove-se um programa de ajuste fiscal que estaria contemplado na PEC Emergencial”, afirmou.
A equipe econĂ´mica assegurou que, mesmo que o auxĂlio emergencial seja pago por meio de mais dĂvida, nĂŁo haverá estresse entre os especialistas. Os tĂ©cnicos disseram que, para um paĂs com Produto Interno Bruto (PIB) acima de R$ 7 trilhões, os R$ 30 bilhões em dĂvida representam apenas 0,33 ponto percentual a mais no endividamento pĂşblico. Eles lembraram que a dĂvida bruta brasileira fechou 2020 em 89,3% do PIB. Logo, essa relação aumentará para 89,6%. “Nesse contexto, o importante Ă© que o Congresso aprove o novo marco fiscal na PEC Emergencial. Isso dará muita garantia de que as contas pĂşblicas permanecerĂŁo sob controle”, acrescentou um tĂ©cnico do governo.
Renda Brasil volta Ă pauta
Ă€ parte a volta do auxĂlio emergencial, o governo prepara o Renda Brasil como sucessor definitivo desse benefĂcio. A equipe econĂ´mica está convicta de que o paĂs precisa de um programa de renda robusto para atender os mais pobres.
O Renda Brasil vinha sendo discutido desde 2020, em meio Ă pandemia do novo coronavĂrus, mas acabou saindo de cena depois de o presidente Jair Bolsonaro criticá-lo publicamente. Para o chefe do Executivo, do jeito que vinha sendo modelado, o programa tiraria dos mais pobres para dar aos paupĂ©rrimos. Entre as propostas apresentadas estavam o congelamento das aposentadorias pagas pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e o fim do abono salarial.
Apesar da proibição de Bolsonaro de que o Renda Brasil fosse adiante, a equipe econĂ´mica aprofundou os estudos, a fim de convencer o Palácio do Planalto de que o paĂs precisa de um programa mĂnimo de renda para atender uma população muito vulnerável, identificada durante a pandemia, por meio do pagamento do auxĂlio emergencial.
O governo tem mapeado mais de 20 programas sociais que podem ser unificados para a criação do Renda Brasil, incluindo o Bolsa FamĂlia. Os tĂ©cnicos do governo dizem que a agregação de programas Ă© um processo natural. Foi feita nos governos de Fernando Henrique Cardoso e de Lula, sempre resultando em benefĂcios para a população carente. No entender da equipe econĂ´mica, Ă© preciso pĂ´r fim aos ruĂdos polĂticos para que o Renda Brasil seja efetivado.

