Enquanto a internet fervia com vĂdeos de gente cortando chinelo e fazendo boicote performático, o Congresso Nacional seguia trabalhando. Em silĂŞncio, longe do algoritmo e sem gerar engajamento emocional. A polĂŞmica em torno de uma propaganda da Havaianas com Fernanda Torres virou combustĂvel para a indignação seletiva da direita bolsonarista, que transformou uma peça publicitária em batalha ideolĂłgica. Foi barulhento, foi raso e foi inĂştil.

Câmara dos deputados/Foto: Reprodução
Porque, fora da bolha, decisões bem mais concretas estavam sendo tomadas. Decisões que mexem diretamente com orçamento pĂşblico, polĂticas sociais, educação e com o prĂłprio sistema polĂtico.
Levantamento do portal Rede Brasil Justo mostra o tamanho do contraste entre o que virou manchete nas redes e o que passou quase despercebido na vida real.
O Congresso aprovou um corte de R$ 488 milhões nas universidades federais. O impacto nĂŁo Ă© abstrato. Afeta bolsas estudantis, contas básicas como água e energia, pesquisas, manutenção de laboratĂłrios e compra de equipamentos. A Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior alerta para um cenário crĂtico, com risco real Ă permanĂŞncia de estudantes e ao funcionamento das instituições.
No mesmo pacote, os parlamentares ampliaram o fundo eleitoral de R$ 1 bilhĂŁo para R$ 4,9 bilhões. O dinheiro do Fundo Especial de Financiamento de Campanha Ă© usado por partidos em propaganda, logĂstica e despesas eleitorais. Ou seja, menos recursos para polĂticas pĂşblicas e mais dinheiro para campanha.
O Orçamento de 2026, aprovado em 19 de dezembro de 2025, tambĂ©m trouxe cortes em programas sociais. Farmácia Popular, PĂ©-de-Meia, seguro-desemprego, auxĂlio gás, bolsas de pesquisa e atĂ© recursos ligados Ă PrevidĂŞncia entraram na conta. Tudo isso para acomodar um aumento histĂłrico nas emendas parlamentares, aquele dinheiro que garante poder polĂtico local e fidelidade no plenário.
Como se não bastasse, o Congresso aprovou um projeto prevendo o aumento do número de deputados federais, de 513 para 531. A ampliação acabou barrada temporariamente pelo Supremo Tribunal Federal, que manteve o número atual para as eleições de 2026 e empurrou qualquer mudança para 2030. Ainda assim, a intenção ficou clara.
E enquanto isso tudo acontecia, um projeto que interessa diretamente Ă vida do trabalhador, o que acaba com a escala 6×1, simplesmente nĂŁo entrou em votação.
Nada disso gerou mutirĂŁo, vĂdeo viral ou boicote em shopping. NĂŁo teve chinelo cortado, nem discurso inflamado sobre moral e costumes. Porque discutir propaganda Ă© fácil, nĂŁo exige leitura, nĂŁo exige compreensĂŁo de orçamento pĂşblico e nĂŁo exige enfrentar contradições.
O problema nunca foi a Havaianas. O problema é o quanto se deixa passar quando a indignação é guiada por barulho, não por conteúdo.


