Vice de Bocalom reúne trajetória militar e votos conquistados no Juruá
Escolhido em julho de 2026 para disputar o cargo de vice-governador do Acre na chapa encabeçada por Tião Bocalom, do PSDB, Sargento Adonis chega à eleição estadual após construir sua vida profissional na Polícia Militar e disputar a Prefeitura de Cruzeiro do Sul em 2020. Sua entrada na chapa também coloca o Vale do Juruá no centro de uma campanha pelo comando do governo estadual.
Antes da farda e da política, Adonis Souza viveu uma infância ligada aos rios e ao comércio que abastecia as comunidades isoladas do Alto Juruá. O pai, natural de Marechal Thaumaturgo, trabalhava como regatão. A mãe nasceu em Porto Walter. Depois do casamento, os dois passaram a morar em um batelão usado nas viagens de compra e venda de mercadorias.
“Meu pai era o que nós podemos chamar de regatão. Vinha à cidade, comprava mercadoria, subia e descia o rio, parando aqui e acolá e vendendo”, conta Sargento Adonis. Parte dos pagamentos era feita com borracha, produto que ainda movimentava a economia das comunidades naquele período.
Foi dentro dessa embarcação que Adonis nasceu, na comunidade Belo Jardim, acima da foz do Rio Tejo. O lugar ficava distante dos centros urbanos e próximo da faixa de fronteira entre Brasil e Peru. “Eu sou resultado desse amor e nasci dentro de um batelão, no Alto Rio Juruá, numa comunidade por nome Belo Jardim”, afirma.
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A família deixou o batelão quando sua mãe engravidou do segundo filho. Adonis ainda não havia completado dois anos. A mudança para a cidade atendia a uma preocupação direta: garantir que os filhos tivessem acesso à escola. A mãe havia estudado até a quinta série do ensino fundamental. O pai, até a quarta série.
O trabalho entrou cedo na rotina. Aos 12 anos, Adonis já retirava areia para vender, comercializava bolinhos de trigo nas ruas e revendia produtos entregues por comerciantes de Cruzeiro do Sul. Recebia uma porcentagem por cada venda e usava parte do dinheiro para pagar o lanche na escola.
“Eu comecei a trabalhar quando tinha 12 anos de idade. Vendia bolinho de trigo na rua e outras coisas para ter o meu dinheirinho, levar para a escola e comprar o meu lanche”, relata.
A necessidade de trabalhar não interrompeu os estudos. Adonis cursou Letras Vernáculo na Universidade Federal do Acre e concluiu o bacharelado em Direito na Uninorte, em Rio Branco. A formação ocorreu enquanto ele mantinha as responsabilidades profissionais e familiares.
“Eu sempre trabalhei e estudei. Graças a Deus, consegui me graduar em Letras Vernáculo pela Ufac. Também sou bacharel em Direito. Consegui concluir depois de muito esforço”, afirma.
A experiência no comércio também formou relações que ele levaria para a vida pública. Como vendedor, comprava mercadorias de empresários, assumia compromissos de pagamento e dependia da própria reputação para continuar trabalhando. Adonis trata essa fase como parte central da formação de seu comportamento profissional.
“Fomos construindo relações de confiança, de comprar junto ao empresário e ter a responsabilidade de pagar. Foi sempre isso o que eu fiz”, diz.
Um episódio envolvendo o irmão passou a ser usado por ele para explicar como lidava com os compromissos assumidos. Adonis havia emprestado folhas de cheque para ajudar o familiar na compra de mercadorias. Em uma das parcelas, o irmão esqueceu de fazer o depósito necessário. O empresário telefonou ao reconhecer o nome no cheque.
“Ele me ligou e disse: ‘Adonis, eu recebi um cheque aqui. Recebi porque está no seu nome e eu lhe conheço’. Eu disse: ‘Fica tranquilo que hoje mesmo eu estou indo’. Fui lá, paguei e resgatei o cheque”, conta.
O ingresso na Polícia Militar acrescentou hierarquia, disciplina e serviço público a uma rotina já marcada pelo trabalho. Adonis permanece na ativa e associa a atuação policial ao contato permanente com moradores, comerciantes e lideranças comunitárias do Juruá.
“Quando eu ingresso na Polícia Militar, deparo me com o lema ‘servir e proteger’. Durante toda a minha vida, estive servindo as pessoas com aquela atividade simples. Depois, passei a prestar um serviço de segurança pública à sociedade”, afirma.
Ele não atribui somente à corporação a formação de sua personalidade. Para Adonis, a disciplina militar reforçou comportamentos construídos desde a adolescência, principalmente o cumprimento de acordos e a responsabilidade com decisões tomadas.
“O que me forjou a ser essa pessoa de caráter e ter essa personalidade firme não foi necessariamente o fato de eu ser policial militar. Logicamente, isso contribuiu. A hierarquia e a disciplina me deram mais robustez para ter esse posicionamento firme de dizer sim quando é sim e não quando é não”, declara.
Adonis também coloca o respeito às diferenças como princípio da própria atuação. “Eu não sou melhor do que ninguém, nem dono da razão. Posso não concordar com alguma coisa que você venha a me falar, mas vou defender o seu direito de falar. A gente vive em um país democrático. Para mim, o respeito está acima de tudo”, diz.
A primeira participação em uma eleição ocorreu em 2020, quando disputou a Prefeitura de Cruzeiro do Sul. Recebeu 9.077 votos e terminou em terceiro lugar, atrás de Zequinha Lima e Jéssica Sales. A votação colocou seu nome entre as lideranças políticas do Juruá e abriu caminho para a participação na eleição estadual de 2026.
Adonis afirma que a decisão de entrar na política nasceu das dúvidas que acumulava ao observar a administração dos recursos públicos. Ele questionava por que determinados serviços não chegavam à população e por que problemas conhecidos continuavam sem solução.
“Eu sempre tive dentro de mim esse desejo de devolver para a sociedade, de alguma forma, aquilo que é dela por direito. Via o gestor tratando da coisa pública, do dinheiro público, e ficava me perguntando: ‘Por que não dá para fazer assim? Por que as coisas acontecem dessa forma?’”, relata.
A candidatura de 2020 foi sua primeira experiência eleitoral. “Eu nunca tinha tido essa experiência, mas disse: ‘Eu vou me doar, vou colocar o meu nome à disposição para disputar um cargo eletivo’”, afirma.
Seis anos depois, Sargento Adonis passa de uma disputa municipal para uma eleição que envolve os 22 municípios acreanos. Na chapa de Tião Bocalom, ocupa a vaga de candidato a vice-governador e assume a tarefa de levar para a campanha estadual uma trajetória construída entre o Alto Juruá, o comércio de Cruzeiro do Sul, a formação universitária, a Polícia Militar e a experiência eleitoral iniciada em 2020.