*Por Socorro Camelo
Uma postagem. Bastou uma postagem para o telefone começar a apitar como se eu tivesse anunciado o fim da democracia ou, pior, trocado o café por chá de camomila.
“Apaga.”
“Não é você.”
“Tá doida?”
Li tudo. Algumas mensagens mais de uma vez. Confesso que o espanto não veio do desacordo. Convivo bem com ele. Jornalista aprende cedo que toda história tem mais de uma janela e que ninguém enxerga a paisagem inteira.
O que me surpreendeu foi esse curioso fenômeno de pessoas que, por gostarem de mim, passaram a saber melhor do que eu quem eu sou.
Publiquei minha preferência eleitoral. Não pedi o voto de ninguém. Não distribuí procurações para consciências alheias. Contei em quem pretendo votar e expliquei por quê. Era um depoimento, não uma convocação. Uma escolha pessoal, não um mandamento gravado em pedra.
Mesmo assim, a fúria veio.
A democracia é uma senhora muito admirada nos discursos. Na convivência diária, porém, parece sofrer de mudanças repentinas de humor. Todos defendem a liberdade de expressão até o instante em que alguém resolve usá-la para expressar uma opinião diferente.
Com mulher, o regulamento costuma ser ainda mais minucioso. Podemos ser inteligentes, desde que não contrariemos ninguém. Corajosas, desde que escolhamos as causas previamente autorizadas.
Independentes, mas sem ultrapassar o perímetro desenhado para nós. Livres, claro, contanto que a liberdade venha revisada, aprovada e com um coração amarelo no final.
A essa altura da vida, imaginei que já tivesse concluído o curso avançado de agradar. Descobri que não. A disciplina é obrigatória para mulheres e não oferece diploma. Sempre surge alguém disposto a aplicar uma prova surpresa.
Escrever, nesse sentido, continua sendo um pequeno ato de rebeldia. Toda palavra publicada corre o risco de parecer desnecessária, exagerada ou simplesmente tola. Algumas serão mesmo. A vida também é feita de frases que gostaríamos de recolher cinco minutos depois, quando já foram lidas por metade da cidade e encaminhadas para a outra metade.
Talvez o mais prudente seja não dizer nada. Pensar baixinho. Sentir com moderação. Substituir convicções por emojis neutros. Uma folha, uma flor, um passarinho olhando o horizonte. Na dúvida, manda um “bom dia” com uma xícara de café e não se compromete com mais nada.
Só existe um problema. O silêncio também diz. E, às vezes, diz justamente aquilo que não somos.
Sei que minha proximidade com o senador e candidato a governo Alan Rick pode despertar questionamentos. Deve despertar.
O jornalismo me ensinou a desconfiar das versões prontas, inclusive das minhas. Mas foi também a convivência que me permitiu observar o homem público longe dos palanques e formar uma opinião baseada no que vi.
Isso não torna minha escolha infalível. Voto não é canonização. Apoiar alguém não significa encontrar um santo, até porque, se dependêssemos de santidade para preencher as urnas, a Justiça Eleitoral encerraria o expediente por falta de candidatos.
Posso estar errada.
Essa possibilidade acompanha qualquer escolha verdadeiramente humana. Posso até mudar de ideia um dia. Mudar não é falta de caráter. Às vezes, é apenas a inteligência abrindo uma janela.
O que não posso é fingir que penso diferente para continuar cabendo na imagem que fizeram de mim.
Algumas críticas vieram do afeto. Reconheci nelas preocupação, decepção e até medo de que eu estivesse me afastando de valores que sempre defendi. Outras chegaram com pedras nas mãos e certezas no bolso. Doeram mais aquelas enviadas por pessoas que admiro. Talvez porque palavras de desconhecidos arranhem, mas palavras de quem a gente gosta sabem exatamente onde fica a pele.
Ainda assim, discordar do meu voto não transforma ninguém em meu adversário. Também não aceito que uma divergência eleitoral seja usada como diagnóstico moral.
Seu olhar não invalida o meu. O meu não pretende invalidar o seu.
Continuo acreditando nas mulheres, na liberdade, na justiça e no direito de cada pessoa escolher conforme a própria consciência. Nenhum candidato receberá de mim o poder de apagar tudo aquilo que sou. Meu voto é uma escolha política, não uma renúncia à minha história.
Por isso, não apaguei.
Reafirmo meu voto naquele que considero o mais preparado e no homem público que observei de perto durante um ano e meio de convivência profissional.
Minha escolha não nasceu de um santinho nem de uma pesquisa. Nasceu do que vi quando não havia palanque. Ninguém precisa enxergar com os meus olhos, mas não me peçam para duvidar do que eles viram.
Isso não me torna dona da verdade, apenas responsável pela escolha que fiz e pelas palavras que assino.
Posso ouvir, reconsiderar e até mudar de ideia. O que não posso é diminuir minha voz para voltar a caber no retrato que fizeram de mim. Se agisse assim, confirmaria justamente a frase que mais me feriu “Não é você.”
Aí, sim, deixaria de ser.
Minha voz é uma das poucas coisas que realmente me pertencem. Não a uso para mandar na consciência de ninguém. Uso para não me perder da minha.
As eleições passam. Os candidatos passam. Até as nossas certezas passam. Depois delas, restamos nós, com nossas escolhas, nossos afetos e a difícil tarefa de continuar reconhecendo humanidade em quem pensa diferente.
Talvez esse seja o gesto político mais urgente do nosso tempo. Divergir sem expulsar o outro do coração.
