MPF recorre para manter Acre como réu em ação contra padrões estéticos em escolas militares

De acordo com o órgão, os regulamentos em vigor no Acre impõem regras rígidas sobre cabelo, maquiagem, barba e vestimentas, que extrapolam o espaço escolar e invadem a vida privada dos estudantes

Por Geovany Calegário, ContilNet 27/08/2025 Atualizado: há 8 meses

O Ministério Público Federal (MPF) apresentou recurso ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) para que o estado do Acre continue no polo passivo da ação civil pública que contesta a imposição de padrões estéticos em escolas militares e cívico-militares. Para o órgão, a participação do ente estadual é indispensável, já que cabe ao governo local, e não apenas à União, a responsabilidade pela manutenção e fiscalização dessas instituições de ensino.

A ação foi proposta em julho de 2023, com o objetivo de assegurar os direitos fundamentais dos estudantes e impedir que regras baseadas na disciplina militar sejam aplicadas em escolas públicas. O MPF argumenta que tais exigências não têm amparo legal, ferem a liberdade individual e não apresentam benefícios comprovados na qualidade da educação. Apesar disso, em primeira instância a Justiça rejeitou os pedidos e retirou o Acre do processo, decisão contra a qual o órgão recorreu em fevereiro de 2024 e novamente em agosto deste ano.

MPF recorre para manter Acre como réu em ação contra padrões estéticos em escolas militares

MPF recorre para manter Acre como réu em ação contra padrões estéticos em escolas militarizadas/Foto: Reprodução

Segundo o procurador regional dos Direitos do Cidadão no Acre, Lucas Costa Almeida Dias, a situação ganha relevância diante da revogação do Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares (Pecim) pela União. Ele lembra que a própria Advocacia-Geral da União (AGU) já defendeu a inconstitucionalidade de leis estaduais que mantêm esse modelo de ensino em ações apresentadas ao Supremo Tribunal Federal (ADIs 6791 e 7662).

Mesmo com esse cenário, o governo do Acre anunciou a intenção de preservar e ampliar a rede de escolas militarizadas. Para o MPF, excluir o estado da ação seria contraditório, pois as legislações federal e estadual têm conteúdo semelhante, o que poderia gerar duplicidade de processos. Além disso, reforça que a adoção de tais normas viola a Constituição, já que a competência para legislar sobre educação é de caráter exclusivo da União.

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O procurador destaca ainda que não há previsão legal que justifique a imposição de padrões estéticos em ambiente escolar, cabendo ao Judiciário assegurar a proteção dos alunos contra restrições abusivas. No recurso protocolado em 22 de agosto, o MPF cita jurisprudência do STF e recomendações internacionais, como a do Comitê da ONU sobre os Direitos da Criança, que já sugeriu a revogação da militarização em escolas estaduais e municipais no Brasil.

MPF recorre para manter Acre como réu em ação contra padrões estéticos em escolas militares

Ministério Público aponta inconstitucionalidade e impacto em grupos vulneráveis/Foto: Reprodução

De acordo com o órgão, os regulamentos em vigor no Acre impõem regras rígidas sobre cabelo, maquiagem, barba e vestimentas, que extrapolam o espaço escolar e invadem a vida privada dos estudantes. O descumprimento dessas normas é classificado como ato de indisciplina de natureza média.

Para Lucas Costa Almeida Dias, tais exigências acabam atingindo de maneira desproporcional grupos vulneráveis, como pessoas pretas e pardas, pessoas com deficiência e a população LGBTQIA+, configurando práticas de racismo institucional e capacitismo. O recurso também lista denúncias recebidas pela Comissão de Direitos Humanos, relatando abusos enfrentados por alunos, professores e membros da comunidade desde a implantação da militarização nas escolas acreanas.

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