Entre 2023 e 2025, o Acre registrou 461 homicĂdios. Desse total, quase metade — 211 — foi causada pela guerra entre facções criminosas que atuam no estado. Os nĂşmeros estĂŁo disponĂveis no painel estatĂstico da PolĂcia Civil.

A análise do painel indica que a guerra entre facções já alcança praticamente todo o território acreano./Foto: assessoria/ PCAC.
Entre os anos analisados, 2023 apresentou o maior nĂşmero de ocorrĂŞncias, com 88 homicĂdios ligados a facções. No ano seguinte, houve uma redução de 25% nos casos dessa natureza, com 66 mortes registradas.
Em 2025, atĂ© o momento, o estado já contabiliza 57 assassinatos atribuĂdos Ă disputa entre grupos criminosos, o que representa uma redução momentânea de 14% em relação ao ano anterior.
O levantamento mostra ainda que 37% dos crimes — o equivalente a 173 casos — foram cometidos com o uso de arma de fogo.
A análise do painel indica que a guerra entre facções já alcança praticamente todo o territĂłrio acreano. Mais da metade dos municĂpios do estado registrou esse tipo de crime. Rio Branco lidera com 145 assassinatos, seguida por Cruzeiro do Sul (18) e BrasilĂ©ia (9).
Quanto ao perfil das vĂtimas, a maioria Ă© formada por homens: 206 dos mortos eram do sexo masculino, enquanto cinco eram mulheres.
AlĂ©m disso, o nĂşmero de casos pode ser ainda maior. Segundo o painel, outros 125 homicĂdios permanecem em apuração e podem ser atribuĂdos Ă guerra entre facções.
Rota estratégica
Como rota estratĂ©gica do tráfico, o Acre virou alvo de disputa das organizações criminosas principalmente por estar prĂłxima de outra rota conhecida do crime: a rota Solimões. Em entrevista ao ContilNet no ano passado, o promotor e coordenador do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) do MinistĂ©rio PĂşblico do Acre, Bernardo Albano, explicou que a partir de 2016 os confrontos pelo domĂnio nĂŁo sĂł do estado, mas de toda a RegiĂŁo Norte, se intensificaram.
Foi justamente em 2016, com a morte do traficante Jorge Toumani que o PCC dominou a chamada Rota Caipira, que liga Paraguai e Sudeste brasileiro. Com o avanço, a facção rival precisou achar outros caminhos e achou no Acre uma alternativa.
“O Acre faz fronteira com dois dos maiores produtores mundiais de droga, o Peru e a BolĂvia. Ele se encontra em uma posição muito estratĂ©gica, enquanto corredor logĂstico do escoamento desse entorpecente”, disse o coordenador do GAECO.
Porém, a facção que predomina no Acre e já rouba espaço do PCC, é o Comando Vermelho. “Ela se mostra como a Organização Criminosa em maior vantagem e majoritária. O Acre ainda tem o PCC e o Bonde dos 13, mas na maior parte do estado tem uma predominância do CV e a gente vem observando uma expansão”, disse.
Peru Ă© o foco
Ainda na entrevista, o coordenador do GAECO destacou que com a expansão de território no Acre, o Comando Vermelho começa a mirar na fronteira e quer avançar no Peru.
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“Se percebe um interesse nas regiões transfronteiriças, principalmente no Peru, de cooptação tanto de brasileiros quanto de peruanos, em zona de produção”, disse Albano.
Um possĂvel confronto
Um recente estudo “Cartografias da violĂŞncia na AmazĂ´nia”, divulgado pelo FĂłrum Brasileiro de Segurança PĂşblica ainda em 2023, já havia alertado sobre facções nĂŁo sĂł do Peru, mas da Venezuela e da ColĂ´mbia, avançando sobre o Acre. A informação preocupa a Segurança PĂşblica do Estado sobre possĂveis confrontos com organizações criminosas locais, que disputam a regiĂŁo da AmazĂ´nia Legal.
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Os dados revelaram que em um total de 772 municĂpios abrangendo a AmazĂ´nia Legal, pelo menos 22 facções do crime organizado estĂŁo atuando, evidenciando a magnitude do desafio enfrentado pelas autoridades de segurança na regiĂŁo. O relatĂłrio destaca que 24% de todos os municĂpios da AmazĂ´nia Legal, um total de 178, tĂŞm presença confirmada de facções criminosas e 80 estĂŁo em disputa territorial, onde vivem cerca de 8,3 milhões de pessoas.



