Mais de 130 famílias transformam terreno abandonado em novo bairro no interior do Acre

Sem condições de pagar aluguel, moradores transformam terreno abandonado no 21º bairro de Senador Guiomard

Mais de 130 famílias em Senador Guiomard criam novo bairro. Foto: Reprodução

A 25 quilômetros de Rio Branco, 139 famílias decidiram transformar um terreno baldio, antes marcado pelo abandono e pela insegurança, em esperança de moradia. Assim começou a surgir o Chico Paulo 3, apontado pelos próprios moradores como o 21º bairro de Senador Guiomard – município com cerca de 22 mil habitantes e um dos menores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do estado.

A ocupação, segundo os moradores, não é um ato isolado, mas consequência direta da alta nos aluguéis e da falta de políticas habitacionais eficazes. “As pessoas ganham mal e o valor do aluguel está muito alto. Ninguém aqui está pedindo luxo. Vai sobrar mais dinheiro e as pessoas vão poder comer melhor”, afirma Jhon Lenon, representante do movimento.

De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o déficit habitacional no Acre é de 30.893 moradias. No interior, a realidade é agravada pelo encarecimento dos aluguéis e pela escassez de programas de habitação popular.

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Terreno abandonado

Moradores relatam que a área estava desocupada há cerca de 17 anos e acumulava problemas. “Servia como esconderijo para produtos roubados e era local de proliferação de animais peçonhentos”, diz Jhon. Segundo ele, o proprietário faleceu no ano passado e os herdeiros não demonstraram interesse na área.

O movimento defende que a prefeitura possa intermediar uma solução jurídica. “A prefeitura pode contribuir com uma indenização ao proprietário, ajudando a cidade a expandir e gerar empregos”, argumenta.

 

Aos 62 anos, Dona Antônia Rodrigues enfrenta problemas de saúde e vive com R$ 600 por mês. Foto: Reprodução

O aluguel consome R$ 400. “Essa semana tive que escolher ou comia ou comprava a pomada e optei pelo remédio”, relata. Portadora de psoríase, ela conta que uma das injeções necessárias custa R$ 1 mil e não é ofertada na rede pública. “A vida nos obriga a fazer escolhas e escolhi vir pra cá em busca de uma vida melhor.”

Já Dona Suzana, de 87 anos, limpa sozinha o lote onde pretende construir um pequeno abrigo. “Vejo todo mundo tendo sua casa e fico pensando: será que vou morrer sem ter onde cair? Deus queira que não”, diz. Ela afirma que já se inscreveu em diversos programas habitacionais, mas nunca foi contemplada.

IDH abaixo da média

Com IDH de 0,640 (Censo 2010), abaixo da média estadual de 0,710, Senador Guiomard enfrenta desafios estruturais que vão além da moradia. Especialistas apontam que a falta de acesso à habitação digna impacta diretamente indicadores de saúde, educação e renda.

Enquanto aguardam uma posição oficial do poder público, as famílias seguem abrindo ruas improvisadas, limpando terrenos e erguendo barracos de madeira e lona. Para elas, o Chico Paulo 3 não é apenas uma ocupação — é a tentativa concreta de sair do aluguel e reconstruir a própria história.

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