A 25 quilĂ´metros de Rio Branco, 139 famĂlias decidiram transformar um terreno baldio, antes marcado pelo abandono e pela insegurança, em esperança de moradia. Assim começou a surgir o Chico Paulo 3, apontado pelos prĂłprios moradores como o 21Âş bairro de Senador Guiomard – municĂpio com cerca de 22 mil habitantes e um dos menores ĂŤndices de Desenvolvimento Humano (IDH) do estado.
A ocupação, segundo os moradores, nĂŁo Ă© um ato isolado, mas consequĂŞncia direta da alta nos aluguĂ©is e da falta de polĂticas habitacionais eficazes. “As pessoas ganham mal e o valor do aluguel está muito alto. NinguĂ©m aqui está pedindo luxo. Vai sobrar mais dinheiro e as pessoas vĂŁo poder comer melhor”, afirma Jhon Lenon, representante do movimento.
De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e EstatĂstica, o dĂ©ficit habitacional no Acre Ă© de 30.893 moradias. No interior, a realidade Ă© agravada pelo encarecimento dos aluguĂ©is e pela escassez de programas de habitação popular.
LEIA TAMBÉM: PRF apreende 12 mil maços de cigarros contrabandeados em operações na BR-364
Terreno abandonado
Moradores relatam que a área estava desocupada há cerca de 17 anos e acumulava problemas. “Servia como esconderijo para produtos roubados e era local de proliferação de animais peçonhentos”, diz Jhon. Segundo ele, o proprietário faleceu no ano passado e os herdeiros não demonstraram interesse na área.
O movimento defende que a prefeitura possa intermediar uma solução jurĂdica. “A prefeitura pode contribuir com uma indenização ao proprietário, ajudando a cidade a expandir e gerar empregos”, argumenta.

Aos 62 anos, Dona Antônia Rodrigues enfrenta problemas de saúde e vive com R$ 600 por mês. Foto: Reprodução
O aluguel consome R$ 400. “Essa semana tive que escolher ou comia ou comprava a pomada e optei pelo remĂ©dio”, relata. Portadora de psorĂase, ela conta que uma das injeções necessárias custa R$ 1 mil e nĂŁo Ă© ofertada na rede pĂşblica. “A vida nos obriga a fazer escolhas e escolhi vir pra cá em busca de uma vida melhor.”
Já Dona Suzana, de 87 anos, limpa sozinha o lote onde pretende construir um pequeno abrigo. “Vejo todo mundo tendo sua casa e fico pensando: será que vou morrer sem ter onde cair? Deus queira que não”, diz. Ela afirma que já se inscreveu em diversos programas habitacionais, mas nunca foi contemplada.
IDH abaixo da média
Com IDH de 0,640 (Censo 2010), abaixo da média estadual de 0,710, Senador Guiomard enfrenta desafios estruturais que vão além da moradia. Especialistas apontam que a falta de acesso à habitação digna impacta diretamente indicadores de saúde, educação e renda.
Enquanto aguardam uma posição oficial do poder pĂşblico, as famĂlias seguem abrindo ruas improvisadas, limpando terrenos e erguendo barracos de madeira e lona. Para elas, o Chico Paulo 3 nĂŁo Ă© apenas uma ocupação — Ă© a tentativa concreta de sair do aluguel e reconstruir a prĂłpria histĂłria.


