O Acre pode enfrentar um dos cenários de seca mais severo dos últimos anos. A chegada do fenômeno El Niño tem causado alerta nos órgãos municipais, estaduais e federais para uma possível seca no Estado.
Em entrevista exclusiva, o coordenador da Defesa Civil Municipal, tenente-coronel Cláudio Falcão, alertou para a chegada do fenômeno em 2026, cujos efeitos já começam a ser sentidos na segunda quinzena de abril.
De acordo com informações e previsões oficiais disponíveis, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) emitiu uma nota técnica sobre a possível seca e afirmou que há mais de 80% de probabilidade de ocorrência de um novo episódio de E Niño na segunda metade de 2026, possivelmente a partir do trimestre agosto-setembro-outubro.
“Eu estou acompanhando pessoalmente isso desde o início de março. Inclusive, eu estive no Camaden, lá em São Paulo, e discutimos essa situação que pode acontecer agora em 2026: essa seca severa na nossa região, em contrapartida a muitas inundações em outras regiões, que vai levar nossa umidade completamente para o Sul do país. Diante disso, já estamos com grande maioria das ações planejadas para poder enfrentar esse novo desafio”, disse.
A nota técnica afirma que embora não existam previsões sobre a sua intensidade, os modelos disponíveis apontam uma anomalia de temperatura do mar na região do Oceano Pacífico Equatorial de aproximadamente 1,5ºC, o que classificaria o fenômeno de moderado a forte.
“Não existem, neste momento, indícios que indiquem a possibilidade de ocorrência de um fenômeno de intensidade muito forte, embora, na atualidade, seja pouco confiável estabelecer hipóteses sobre a intensidade deste evento e seus impactos”, diz o documento.
No Acre, a população pode começar a sentir os efeitos do fenômeno já na segunda quinzena de abril.
“O boletim fala do segundo semestre, mas é quando o fenômeno vai intensificar. O fato é que ainda no primeiro semestre nós vamos sentir esses efeitos. Já estamos preparados para senti-los agora na segunda quinzena de abril”, disse.
Mesmo com a previsão de seca, a segunda quinzena de abril ainda pode registrar chuvas volumosas e enxurradas, como a ocorrida recentemente. Segundo Falcão, essas chuvas são consideradas atípicas para o período de transição, uma vez que o fenômeno já começou a atuar.
“Essa semana aconteceu essa grande enxurrada com volume muito alto de chuva, e ainda podem acontecer chuvas nessa situação agora na segunda quinzena. Contudo, dentro dos nossos gráficos, o El Niño já está atuante; digamos que esteja a 5%, mas já está atuante. Por isso, essas chuvas que aconteceram ontem e que podem acontecer ainda em abril são consideradas atípicas, pois não deveriam ocorrer em um volume tão intenso”, explica.

A seca do Rio Acre afetará não só o abastecimento de água, mas também a economia e saúde/Foto: Juan Diaz/ContilNet
Falcão disse, ainda, que tem conversado com o prefeito de Rio Branco, Alysson Bestene, para que, ainda em abril, órgãos da Prefeitura se reúnem para planejar ações para o período de seca.
“Vou citar quatro secretarias especialmente: Meio Ambiente (Semeia), Agricultura (Seagro), Saúde e RBTrans. A seca também será assolada por ondas de calor, e as pessoas que utilizam o transporte coletivo — tanto no trajeto quanto na espera — vão sofrer. A RBTrans vai nos apresentar um plano de contingência para minimizar esses impactos. Todas essas ações nós já vamos tomar providências a partir de agora”, explicou.
O coordenador da Defesa Civil Municipal destacou, ainda, que é possível fazer um comparativo com 2024, com possibilidade de agravamento neste ano. “O que aconteceu em 2024 pode se repetir agora em 2026. Não vamos esquecer que no ano passado, 2025, também tivemos uma seca bastante severa. Foi a primeira vez que a Agência Nacional de Águas reconheceu seca no Acre, antes era só estiagem. Então, em termos comparativos, podemos comparar com 2024 e 2025 com uma possibilidade de agravamento”, afirmou.
Entenda a diferença explicada pelo coordenador da Defesa Civil, coronel Falcão:
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Estiagem: É o estágio inicial. Ocorre quando as chuvas param ou diminuem após o período chuvoso, mas ainda não há um grande déficit de água.
“Se em um mês passamos 15 dias sem chover, chove um pouco, e passa mais 10 dias sem chuva, isso é estiagem.”
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Seca: É um estágio mais grave e prolongado. Lugares que antes mantinham água acabam secando completamente.
“Quando você tem 30 ou 40 dias sem chuva nenhuma, aí é a seca. Ela seca lugares que não tinham secado antes.”
O que é o El Niño?
O “El Niño” é um fenômeno atmosférico-oceânico complexo, associado ao aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Tropical, especialmente em sua porção central e centro-leste, incluindo a região costeira do Equador e do Peru. Ele faz parte do ciclo El Niño-Oscilação Sul, que também inclui fases neutras e de resfriamento (La Niña), podendo reaparecer em intervalos de 2 a 7 anos.
Esse aquecimento altera a circulação atmosférica global e muda os padrões de chuva e de temperatura em várias partes do mundo. O episódio mais recente se desenvolveu ao longo de 2023 e perdeu força no primeiro semestre de 2024. No Brasil, esteve associado, em geral, à chuvas acima da média na Região Sul e a condições mais quentes e secas em partes das regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste.
Governo Lula decreta situação de emergência
A então ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, oficializou em fevereiro o decreto de estado de emergência ambiental em áreas do Acre diante do risco de incêndios florestais ao longo de 2026.
A medida foi publicada no Diário Oficial da União (DOU) e abrange especificamente as regiões do Vale do Acre e do Vale do Juruá, com vigência prevista entre os meses de maio e dezembro, período historicamente mais crítico para queimadas no estado.
A decisão permite a adoção de ações emergenciais voltadas à prevenção e ao combate a focos de incêndio, como a contratação temporária de brigadistas, reforço das equipes de fiscalização ambiental e intensificação do monitoramento por meio de sistemas de detecção de focos de calor. A iniciativa busca reduzir impactos ambientais, proteger comunidades vulneráveis e evitar prejuízos à saúde pública, especialmente durante a estiagem.
Com a emergência ambiental reconhecida, órgãos federais e estaduais passam a atuar de forma articulada para antecipar medidas e garantir respostas mais rápidas diante de eventuais ocorrências. A expectativa é que o planejamento preventivo contribua para reduzir a extensão dos incêndios e minimizar danos à floresta e à população acreana.
O governo do Estado abriu inscrições para brigadistas comunitários, uma das etapas mais importantes do plano de contingência contra as queimadas. Foram disponibilizadas 100 vagas para Rio Branco, Sena Madureira, Bujari, Tarauacá, Cruzeiro do Sul e Mâncio Lima. As inscrições finalizaram na última sexta-feira (17).
Diante da previsão de um período de estiagem mais intenso neste ano, o prefeito Alysson Bestene afirmou que a gestão já iniciou o planejamento para evitar desabastecimento de água em Rio Branco.
Segundo o prefeito, um plano de contingência está sendo elaborado com apoio de órgãos estratégicos.

Alysson afirmou que a prioridade foi dar suporte às famílias atingidas pela enxurrada na Sobral/Foto: Dell Pinheiro
O gestor destacou que o foco será garantir o abastecimento, principalmente nas regiões mais vulneráveis. “Água é vida, água é prioridade. A gente vai estar com esse enfoque, chegando nas comunidades que precisarem desse atendimento durante a estiagem”, disse.
Previsões para o Brasil e o mundo
Novas projeções do Centro Europeu de Previsão Meteorológica de Médio Prazo apontam para a possibilidade de formação de um “super El Niño” entre o fim de 2026 e início de 2027, com potencial para se tornar o mais intenso em cerca de 140 anos.
Caso o cenário se confirme, os efeitos devem ser amplos e desiguais entre regiões.
Modelos climáticos indicam aumento do risco de secas severas na América Central, África e partes da Ásia e da Oceania. Ao mesmo tempo, áreas próximas à Linha do Equador, como Peru e Equador, podem enfrentar chuvas intensas e enchentes.
Em outras regiões, além das chuvas, há previsão de intensificação de ondas de calor na América do Sul, sul dos Estados Unidos, Europa e Índia.
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