A Organização das Nações Unidas (ONU) deu início ao processo de seleção para a escolha do seu próximo secretário-geral em um cenário de forte contestação à sua efetividade diplomática. Pressionada pela perpetuação de conflitos armados e pelo acirramento de tensões geopolíticas, a entidade multilateral busca uma nova liderança para gerir o mandato que se inicia em 1º de janeiro de 2027.
Na última quinta-feira (30/7), o Conselho de Segurança realizou a primeira rodada de votações informais e secretas, conhecidas como straw polls, para mapear o grau de apoio às candidaturas apresentadas. O diplomata escolhido sucederá o português António Guterres, cujo segundo mandato se encerra em 31 de dezembro.
A indicação da liderança máxima da ONU nasce no âmbito do Conselho de Segurança, composto por 15 países-membros. O avanço de qualquer postulante exige a obtenção de pelo menos nove votos favoráveis, além da ausência de veto por parte dos cinco membros permanentes: Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido.
Nas consultas informais, as delegações sinalizam se “incentivam”, “desencorajam” ou mantêm posição “neutra” em relação a cada nome. Alcançado o consenso, a recomendação formal é enviada à Assembleia Geral, órgão que reúne os 193 Estados-membros para a ratificação definitiva. O mandato é de cinco anos, permitida uma única recondução.
Entre as candidaturas cotadas nos bastidores diplomáticos figuram a ex-presidente do Chile Michelle Bachelet; o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Rafael Grossi; a ex-vice-presidente da Costa Rica Rebeca Grynspan; a ex-chanceler do Equador María Fernanda Espinosa; a ex-ministra das Relações Exteriores da Guiana Carolyn Rodrigues-Birkett; e o ex-presidente do Senegal Macky Sall.
A sucessão ocorre no momento em que a entidade enfrenta dilemas estruturais sobre sua capacidade de intervenção e mediação em guerras como as da Ucrânia, Faixa de Gaza, Sudão e Haiti. A prerrogativa de veto dos membros permanentes do Conselho de Segurança tem travado resoluções sobre segurança internacional, gerando críticas de diferentes atores políticos.
Em análise sobre a disputa, o cientista político Gustavo Menon aponta que a escolha indicará a orientação política das potências para o sistema internacional nos próximos anos.
“O que realmente se decide é a capacidade da organização de recuperar legitimidade política em um contexto de crise do multilateralismo, guerras prolongadas e disputas entre as grandes potências. Há uma erosão da confiança no sistema internacional e pressões crescentes sobre o direito internacional”, afirma o especialista.
Críticas à arquitetura atual da ONU são feitas por diferentes lideranças mundiais. O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, defende historicamente uma reforma do Conselho de Segurança para ampliar a representatividade de países emergentes e incluir o Brasil como membro permanente. Por outro lado, a administração do presidente norte-americano Donald Trump tem priorizado negociações bilaterais em detrimento de órgãos multilaterais, reduzindo o financiamento a organismos internacionais.
Para Menon, o sucessor de Guterres terá o desafio de transitar entre blocos com interesses divergentes. “O sucessor precisará combinar experiência multilateral, credibilidade política e capacidade de negociação. Também será importante ter perfil de reforma institucional, disposição para enfrentar a burocracia e sensibilidade para crises humanitárias e de segurança, sem perder legitimidade entre o Norte e as demandas do Sul Global”, pontua o analista.
