A tecnologia deepfake vem sendo usada para criar nudes falsos que sĂŁo disseminados no Telegram. Um bot conectado a sete canais na plataforma usa InteligĂȘncia Artificial para retirar a roupa de pessoas que estĂŁo vestidas nas fotos.
AtĂ© julho, o robĂŽ jĂĄ havia adulterado imagens de pelo menos 104.852 vĂtimas, todas mulheres. A descoberta foi feita pela Sensity, empresa de cibersegurança focada em ameaças visuais, anteriormente chamada Deeptrace, e revelada em um relatĂłrio divulgado neste mĂȘs.
Segundo a pesquisa, a rede social russa VK também é um importante centro de divulgação do bot, disseminado por meio de uma pågina com link direto para o software malicioso.
O TechTudo entrou em contato com o Telegram para pedir um posicionamento sobre o caso, mas nĂŁo teve retorno atĂ© a publicação desta matĂ©ria. Vale lembrar que vazar nudes Ă© crime e o assediador pode ser preso. Entenda a situação a seguir e veja como denunciar, caso vocĂȘ seja vĂtima.
Software vem do DeepNude
O bot que roda no Telegram atualmente Ă© uma versĂŁo de cĂłdigo aberto do DeepNude, software lançado em junho de 2019 sob a forma de site com apps para Windows e Linux. O programa usa aprendizagem profunda, especialmente a chamada Generative Adversarial Network (GAN), para prever como seria o corpo da mulher e entĂŁo criar imagens realistas de suas partes Ăntimas.
ApĂłs reportagem da Vice americana no ano passado, o site sofreu represĂĄlias e foi tirado do ar no mesmo mĂȘs. Contudo, seus donos venderam a licença a um comprador anĂŽnimo por US$ 30 mil. Atualmente ele pode ser encontrado em repositĂłrios de cĂłdigo aberto e sites de torrent.
Como funciona o bot no Telegram
De uso gratuito, o sistema de automação é vinculado em um canal principal no Telegram. Os membros fazem o upload da foto com a pessoa vestida no bot, que apresenta interface de uma janela de chat comum. Em apenas alguns minutos, o robÎ retorna a imagem com a pessoa nua para quem a enviou.

Funcionamento do bot que gera nudes falsos no Telegram â Foto: Divulgação/Sensity. Montagem: Raquel Freire
As fotos vĂȘm por padrĂŁo com uma marca d’ĂĄgua. PorĂ©m, em um sistema de gamificação do assĂ©dio, as marcas podem ser retiradas por meio da compra de moedas premium, que custam cerca de US$ 1,50 a dĂșzia (aproximadamente R$ 8,60, segundo a cotação atual).
Em posse da foto adulterada por IA, o usuårio a compartilha nos outros seis grupos afiliados ao bot, onde recebem curtidas. à nesse momento que o assediador faz uso da imagem para praticar crimes de difamação e sextorsão, entre outros.
Perfil das vĂtimas
O perfil base da vĂtima Ă© de mulheres, mesmo porque o bot sĂł consegue “tirar a roupa” de forma bem sucedida de mulheres. Uma pesquisa feita pelos prĂłprios administradores do canal “central hub” mostrou que a grande maioria dos alvos (63%) Ă© composta por mulheres que os usuĂĄrios conhecem na vida real.

Enquete sobre perfil das mulheres vĂtimas veiculada em grupo do bot de deepfake no Telegram â Foto: Divulgação/Sensity
Os pesquisadores da Sensity atestaram isso ao longo do estudo, avaliando que a maior parte das fotos parece ter sido retirada de redes sociais ou conversas privadas – ou seja, os assediadores sĂŁo pessoas em quem as vĂtimas confiam.
Dezesseis por cento dos entrevistados relatou ter interesse em despir celebridades, como atrizes e cantoras; 8% indicou enviar fotos de modelos e influenciadoras do Instagram; 7% disse querer tirar a roupa via software de garotas desconhecidas na Internet; e 6% relatou nĂŁo estar interessado nos nudes.
AlĂ©m disso, os investigadores identificaram um nĂșmero considerĂĄvel de fotos de menores de idade, o que indica que criminosos estĂŁo usando o bot para gerar e divulgar pedofilia.
Perfil dos usuĂĄrios dos bots
AtĂ© o final de julho, quando a pesquisa foi concluĂda, os sete canais relacionados ao bot reuniam mais de 103 mil membros. NĂŁo foi possĂvel para os pesquisadores identificarem quantas eram contas duplicadas, mas o “central hub”, canal principal que tem o bot em si, tinha 45.615 membros.
TambĂ©m em enquete realizada pela prĂłpria comunidade, 70% dos usuĂĄrios revelou ser da RĂșssia, UcrĂąnia e outros paĂses da antiga UniĂŁo SoviĂ©tica, muito provavelmente por conta da propaganda no VK – em outra enquete, 24% dos membros manifestou ter conhecido o bot atravĂ©s da rede social.
Seis por cento disse ser da Espanha ou AmĂ©rica Latina, que, na pesquisa, exclui o Brasil. Organizada por idioma, a enquete revelou que brasileiros compĂ”em 2% dos usuĂĄrios junto com outras nacionalidades de lĂngua portuguesa.

Nacionalidade dos usuĂĄrios do bot de deepfake no Telegram â Foto: Divulgação/Sensity
Quais sĂŁo os riscos que o bot oferece?
Os ricos de um bot como esse sĂŁo muitos. Nesse caso, dicas para evitar que suas fotos Ăntimas sejam expostas na Internet acabam sem ter nenhuma valia, uma vez que nĂŁo Ă© necessĂĄrio que alguĂ©m tenha tirado um nude. Basta ter postado uma foto de corpo inteiro em qualquer rede social, ou nem isso: na pior das hipĂłteses, basta que alguĂ©m tire uma foto da vĂtima sem seu consentimento no meio da rua.
Considerando que a maior parte das mulheres sĂŁo conhecidas dos usuĂĄrios, Ă© possĂvel concluir que um nĂșmero significativo dessas fotos seja usado como pornografia de vingança, o chamado revenge porn. Os desdobramentos para a vĂtima sĂŁo incontĂĄveis, desde traumas psicolĂłgicos a perda de emprego ou quebra de laços familiares, o que leva muitas pessoas atĂ© mesmo ao suicĂdio.

Divulgação de nudes falsos em redes sociais pode ter efeito devastadores na vida das vĂtimas â Foto: Divulgação/Sensity
As vĂtimas de sextorsĂŁo – que Ă© quando alguĂ©m chantageia outra pessoa com intuito de vantagem sexual ou financeira – tambĂ©m podem sofrer os mesmos efeitos, alĂ©m de eventual perda de dinheiro, caso ceda Ă chantagem. Vale destacar que, de acordo com a Lei 13.718, de 2018, o revenge porn Ă© crime com pena de um a cinco anos de prisĂŁo, que pode ser aumentada em atĂ© dois terços da pena se o infrator for alguĂ©m prĂłximo da vĂtima.
O que diz o Telegram?
Até o momento, o Telegram não se pronunciou. O TechTudo entrou em contato com a assessoria de imprensa do mensageiro, mas, até o fechamento desta matéria, não obteve respostas. O mesmo ocorreu com sites internacionais, como o MIT Technology Review e o CNet. A companhia também não respondeu à Sensity, que vem notificando sobre o bot descoberto hå seis meses. Enquanto isso, o bot continua ativo na rede social.
Como denunciar o vazamento de fotos Ăntimas
Vazar fotos Ăntimas sem autorização Ă© crime e o assediador pode ser enquadrado nos crimes de calĂșnia, injĂșria e difamação, previstos nos artigos 138, 139 e 140 do CĂłdigo Penal. AlĂ©m disso, se a pessoa invadir o computador ou celular da vĂtima para ter acesso Ă s imagens, ainda pode responder por invasĂŁo de dispositivo informĂĄtico. Essas leis tambĂ©m se aplicam ao caso de nudes produzidas com deepfake.
De qualquer forma, Ă© importante que as vĂtimas desses crimes denunciem o ocorrido. A primeira ação deve ser abrir um boletim de ocorrĂȘncia. Depois, vale procurar um advogado para ver como proceder, de acordo com as especificidades de cada caso.

