MĂŁe de bebĂȘ que “dorme” hĂĄ 1,5 ano sonha em ouvir o choro da filha

Por UOL 21/12/2020 Ă s 08:24

Assim que nasceram, no dia 13 de maio de 2019, as gĂȘmeas Ana JĂșlia e Ana Sofia nĂŁo choraram.

Com o passar dos dias, os médicos notaram outros comportamentos: as meninas não abriam os olhos, passavam o tempo todo dormindo, não se mexiam e não tinham nenhum reflexo de dor, em resumo, não esboçavam qualquer reação.

Ao longo dos meses, elas foram submetidas a vĂĄrios exames e examinadas por diversos profissionais, mas nenhum conseguiu fechar um diagnĂłstico.

Nesse depoimento, Luana Tintiliana da Silva, 21, mĂŁe das gĂȘmeas, conta que, segundo os mĂ©dicos, as filhas estĂŁo num sono profundo, em coma desde o nascimento.

Em janeiro deste ano, Ana JĂșlia teve algumas complicaçÔes e morreu aos oito meses. Ana Sofia segue internada na UTI.

“Em 2018, tive um relacionamento rĂĄpido com o pai das crianças, apĂłs um tempo senti um mal-estar e fraqueza. Fui ao hospital, fiz alguns exames de sangue e descobri que estava grĂĄvida. Nesse mesmo dia, fiz um ultrassom e soube que teria gĂȘmeas, mas ainda nĂŁo sabia o sexo”.

Minha primeira reação foi de medo, estava com receio de contar para a minha mãe e ela não aceitar pelo fato de eu ser solteira e também pela minha idade: na época eu tinha 20 anos. Contei a novidade para ela e ela ficou bastante feliz, assim como eu. Contei para o pai das crianças, mas ele não se importou e desde então não temos mais contato. Ele nunca conheceu as meninas.

Uma cirurgia de apendicite no meio do caminho

Aos trĂȘs meses de gravidez, comecei a sentir dor e umas pontadas fortes na barriga.

Fui ao pronto-socorro, fiz alguns exames e a Ășnica coisa que descobriram Ă© que eu tinha alguns miomas, mas, segundo os mĂ©dicos, isso nĂŁo era o motivo da minha dor.

Entre idas e vindas no hospital, fiquei internada e um dos médicos disse que teria que abrir a minha barriga para ver o que eu tinha.

Ele explicou que havia o risco de vida para mim e para as bebĂȘs, mas que era um procedimento necessĂĄrio para entender por que eu sentia tanta dor e por que nenhum remĂ©dio fazia efeito.

Eles abriram a minha barriga, viram que era apendicite e fizeram a cirurgia. A dor passou, fiquei hospitalizada um mĂȘs em observação e depois tive alta.

Por causa dos miomas e desse procedimento, minha gestação se tornou de alto risco. Não podia fazer esforço e tinha que ficar em repouso. Trabalhava como secretåria, mas tive que pedir demissão do emprego. Foi um período difícil.

Do quarto ao oitavo mĂȘs, sĂł saĂ­a para ir Ă s consultas e ultrassons. Morava com a minha mĂŁe e era a Ășnica que trabalhava e que tinha uma renda.

Sem emprego, nós passamos por necessidade. Recebemos doaçÔes de cestas båsicas e do enxoval das crianças: berço, guarda-roupa, fralda, roupinhas, do pessoal da igreja, de amigos e familiares.

Nascimento prematuro e nenhuma reação

No dia 13 de maio de 2019, a Ana JĂșlia e a Ana Sofia nasceram de um parto cesĂĄrea com oito meses. Assim que elas nasceram, nĂŁo choraram, o obstetra fez um estĂ­mulo, mas mesmo assim elas nĂŁo responderam.

Depois do parto, apaguei e acordei em um quarto com muita dor de cabeça. As meninas foram colocadas em um berço ao lado da minha cama.

Elas estavam dormindo, mas depois de um tempo a Ana JĂșlia ficou roxinha e foi levada para ser examinada, passados alguns minutos, aconteceu a mesma coisa com a Ana Sofia.

Elas estavam com dificuldades para respirar e precisavam de oxigĂȘnio. Como ainda estava debilitada, os mĂ©dicos falaram para a minha mĂŁe que nĂŁo era normal elas nĂŁo chorarem.

Eles disseram que precisariam fazer exames para investigar o que elas tinham. As duas foram para o berçårio, mas a Ana JĂșlia piorou e foi para a UTI.

Alguns dias depois o médico chamou eu e minha mãe para nos atualizar da situação.

Ele disse que elas continuavam sem chorar, que nĂŁo abriam os olhos, passavam o tempo todo dormindo, nĂŁo se mexiam, nĂŁo tinham nenhum reflexo de dor quando eram furadas na veia.

SĂł chorava, nĂŁo entendia por que elas estavam daquele jeito. Tinha muito medo de que elas ficassem assim para sempre. Meu leite desceu e fui orientada a tentar amamentar a Ana Sofia.

A fonoaudióloga me ajudava, a colocava no meu peito, mas ela não mamava, não tinha o reflexo de sucção. Fiquei triste porque quando estava gråvida sonhava em amamentar as minhas filhas.

Aos poucos fomos descobrindo que elas nĂŁo reagiam a nada. ApĂłs um mĂȘs e 21 dias na UTI, a Ana JĂșlia e melhorou e foi para o berçårio.

Algumas semanas depois, o médico deu alta, disse que apesar de não ter descoberto o que elas tinham, como elas estavam conseguindo respirar sozinhas, nós poderíamos ir embora.

Se elas piorassem era para voltarmos ao hospital.

“Conversava bastante com elas e pedia que abrissem os olhos”

Elas ficaram um mĂȘs em casa e continuaram com o mesmo comportamento, tudo o que fazia com elas, como dar banho, trocar fralda, trocar de roupa, dar o leite de 3 em 3 horas, era com elas dormindo.

Conversava bastante com elas, pedia: ‘Abre o olho para a mamĂŁe, mamĂŁe quer ouvir o chorinho de vocĂȘs’, mas nada acontecia. Teve alguns episĂłdios em que elas mexeram o rostinho e ficaram com as mĂŁos tremendo, imaginei que elas finalmente estavam reagindo. Gravei essas cenas e levei para a neuropediatra no dia da consulta, mas ela me explicou que aquilo eram crises de convulsĂŁo e orientou que elas fossem internadas imediatamente. Foi o que aconteceu.

Ao longo dos meses, elas foram submetidas a vĂĄrios exames, a equipe que cuidava delas entrou em contato com profissionais do Brasil todo na tentativa de fechar um diagnĂłstico, mas nĂŁo chegaram a nenhum.

Tentaram transferi-las para outros hospitais com mais recursos, mas ninguém queria pegar o caso delas.

Os mĂ©dicos me falavam que elas estavam num sono profundo, em coma desde o nascimento —mas que eles iam continuar investigando.

Ficava aflita de vĂȘ-las daquele jeito, mas nunca reclamei ou questionei Deus por que elas nasceram dessa forma.

Algumas pessoas chegaram a dizer que isso era castigo, mas nĂŁo acredito nisso. SĂł Deus sabe o motivo.

Desde que as minhas filhas nasceram, tenho vivido para elas, fico dia e noite no hospital, revezo com a minha mãe. Se não fosse pela ajuda e apoio dela, não teria aguentado tudo o que aguentei até agora.

O tempo passou, mas elas sĂł pioraram

Com o tempo, as meninas sĂł pioraram. Os mĂ©dicos nĂŁo davam mais esperança, diziam que a qualquer momento elas poderiam morrer, principalmente a Ana JĂșlia, pela gravidade do quadro dela, que precisou ser intubada.

As convulsĂ”es se tornaram mais frequentes e elas pegaram algumas infecçÔes. A Ana JĂșlia jĂĄ tinha sofrido tanto que falava para Deus: ‘Pai, a minha oração Ă© para que o Senhor a cure, mas que seja feita a tua vontade e nĂŁo a minha.

Se a tua vontade for levĂĄ-la para que ela nĂŁo sofra mais, que o Senhor a leve’. A Ana JĂșlia teve muitas complicaçÔes, sofreu uma parada cardĂ­aca e morreu no dia 26 de janeiro de 2020, aos oito meses.

Chorava e gritava de desespero. No dia seguinte, enterrei minha filha, uma parte de mim foi com ela. Todos os dias penso nela e sinto uma dor forte no coração.

Da parte da medicina, não tenho mais esperanças em relação à Ana Sofia. Os próprios médicos jå disseram que mesmo que eles descubram a doença que ela tem, essa descoberta não vai beneficiå-la, apenas outras crianças que venham a nascer com o mesmo problema.

Da parte de Deus, continuo tendo fé que se Ele quiser, pode curar minha filha. Atualmente, Ana Sofia estå sedada na UTI, bastante debilitada, ela continua dormindo e respirando com a ajuda de aparelhos.

Meu sonho Ă© ela ser curada, quero que ela acorde desse sono, quero ver os olhinhos dela, quero ouvir o choro e poder levĂĄ-la para casa”.

DiagnĂłstico das gĂȘmeas Ă© mistĂ©rio para mĂ©dicos

Pedimos a Izabella Sad Barra, pediatra do Hospital Regional PĂșblico do Araguaia, no ParĂĄ, e uma das mĂ©dicas que acompanhou as gĂȘmeas, para explicar o quadro das meninas:

No inĂ­cio, pensamos que pudesse ser alguma sequela de anĂłxia ao nascimento, que Ă© quando falta oxigĂȘnio no cĂ©rebro devido Ă  prematuridade ou atĂ© por ter passado um pouco da hora de nascer.

A anóxia causa um quadro de paralisia cerebral na criança, podendo ser de vårios níveis.

No caso das gĂȘmeas, achamos que o quadro clĂ­nico nĂŁo era muito compatĂ­vel, porque os bebĂȘs com paralisia cerebral acordam, choram, apresentam sucção, e elas nĂŁo apresentavam nada desde o nascimento. Sendo assim, essa hipĂłtese foi descartada.

Começamos a investigar os erros inatos do metabolismo (EIM), que sĂŁo distĂșrbios de natureza genĂ©tica que geralmente correspondem a um defeito enzimĂĄtico capaz de acarretar a interrupção de uma via metabĂłlica.

Ocasionam, portanto, alguma falha de síntese, degradação, armazenamento ou transporte de moléculas no organismo.

NĂŁo os descartamos completamente, mas a maioria dos exames deram negativo. O que deu positivo foi uma alteração mĂ­nima, que tambĂ©m acreditamos nĂŁo ser o Ășnico diagnĂłstico das meninas.

Os sintomas mais comuns de EIM sĂŁo convulsĂ”es, atrasos no desenvolvimento, hepatopatia (alguma doença ou alteração no fĂ­gado), hipoglicemia (baixa taxa de açĂșcar no sangue).Elas apresentavam convulsĂ”es e hipoglicemia. Nunca chegamos a um diagnĂłstico definitivo.

A Luana, mĂŁe das gĂȘmeas, foi submetida a uma cirurgia durante a gestação por causa da apendicite, mas descartamos que isso tenha tido influĂȘncia no quadro das meninas.

Durante um bom tempo, a Ana JĂșlia e Ana Sofia respiravam sozinhas, chegaram a ter alta hospitalar.

Como ficaram um longo perĂ­odo na enfermaria, tiveram algumas infecçÔes, Ă s vezes precisando de oxigĂȘnio inalatĂłrio, mas nada por muito tempo, atĂ© a respiração piorar e precisarem de ventilação mecĂąnica na UTI pediĂĄtrica.

Classificamos o quadro comatoso pela escala de Glasgow. As meninas estĂŁo em coma desde que nasceram.

NĂŁo havia abertura ocular espontĂąnea, nem com estĂ­mulo, nĂŁo havia resposta motora a dor, nĂŁo choravam, nĂŁo movimentavam os membros, nĂŁo reagiam a nada, estavam sempre em sono profundo.

Desde muito pequenas tentamos estimular a sucção ao seio materno, ou na chuquinha, mas sem sucesso.

Elas sempre usaram sonda orogĂĄstrica para se alimentar, e tinham um bom ganho de peso.

A diurese (xixi) era boa. Para evacuar, quase sempre, precisavam de estĂ­mulo com supositĂłrio.

Infelizmente, o quadro da Ana Julia piorou e ela morreu. Não temos boa perspectiva em relação a Ana Sofia, ela necessita de ventilador para respirar, se alimenta por gastrostomia e apresenta crises convulsivas. Sem um diagnóstico fechado, fica difícil pensar em alta.

 

MĂŁe de bebĂȘ que "dorme" hĂĄ 1,5 ano sonha em ouvir o choro da filha

Bloqueador de anuncios detectado

Por favor, considere apoiar nosso trabalho desativando a extensĂŁo de AdBlock em seu navegador ao acessar nosso site. Isso nos ajuda a continuar oferecendo conteĂșdo de qualidade gratuitamente.