Brasil teve trĂȘs bebĂȘs registrados como LĂșcifer desde 2016; como mudar nome

Por UOL 27/01/2022 Ă s 14:07 Atualizado: hĂĄ 4 anos

Quem crĂȘ na BĂ­blia Sagrada acha que LĂșcifer — aquele que carrega a luz, em latim — era um lindo anjo que almejava estar acima de Deus e, por cauda disso, foi expulso do cĂ©u e levado ao inferno, considerado o mais profundo abismo, para onde, na crença dos religiosos, vĂŁo os pecadores. A histĂłria Ă© contada no livro do Velho Testamento IsaĂ­as.

Mas hĂĄ os que nĂŁo acreditam no Livro, muito menos que hĂĄ um lugar em chamas comandado por um ser de chifres, e por conta disso chegam atĂ© a registrar o nome do prĂłprio filho de LĂșcifer. Tanto Ă© que recentemente uma jovem britĂąnica ganhou espaço nos jornais apĂłs aparecer no programa de TV “Plymouth Live” contando ter registrado seu bebĂȘ com o nome de LĂșcifer. E passou a receber mais mensagens de Ăłdio pela escolha.

Ao portal “Mirror”, Josie King, de 27 anos, explicou nĂŁo ter se inspirado em nada e que nĂŁo gosta de nomes considerados padrĂŁo. Falou ainda que nĂŁo acha que o nome do filho represente o diabo.

Aqui no Brasil, de 2016 a 2021 trĂȘs crianças receberam esse nome, sendo duas no Rio Grande do Sul e uma no CearĂĄ. Nesse mesmo perĂ­odo, duas foram registradas como ‘Deus’ e 1.020 com o nome ‘Jesus’. Os dados sĂŁo da Arpen-Brasil (Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais). Universa apurou que a avĂł materna do bebĂȘ chamado LĂșcifer, nascido no ano passado no Nordeste, pediu ao MinistĂ©rio PĂșblico mudança no documento da criança — ela tem a guarda do menino desde a morte da mĂŁe. Caso seja autorizada, ela ganharĂĄ o nome de outro anjo, Miguel. Segundo a BĂ­blia, o grande combatente e vencedor das forças do mal.

CartĂłrio pode recusar registro de nome considerado constrangedor

A diretora da Arpen-Brasil, Andreia Gagliardi, explica a Universa que o cartório pode recusar a registrar um nome que claramente causarå constrangimento à criança. Primeiramente, ela fala, o registrador tenta convencer os pais a pensar em outra identidade. E, quando não hå consenso, o caso é levado a um juiz. Até a decisão final, a criança acaba ficando sem nome.

“A ideia Ă© que o registrador recuse o nome em uma situação muito extrema. LĂșcifer Ă© um termo que eu possivelmente tentaria evitar, mas nĂŁo conheço decisĂŁo contra esse nome. JĂĄ vi situação em que os pais queriam colocar Legolas, personagem do filme “O Senhor dos AnĂ©is”. O registrador recusou, mas o juiz do caso autorizou porque entendeu que Ă© preciso tambĂ©m preservar a escolha dos pais”, afirma Andreia.

Agora, caso a pessoa, jå maior de idade, queira trocar de nome, ela poderå ir diretamente ao cartório ou buscar por seus direitos por meio da Justiça. Mas não é em toda ocasião que se consegue fazer a mudança, conforme lista a advogada Julianne Melo, presidente da Comissão Especial de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente da OAB-CE (Ordem dos Advogados do Brasil).

“A troca de nome nĂŁo pode prejudicar os nomes de famĂ­lia. Ela Ă© feita de forma excepcional e deve ser motivada. HĂĄ casos de erro de grafia, por exemplo. AĂ­ vai passar pela avaliação do cartĂłrio”, explica Jullianne.

Ainda pode acontecer de a famĂ­lia nĂŁo se conformar com a decisĂŁo do juiz e levar o caso para a Corregedoria-Geral da Justiça, conforme atenta o juiz Marcelo Benachio, titular da Vara de Registros PĂșblicos da Capital, em SĂŁo Paulo.

A Universa, o magistrado pondera ainda que qualquer decisão a ser tomada nada tem a ver com religião, mas para evitar que a criança sofra bullying.

“Com relação a LĂșcifer, por exemplo, pode-se alegar que se o estado Ă© laico pode-se usar esse nome, mas a decisĂŁo nĂŁo Ă© por questĂŁo religiosa, mas cultural. Esse nome tem uma carga muito grande”, Benachio atenta

 

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