02/08/2026

Rio Acre pode chegar a cota próximo a zero nos próximos 10 anos, estima Saerb

Saerb pretende repetir as estratégias adotadas nos últimos anos, como dragagem do leito do Rio Acre

Por Matheus Mello, ContilNet
Projeção é de que, em até dez anos, o principal manancial da capital possa atingir uma cota próxima de zero. — Foto: Juan Diaz, ContilNet

Como a possibilidade de um El Niño de forte intensidade volta a colocar o Acre em alerta para uma estiagem severa, o Serviço de Água e Esgoto de Rio Branco (Saerb) já trabalha não apenas para enfrentar os próximos meses, mas também para um cenário considerado ainda mais desafiador: a redução histórica do nível do Rio Acre nas próximas décadas. A projeção é de que, em até dez anos, o principal manancial da capital possa atingir uma cota próxima de zero.

Segundo o presidente do Saerb, Enoque Pereira, a estimativa faz parte dos estudos que orientam o planejamento da autarquia para garantir o abastecimento de água da capital, mesmo diante das mudanças climáticas e da intensificação dos períodos de seca.

Em entrevista exclusiva ao ContilNet, Enoque foi questionado sobre a possibilidade de Rio Branco enfrentar um colapso no abastecimento caso o El Niño previsto para este ano provoque uma estiagem ainda mais severa que a registrada em 2024.

Ele descartou esse risco para 2026 e afirmou que o Saerb já estruturou uma série de medidas para assegurar o fornecimento de água.

“Eu quero tranquilizar a população que não vai haver colapso. Somente haverá se o Rio Acre secar totalmente, 100%. Aí, infelizmente, não tem água para ninguém. Mas não vai chegar nesse patamar. Em 2024, o Rio Acre ficou em 1,23 metro, a menor cota dos últimos 54 anos. Foi uma situação terrível. Mas este ano, pelo que a gente acompanha com a Defesa Civil, pode ficar pior ainda. Por isso, o Saerb se preparou”, afirmou.

SAIBA MAIS:

O gestor lembrou que, durante a seca histórica de 2024, a capital conseguiu manter o abastecimento mesmo diante da menor vazão já registrada.

“Não faltou água para ninguém. Foi uma situação bastante incomum para a Amazônia, mas que está se tornando um novo normal. Todo ano tem seca extrema e cheia extrema. Sai de um decreto de cheia e entra em um decreto de seca. É um ciclo que antigamente não existia e que hoje acontece praticamente todos os anos”, disse.

O presidente relatou que as equipes tentaram recuperar o sistema ainda no domingo

Presidente do Saerb, Enoque Pereira | Foto: ContilNet

Preparação para uma seca histórica

Para enfrentar uma estiagem prolongada, o Saerb pretende repetir as estratégias adotadas nos últimos anos, como dragagem do leito do Rio Acre, escavação de canais para captação e intervenções que permitem manter o funcionamento das bombas mesmo com o rio em níveis críticos.

Segundo Enoque, essas ações já estão previstas caso o período seco se estenda até janeiro, como indicam algumas projeções climáticas.

“Se a estiagem se prolongar, e a tendência é que o verão avance até janeiro, nós estamos preparados. A gente draga o rio, escava o leito, canaliza e faz uma espécie de miniaterro, como fizemos em 2024. Não vai faltar água na casa de ninguém, a não ser que o rio realmente seque completamente, o que não é previsto para este ano.”

Apesar da confiança para o cenário atual, o presidente do Saerb revelou que as projeções de médio prazo preocupam ainda mais.

“Há um estimativo de que, nos próximos dez anos, o Rio Acre possa chegar a uma cota próxima de zero. Estamos nos preparando também para isso, estudando a compra de uma área para fazer reservação de água, para que, se esse momento acontecer, a cidade esteja preparada para continuar atendendo a população de Rio Branco”, explicou.

El Niño pode ser um dos mais fortes já registrados

As declarações ocorrem em meio ao alerta emitido pelos principais órgãos de monitoramento climático do país. O primeiro boletim do Painel El Niño 2026-2027 aponta que o fenômeno pode atingir intensidade classificada como “muito forte”, com mais de 90% de probabilidade de permanecer ativo até o início de 2027.

O documento foi elaborado de forma conjunta pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Serviço Geológico do Brasil (SGB) e Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec).

De acordo com o boletim, um El Niño é considerado muito forte quando o aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial supera 2°C em relação à média histórica. Para o segundo semestre de 2026, os modelos climáticos apontam temperaturas acima da média em praticamente todo o país e redução das chuvas em boa parte das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

Acre entre as áreas mais vulneráveis

O Acre aparece entre as áreas de maior preocupação no levantamento dos órgãos federais. A combinação entre estiagem prolongada, temperaturas elevadas e baixa umidade aumenta significativamente o risco de incêndios florestais e queimadas, especialmente entre julho e setembro.

O boletim também alerta para impactos na agricultura familiar, redução da umidade do solo, prejuízos às pastagens e maior pressão sobre os recursos hídricos utilizados para abastecimento das cidades.

As previsões internacionais reforçam o cenário. A agência norte-americana NOAA reconheceu oficialmente, em junho, o estabelecimento do El Niño no Pacífico Equatorial. Já o APEC Climate Center (APCC), da Coreia do Sul, estima 100% de probabilidade de manutenção do fenômeno durante o trimestre julho-agosto-setembro e mais de 99% de chance de que ele atinja intensidade forte.

Diante desse cenário, os órgãos de monitoramento defendem que estados e municípios intensifiquem o planejamento e as ações preventivas para reduzir os impactos da estiagem, das queimadas e da escassez de água nos próximos meses.

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