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Rio Branco
13 outubro 2021 11:02 am

Na base do remo, carteiro gastava quase um mês para entregar correspondências entre Sena Madureira e Rio Branco

POR EDINALDO GOMES, DO CONTILNET

Última atualização em 07/10/2021 16:35

Residente no Bairro da Pista, em Sena Madureira, o aposentado José Bandeira de Souza Filho, conhecido popularmente como Edmilson Bandeira, é detentor de uma história impressionante. Ele é considerado o carteiro mais antigo do município e um exemplo de superação e coragem.

Contratado no ano de 1962, Edmilson Bandeira entregava as correspondências em uma canoa, na base do remo. “Naquele tempo, as dificuldades eram grandes e a empresa responsável por esse trabalho não tinha motor de embarcação. O único jeito era utilizar o remo nas viagens, algo muito sacrificante”, relembra.

Para cada rio de Sena Madureira era designado um carteiro. Tais profissionais tinham um papel importantíssimo já que naquela época (década de 60), não tinha telefone, nem sequer Rádio. Com isso, a única forma das famílias se comunicarem era através de cartas.

Seu Edmilson conta que fazia o trajeto de Barco entre Sena Madureira a Rio Branco, capital do Acre. “Ia pelo Purus e, em seguida, pegava o rio Acre até chegar em Rio Branco. Eu gastava 28 dias pra ir e voltar. Mas, sempre dei conta do recado. Em duas ocasiões me entristeci muito porque os moradores não cederam lugar pra mim dormir em suas casas, mas são coisas da vida”, comentou.

Residente no Bairro da Pista, em Sena Madureira, o aposentado José Bandeira de Souza Filho, conhecido popularmente como Edmilson Bandeira, é detentor de uma história impressionante. Foto: ContilNet

O distanciamento da família também era outro fator problema enfrentado pelo carteiro. “Exerci essa profissão durante 9 meses. Tinha me casado recentemente quando comecei a trabalhar. Em cada mês, eu passava somente dois dias com a minha esposa, o restante era viajando, entregando as cartas. Era difícil, mas eu não tinha outro emprego, então era dali que tirava o sustento da minha família”, frisou.

Para não deixar molhar as cartas, Edmilson Bandeira fazia uma espécie de tolda na embarcação. “As cartas eram lacradas, com selo. Nunca me alaguei e também nunca dei descaminho em nenhuma carta”, sustentou.

Indagado se ainda sente saudades da função, o mesmo respondeu: “Quando estou sozinho em casa, lembro de muitas coisas, fiz muitas amizades pelas colocações, mas não sinto muita saudade porque o sofrimento era grande. Sou feliz por ter dado a minha parcela de contribuição com Sena Madureira e principalmente com os ribeirinhos que viviam praticamente no isolamento”.

O ex-presidente do Bairro Niterói, Toim Apolinário, filho do senhor Edmilson Bandeira, se emociona ao falar sobre a postura de seu pai. “Ele conseguiu nos ensinar muito através de seu exemplo. Obrigado por tudo, meu pai”.
Nos dias atuais, a realidade é bem diferente com relação a comunicação. Além do Rádio e do telefone, algumas comunidades da zona rural já contam até mesmo com internet, podendo ter acesso as notícias do Brasil e do Mundo em tempo real.

Aposentado José Bandeira de Souza Filho, conhecido popularmente como Edmilson Bandeira. Foto: ContilNet
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