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14 agosto 2022 11:49 pm

‘Superioridade de poder’ e ‘caso pensado’: entenda como agiu Giovanni Quintella, preso por estupro em cesariana

Bárbara Lomba, delegada do caso, afirma que médico ‘se aproveitou da posição de poder dele’ para ‘cometer um crime. Chrystina Barros, pesquisadora da UFRJ, analisou o comportamento do anestesista: ‘Ele se posiciona lateralmente, com uma proximidade absurda’

POR G1

Última atualização em 13/07/2022 14:18

Uma “relação de superioridade de poder” para cometer um crime “premeditado” e “de caso pensado”. Assim agiu Giovanni Quintellaanestesista preso por estupro de uma paciente durante uma cesariana, segundo a delegada do caso e uma especialista em saúde ouvida pelo g1.

A reportagem pediu a Chrystina Barros, pesquisadora da UFRJ e enfermeira, para analisar o comportamento do anestesista na operação gravada que o levou à prisão. A especialista também explicou como uma equipe trabalha em uma cesárea.

Chrystina considera que Giovanni teve uma “proximidade absurda” da cabeça da paciente — quando, normalmente, um anestesista fica entre a mesa de cirurgia e os monitores hospitalares.

A investigação começou após funcionários da unidade de saúde filmarem o anestesista Giovanni Quintella Bezerra colocando o pênis na boca de uma paciente quando ele participava do parto dela. — Foto: Reprodução/ TV Globo
A investigação começou após funcionários da unidade de saúde filmarem o anestesista Giovanni Quintella Bezerra colocando o pênis na boca de uma paciente quando ele participava do parto dela. — Foto: Reprodução/ TV Globo

‘Relação de poder’

Ao ‘Encontro’ desta terça-feira (12), Bárbara Lomba, titular da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) de São João de Meriti, responsável pela investigação, afirmou que a violência sofrida pela parturiente foi “além das relações íntimas e domésticas”.

“Imediatamente eu me identifiquei com essa mulher e pensei muito nas mulheres brasileiras, que já sofremos algum tipo de violência, muitas vezes nas relações íntimas e nas relações domésticas”, disse Bárbara.

“Mas aí há uma violência para além dessas relações, uma relação de poder. Este profissional [Giovanni] estava ali até responsável pela vida dessa paciente. Estava em uma relação de superioridade de poder, pela vulnerabilidade dela e pela posição de poder dele”, explicou.

“Ele se aproveitou disso para cometer um crime”, destacou. 

Delegada Bárbara Lomba na sala de cirurgia onde houve o crime: anestesista devia ficar mais perto dos monitores, à direita, e não colado na cabeça da grávida — Foto: Reprodução
Delegada Bárbara Lomba na sala de cirurgia onde houve o crime: anestesista devia ficar mais perto dos monitores, à direita, e não colado na cabeça da grávida — Foto: Reprodução

‘Caso pensado’

A pedido do g1, Chrystina Barros avaliou como Giovanni agiu durante o parto por cesariana no Hospital da Mulher Heloneida Studart.

“Não é que ele [Giovanni] tenha uma doença mental e que ele teve um impulso incontrolável de desejo. Ele sabe muito bem o que ele está fazendoDesde o princípio, foi de caso pensado, completamente premeditado. Escolheu ficar daquele lado da paciente”, declarou.

Giovanni Quintella Bezerra, o anestesista preso em flagrante por estuprar uma grávida durante a cesariana, demonstrou surpresa ao receber voz de prisão da delegada Bárbara Lomba — Foto: Reprodução
Giovanni Quintella Bezerra, o anestesista preso em flagrante por estuprar uma grávida durante a cesariana, demonstrou surpresa ao receber voz de prisão da delegada Bárbara Lomba — Foto: Reprodução

Como é uma cesariana

Chrystina explicou que para a maioria das cesarianas seis ou sete profissionais são mobilizados:

  • 1 obstetra, que conduz a cisão do ventre, retira o bebê e sutura o abdômen;
  • 1 obstetra auxiliar;
  • 1 instrumentador, que repassa o material da cirurgia quando solicitado;
  • 1 pediatra, que cuida do bebê após a retirada e o leva ao berçário;
  • 1 anestesista, que aplica, na maior parte das vezes, uma raquidiana — a fim de eliminar as dores da cintura para baixo;
  • 2 técnicos de enfermagem, que circulam pela sala de cirurgia e podem buscar materiais do lado de fora.

Há ainda o acompanhanteum direito de toda grávida.

Estupro na cesariana: entenda a cena do crime

Compare a postura do médico preso com a de uma equipe normal

A posição na sala

  • A pesquisadora explicou que, entre os cuidados em qualquer cirurgia, estão a livre circulação na sala para qualquer imprevisto e a esterilização da área operada — para tanto, há o pano que a isola. Em partos, essa cortina é erguida na altura dos ombros.

A anestesia

  • “Especificamente na cesariana, a anestesia mais utilizada é a raquidiana. A gente senta a mulher, e, entre os espaços das vértebras na região lombar, o anestesista faz a aplicação do medicamento que vai tirar a dor exatamente daquele ponto para baixo”, ensinou Chrystina.
  • “Na ráqui, a mulher permanece acordada o tempo todo. Esse campo verde, pendurado de um lado ao outro, tem dois papéis: ele mantém o campo estéril para o médico abrir a barriga sem risco de contaminação; e, como a mulher está lúcida, ela não vê a manipulação da barriga”, prosseguiu.
  • “Dependendo das condições clínicas da mulher, pode haver uma indicação de anestesia geral. Neste caso, ela não faz a raquidiana: a paciente é entubada”, destacou.

A assistência à paciente

  • Chrystina falou ainda que o anestesista fica sempre posicionado próximo à cabeça do paciente “para que ele possa ver a condição dele e manter o controle e a observação dos monitores”.
  • “Enquanto o cirurgião está olhando para o campo cirúrgico, o anestesista está de olho nos monitores e no paciente. Então, estar ao lado ou estar acima da cabeça é a posição que o anestesista precisa ficar normalmente para dar assistência”, disse.

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