A PolĂcia Civil do Acre (PCAC) concluiu o inquĂ©rito policial que investigava o caso do recĂ©m-nascido dado como natimorto na Maternidade BĂĄrbara Heliodora, em Rio Branco. O fato ocorreu em outubro de 2025 e foi apresentado durante coletiva de imprensa realizada na manhĂŁ desta terça-feira (27), no auditĂłrio da instituição.
De acordo com as investigaçÔes conduzidas pela Delegacia de HomicĂdios, dois profissionais de saĂșde, um (a)mĂ©dico (a) e um (a) enfermeiro (a), foram indiciados (as) por homicĂdio culposo, ou seja quando nĂŁo hĂĄ intenção de matar.
O inquĂ©rito jĂĄ foi finalizado e encaminhado ao Poder JudiciĂĄrio, que agora analisarĂĄ o caso, juntamente com o MinistĂ©rio PĂșblico, para decidir sobre o oferecimento de denĂșncia. Durante a coletiva, o delegado Alcino Ferreira JĂșnior explicou que o homicĂdio culposo pode ocorrer por trĂȘs modalidades: negligĂȘncia, imprudĂȘncia ou imperĂcia. No caso investigado, a polĂcia identificou, com base nos laudos periciais e mĂ©dico-legais, a presença de negligĂȘncia no perĂodo pĂłs-parto e imperĂcia profissional.
Segundo o delegado, apesar de o bebĂȘ ser extremamente prematuro e ter poucas chances de sobrevivĂȘncia, a perĂcia apontou que houve falha nos cuidados imediatos apĂłs o parto. âTratava-se de profissionais de saĂșde que deveriam atuar dentro das suas especificidades e conhecimentos tĂ©cnicos. A perĂcia Ă© bem clara ao indicar que faltaram cuidados essenciais no pĂłs-partoâ, afirmou Alcino JĂșnior.
TambĂ©m participaram da coletiva o delegado-geral da PolĂcia Civil, Henrique Maciel, e o diretor do Instituto MĂ©dico Legal (IML), Ătalo Santos, que reforçaram a importĂąncia do trabalho tĂ©cnico da perĂcia para a elucidação do caso. Com a conclusĂŁo do inquĂ©rito, caberĂĄ agora Ă Justiça e ao MinistĂ©rio PĂșblico avaliar as provas reunidas e definir os prĂłximos passos do processo criminal.
Relembre o caso
O caso do bebĂȘ JosĂ© Pedro, que chegou a chorar durante o prĂłprio enterro em Rio Branco, continua gerando comoção e mobilizando diversas instituiçÔes do Acre.
A PolĂcia Civil, o MinistĂ©rio PĂșblico, a equipe mĂ©dica da Maternidade BĂĄrbara Heliodora, o Conselho Regional de Medicina (CRM-AC) e o Instituto MĂ©dico Legal (IML) atuam para esclarecer o que de fato aconteceu com a criança que foi declarada morta, resgatada viva do caixĂŁo e, dias depois, acabou falecendo na UTI do Hospital da Criança, em Rio Branco.
O nascimento e a declaração de morte
José Pedro nasceu na quinta-feira (23), na Maternidade Bårbara Heliodora, após a mãe apresentar complicaçÔes durante a gestação. Segundo informaçÔes repassadas à imprensa, o parto ocorreu de forma prematura, com cerca de cinco meses de gestação.
Pouco depois do nascimento, a equipe médica declarou o óbito. O corpo foi encaminhado ao necrotério, colocado em um saco plåstico e liberado para sepultamento, conforme o protocolo hospitalar.

Recém-nascido teve a declaração de óbito feita/Foto: ContilNet
O momento em que o bebĂȘ chorou dentro do caixĂŁo
No sĂĄbado (25), durante o velĂłrio no CemitĂ©rio Morada da Paz, familiares afirmam ter ouvido o bebĂȘ chorar dentro do caixĂŁo. Em desespero, abriram o esquife e confirmaram que a criança ainda estava viva.
Um vĂdeo feito pela famĂlia mostra o momento em que JosĂ© Pedro Ă© retirado do caixĂŁo. O caso se espalhou rapidamente pelas redes sociais e provocou indignação em todo o paĂs.
O bebĂȘ foi levado Ă s pressas de volta Ă maternidade e, em seguida, transferido para a UTI neonatal do Hospital da Criança, onde permaneceu internado atĂ© a noite de domingo (26), quando nĂŁo resistiu.
Medidas tomadas pelo Governo
O governador Gladson Cameli anunciou, no såbado (25), o afastamento imediato da equipe médica responsåvel pela verificação do óbito do recém-nascido.
âComo governador, cidadĂŁo e pai, determinei ao secretĂĄrio de SaĂșde o afastamento imediato da equipe mĂ©dica responsĂĄvel pela verificação do Ăłbito da criança e a instalação de uma investigação minuciosa dos fatosâ, declarou em nota.

O governador informou a decisão em nota/Foto: Reprodução
Cameli garantiu que o governo estå empenhado em esclarecer o episódio e afirmou que os pais e a população não ficarão sem resposta.
âAos pais e familiares, minha solidariedade e a garantia de que, havendo culpados, estes nĂŁo ficarĂŁo impunesâ, reforçou o governador.
O que diz a equipe médica
A médica Mariana Colodetti, neonatologista da maternidade, concedeu entrevista coletiva no såbado (25) para esclarecer detalhes sobre o atendimento.
Ela afirmou que nĂŁo estava presente no parto, mas assumiu o plantĂŁo por volta das 7h da manhĂŁ, quando os familiares chegaram ao hospital.
âRecebi o bebĂȘ por volta das 10h da manhĂŁ e prontamente demos todo o suporte que ele precisavaâ, declarou.

A médica ressaltou que, em situaçÔes de parto prematuro com suspeita de óbito fetal, existe um protocolo técnico a ser seguido/Foto: ContilNet
Mariana explicou que, em casos de parto prematuro com suspeita de óbito, existe um protocolo técnico que envolve tanto o obstetra quanto o pediatra.
âHĂĄ critĂ©rios que envolvem obstetra e pediatra. Quando o bebĂȘ nasce, se hĂĄ indĂcios de morte, a equipe realiza todos os procedimentos antes da assinatura do atestado de Ăłbitoâ, afirmou.
A mĂ©dica tambĂ©m destacou que Ă© âmuito precoceâ falar em erro neste momento, reforçando que situaçÔes semelhantes sĂŁo raras, mas documentadas na literatura mĂ©dica.
âSe vocĂȘ procurar na literatura mĂ©dica, existem casos como esse. SĂŁo raros, excepcionais, mas podem acontecer. O importante agora Ă© entender o que aconteceu e garantir toda a assistĂȘncia ao bebĂȘ e Ă famĂliaâ, completou.
O que diz o Conselho Regional de Medicina (CRM-AC)
O Conselho Regional de Medicina do Acre (CRM-AC) tambĂ©m se pronunciou sobre o caso. O presidente da entidade, Thadeu Moura, informou ao ContilNet NotĂcias que o ĂłrgĂŁo abriu uma sindicĂąncia para apurar a conduta dos profissionais envolvidos na constatação do Ăłbito.

Sede do CRM no Acre/Foto: Reprodução
âO Conselho Regional de Medicina do Acre abrirĂĄ sindicĂąncia para apuração dos fatosâ, declarou Moura, ressaltando que o episĂłdio Ă© extremamente delicado e requer total compromisso Ă©tico.
Segundo ele, o CRM acompanha o caso de perto e tomarå todas as medidas necessårias para garantir uma apuração rigorosa e transparente, conforme os parùmetros éticos da profissão médica.
A atuação do MinistĂ©rio PĂșblico do Acre
O MinistĂ©rio PĂșblico do Acre (MPAC) acompanha o caso desde o primeiro momento e instaurou um procedimento investigatĂłrio para fiscalizar o cumprimento das normas mĂ©dicas e garantir transparĂȘncia nas apuraçÔes.
O ĂłrgĂŁo aguarda os laudos tĂ©cnicos e periciais solicitados pela PolĂcia Civil para avaliar se houve falha humana, negligĂȘncia ou erro mĂ©dico. Caso seja comprovada alguma irregularidade, o MPAC poderĂĄ adotar medidas judiciais e administrativas contra os responsĂĄveis.
Enterro e comoção
O pequeno José Pedro, recém-nascido que emocionou o Acre ao ser encontrado com vida momentos antes de seu enterro, teve seu sepultamento realizado na tarde da segunda-feira (27), no Cemitério Morada da Paz, em Rio Branco.
A cerimÎnia foi restrita a familiares e pessoas próximas, conforme o desejo dos pais, e aconteceu em um clima de profunda comoção e tristeza.

BebĂȘ foi sepultado nesta segunda-feira/Foto: Reprodução



