Por que tantos chocolates viraram “sabor chocolate”?

Entenda por que alguns chocolates conhecidos mudaram de categoria e o que isso significa para o consumidor

Nos últimos meses, consumidores perceberam uma mudança discreta, porém importante, nos rótulos de alguns chocolates famosos: a palavra “chocolate” foi substituída por “sabor chocolate” ou “cobertura sabor chocolate”.

Essa alteração não é apenas semântica ou marketing.

Ela indica uma mudança na formulação e no enquadramento legal do produto.

Mas por que isso aconteceu?

Quais chocolates entraram nessa categoria?

E o que muda do ponto de vista nutricional?

O que a legislação considera chocolate

De acordo com a legislação brasileira (ANVISA), para um produto ser chamado de chocolate, ele precisa conter uma quantidade mínima de derivados do cacau, principalmente:

  • massa de cacau

  • manteiga de cacau

A manteiga de cacau é a gordura natural do chocolate, responsável pela textura, sabor, derretimento e parte dos compostos bioativos.

Quando essa gordura é reduzida ou substituída por gorduras vegetais, o produto não pode mais ser chamado legalmente de chocolate.

Reprodução

O que significa “sabor chocolate”

Produtos classificados como “sabor chocolate”:

  • contêm menos cacau

  • utilizam aromatizantes

  • substituem a manteiga de cacau por gorduras vegetais (como palma ou palmiste)

Ou seja, imitam o sabor, mas não têm a mesma composição.

Chocolates famosos que passaram a ser “sabor chocolate”

É importante destacar que não são todas as versões, mas alguns produtos específicos ou reformulações.

Entre os exemplos mais comentados por consumidores e especialistas estão:

  • KitKat (algumas versões)
    Passou a utilizar a denominação “wafer com cobertura sabor chocolate”, indicando substituição parcial da manteiga de cacau.

  • Coberturas de marcas tradicionais
    Antes vendidas como chocolate, hoje aparecem como “cobertura sabor chocolate”, especialmente em versões fracionadas.

  • Ovos e produtos sazonais
    Em datas como Páscoa, muitos itens não são mais chocolate, e sim produtos sabor chocolate, mesmo mantendo marcas conhecidas.

  • Barrinhas recheadas e snacks achocolatados
    Algumas linhas deixaram de atender aos critérios mínimos de chocolate e migraram para a categoria “sabor”.

📌 O ponto-chave não é a marca, e sim a composição descrita no rótulo.

Por que as indústrias estão fazendo isso

O principal motivo é econômico.

O preço do cacau subiu mais de 190% nos últimos anos, impactando diretamente os custos de produção.

Para:

  • manter preço acessível

  • garantir volume

  • preservar margem comercial

as indústrias optaram por reformular produtos, reduzindo cacau e substituindo ingredientes.

Legalmente, isso exige mudar o nome.

Isso faz mal?

Não se trata de demonizar alimentos.

Produtos “sabor chocolate”:

  • não são tóxicos

  • não precisam ser excluídos totalmente

Mas, do ponto de vista nutricional:

  • têm menos compostos benéficos do cacau

  • mais gorduras vegetais refinadas

  • menor qualidade nutricional

O problema está no consumo frequente sem consciência.

Como o consumidor pode se proteger

  • ler a lista de ingredientes

  • observar se há manteiga de cacau

  • desconfiar de “cobertura”, “sabor” ou “tipo chocolate”

  • ajustar expectativa: sabor ≠ composição

Educação alimentar começa no rótulo.

Chocolate não acabou.

Mas nem tudo que parece chocolate é chocolate de verdade.

Saber diferenciar ajuda o consumidor a:

  • fazer escolhas mais conscientes

  • evitar enganos de marketing

  • equilibrar prazer e saúde

A orientação de um nutricionista é fundamental para ensinar essas leituras e ajustar o consumo dentro de uma alimentação realista.

Referências científicas

BRASIL. ANVISA. RDC nº 264/2005 – Regulamento Técnico para Chocolate e Produtos de Cacau.

AFOAKWA, E. O. Chocolate Science and Technology. Wiley-Blackwell, 2010.

MONTEIRO, C. A. et al. Ultra-processed foods. Public Health Nutrition, 2019.

Luana Diniz 
Foto: Clara Lis

*COLUNA NUTRIÇÃO EM PAUTA / LUANA DINIZ NUTRICIONISTA – CRN7 16302

Nutricionista e atleta, formada pela Universidade Federal do Acre, pós-graduada em nutrição clínica esportiva. Trabalha com atendimento clínico nutricional em parceria com a loja de suplementos Be Strong Fitness e é colunista do ContilNet em assuntos sobre alimentação e sua correlação com saúde e bem-estar.

@luanadiniznutricionista

PUBLICIDADE