Rio Branco, Acre,

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“Meu pai tentou nos proporcionar a vida que ele não teve”, diz filho de Élcio Matsuo

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POR PEDRO HENRIQUE MATSUO

Meu pai nasceu em Londrina, no Paraná. Teve uma infância pobre. Achava graça da “cosquinha” que fazia o refrigerante na garganta nas raras vezes que tinha a oportunidade de experimentar um. Vestia um capacete, na mão um cabo de vassoura. Falava para a minha avó que iria pra guerra. A vítima: uma figueira. O espírito competitivo originou a paixão pelas artes marciais e se tornou Campeão Paranaense de Judô. A maior incentivadora foi a sua mãe, aquela que o protegia do pai, homem frio. Porém, a infância durou pouco. Os estudos também. Logo cedo teve que trabalhar.

elciofilhoJuventude de dar inveja. Corintiano roxo. Uma coleção de gírias. Personalidade, um cartel de boas histórias. Fã de Raul Seixas, atitude rock’roll. Trocou de Estados várias vezes, sempre com uma empreitada diferente. Iniciou um curso de cabeleireiro, pois precisava de uma carta na manga, necessitava ganhar dinheiro. Eis que descobre um dom. Mãos rápidas, métodos modernos. Acabou ganhando prêmios em concursos pelo Brasil. Um destino desafiador: ir a Rio Branco, no centro da Amazônia, por tempo determinado.

Poucos meses, centenas de cortes, fama instantânea, muitos amigos. Aquele era o seu lugar! A sua secretária era uma mulher esforçada, trabalhadora. Ela usava um batom vermelho, forte. Ela roubou o seu coração. Ela foi a pessoa que ele mais amou em toda a sua existência. Logo que começou a ganhar dinheiro e se tornou o cabeleireiro mais famoso de Rio Branco. Tratou de trazer a sua mãe, irmã e sobrinha de Londrina para o Acre. A última ganhou um pai. Por ela tinha um amor imensurável.

Eis que sua primeira filha nasceu. Mesmo sendo uma criança, sempre foi chamada de “véia”. Ele viu a “véia” formar em Direito, passar em um bom concurso. Certamente uma de suas maiores felicidades. Meu pai soltou fogos de artifício quando nasci. Finalmente teve o tão esperado filho homem. O seu “amigão”. Mas não era o bastante. Só depois da chegada do meu melhor amigo, e hoje, irmão, a família ficou completa.

Meu pai tentou, a todo custo, nos proporcionar a vida que ele não teve. E conseguiu. Mudou de ramo. Inspirou-se nos pratos que sua mãe fazia, e abriu um restaurante especializado na culinária oriental. Ele sempre teve prazer em servir uma boa comida. Mas ele nunca foi muito fã de comida japonesa. Ele não gostava de comida crua. Ele gostava mesmo é de churrasco! Certo dia, ao assistir um documentário, após ter conversado com minha mãe, decidiu implantar comidas brasileiras no seu cardápio. O “Restaurante Matsuo” passou a se chamar “Elcio Restaurante”, especialidade: moqueca. Agora a sua identidade gastronômica estava formada. A receita do sucesso.

Ele foi presente em todos os momentos importantes na vida dos filhos. Era japonês, mas não era frio. O sorriso no seu rosto era cativo. As emoções eram transpassadas tal qual ele sentia. Nas minhas primeiras competições escolares, ele me acompanhava com um isopor cheio de isotônicos e frutas. Até spray massageador levava. Não só para mim, mas para todo o time. Fazia questão de ser amigo de todos os meus amigos. Conversava de igual pra igual com cada um deles. Tenho certeza que todos têm uma boa lembrança do “tio Elcio”. Reclamava de todas as músicas que eu tocava nas minhas festas de aniversário, e falava que um dia ele faria uma a sua seleção de músicas, pois “os seus amigos vão piraaaaar nas minhas músicas… Música de verdade!”.

Meu pai desejava a todo custo que eu o tivesse como melhor amigo. Meu maior desejo, nesse momento, é de gritar pra ele: “Pai, você é, sempre foi e sempre vai ser o meu melhor amigo!”. Meu pai acobertou minhas travessuras, desde pequeno, até as besteiras que fazia há poucos meses. Mas não foi só um grande pai. Foi um grande homem. Criou relações sinceras de amizade e por elas tinha um apreço imenso, em especial, certos amigos mineiros. Os seus funcionários também estão englobados nesse rol. Foi muito querido, também, pela família da minha mãe. Criou inúmeros laços… Descompromissados… Era amigo de graça! Tinha prazer em tratar bem e oferecer toda a sua cordialidade.

Meu pai, assim como eu, era apaixonado pelo mar. No dia que essa foto foi tirada, estávamos calados, sentindo a presença daquilo que mais gostamos. E do nada ele me faz um pedido, uma missão. Ele solicitou que, no dia do seu velório, eu colocasse um sorriso no rosto dele. Ele morreria feliz por todas as pessoas que chegou a conhecer. “Pare de falar isso pai! Vamos tirar uma selfie…” desconversei.

Nunca imaginei perder o meu melhor amigo tão cedo e ter que realizar essa missão anteontem. Meu pai lutou bravamente durante 21 dias. Ele foi muito forte. No dia 25 de maio de 2015 se abriu uma fissura no meu coração. Perdi um pedaço de mim. Pedaço insubstituível, que não se regenera. Há uma ferida na minha alma, que vai me acompanhar pra sempre. Daqui pra frente se inicia uma nova perspectiva. Daqui pra frente reconheço a honra de ter o seu sobrenome. Orgulho-me, como nunca, do DNA, do sangue que corre em minhas veias. Arrependo-me das vezes que deixei de ter falado que o amava. Ah! Os arrependimentos… Esses são inúmeros, mas não o bastante para abalar a minha ideia fixa de dar continuidade à sua história, de ter sempre em mente tudo o que aprendi. Sinto-me acalentado por todo o amor que recebi durante esses anos, e tenho a certeza de que eu tive uma sorte e tanta, um verdadeiro privilégio, de ter tido esse homem, da qual compartilho um pouco da sua história, como pai.

Por fim, agradeço de coração a todos os familiares e amigos que estiveram do lado da minha família, tanto na época em que meu pai esteve doente, desde a fase do coma, até nos dois últimos dias, falecimento, velório e enterro. Tenho certeza que ele recebeu todas as orações, independente de crenças e religiões, que ele absorveu todo o pensamento bom, positivo, assim como tenho a convicção de que ele está num lugar bem melhor.

 

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