“Perdi meus pais num intervalo de 17 minutos por falta de oxigĂȘnio, em Manaus”

Por MARIE CLAIRE 19/01/2021 Ă s 11:45

“Meus pais, Amado Ali Hajoj e Zahieh Abdel Karim Hassan Hajoj, eram comerciantes e estavam casados havia 46 anos. Ele tinha 75 e ela, 65. Vieram da cidade de Bani Naeem, na Palestina, nos anos 1970. Meu pai trabalhava como mascate. Foi preso e torturado na guerra com Israel e resolveu fugir dali. Primos e outros parentes no Brasil o ajudaram a vir. Depois buscou minha mĂŁe, de quem jĂĄ estava noivo. Sou a filha mais velha de trĂȘs, nasci em 1979 em Manaus”.

Desde que a pandemia foi decretada, em março de 2020, assumi a confecção da família. Como meus pais moravam com meus irmãos e suas respectivas famílias, achamos por bem isolar a todos, jå que os dois eram idosos e, portanto, grupo de risco.

Na casa em que viviam, ninguém saía para nada. As compras eram higienizadas como manda o protocolo, havia ålcool gel por todos os cÎmodos.

Na nossa cabeça, a chance de eles serem contaminados pelo novo coronavírus era bastante pequena, mas a verdade é que ninguém sabe nada sobre essa doença.

Depois de nove meses nesse esquema, achĂĄvamos que estĂĄvamos livres desse fantasma. Ainda assim, nĂŁo afrouxamos o cerco.

O primeiro susto, no entanto, aconteceu foi na véspera do Natal. Papai começou com uma febre que não cessava e mamãe apresentou dor no corpo e muita tosse.

No início, montamos uma semi-intensiva em casa para eles não precisarem ir para o hospital — que já estavam lotados em toda a cidade. Mas não teve jeito.

Com muita falta de ar, meu pai deu entrada no hospital no dia 30 de dezembro e minha mĂŁe, em 5 de janeiro – ambos por orientação mĂ©dica.

A princĂ­pio, foram para um hospital particular, mas decidimos transferi-los para o Hospital UniversitĂĄrio GetĂșlio Vargas, que Ă© mais preparado em termos tĂ©cnicos e Ă© estĂŁo os melhores mĂ©dicos de Manaus — sĂŁo mĂ©dicos que formam mĂ©dicos. Com a transferĂȘncia, ficamos mais tranquilos, atĂ© sabermos da falta de oxigĂȘnio nos hospitais da cidade.

Um dia antes de falecer, minha mĂŁe recebeu a notĂ­cia da gravidez da minha cunhada e, muito emocionada, prometeu se esforçar para melhorar logo e sair daquele hospital para conhecer o novo bebĂȘ da famĂ­lia.

Era um sonho conhecer um filho de meu irmĂŁo, jĂĄ que ele era o Ășnico que ainda nĂŁo tinha dado um neto a eles — minha irmĂŁ e eu jĂĄ temos filhos.

Meus pais tinham muitas esperanças de vida. Lutaram bravamente contra essa doença.

Minha mãe foi transferida da UTI no final da tarde de 13 de janeiro e, no dia seguinte, faleceu por asfixia, ou seja, por falta de ar; meu pai faleceu minutos antes, da mesma forma. Segundo um amigo que viu o atestado de óbito, foi uma diferença de 17 minutos.

Me falta o ar quando lembro de tudo que aconteceu. Os médicos que cuidaram dos meus pais nos deram a notícia do óbito com lågrimas nos olhos.

Na UTI onde meu pai estava, faleceram mais quatro pessoas; na enfermaria, mais quatro entubados. Todos precisando muito de oxigĂȘnio.

Catorze de janeiro foi o dia mais difĂ­cil da minha vida. Às 9h21 da manhĂŁ, recebi uma ligação da minha prima Salwa, que Ă© cardiologista do hospital GetĂșlio Vargas, dizendo para eu ir atĂ© lĂĄ com urgĂȘncia.

Ela sĂł me disse que havia faltado oxigĂȘnio no hospital. Nessa altura, ela jĂĄ sabia que eles tinham falecido, mas precisava que eu me mantivesse calma.

Eu disse Ă  minha prima que havia um cilindro de oxigĂȘnio de 50 litros na casa dos meus pais. Troquei de roupa rĂĄpido e, ao mesmo tempo, liguei para o meu irmĂŁo para descer com o cilindro que eu levaria comigo.

Quando cheguei ao hospital havia trĂȘs repĂłrteres na porta. Salwa veio me encontrar na recepção. Novamente ela falou que faltou oxigĂȘnio no hospital e disse que meus pais nĂŁo resistiram.

Eu gritei: ‘Como assim, Salwa? Os dois morreram?’. Acho que morri junto por alguns segundos. Nem no meu pior pesadelo aquilo poderia ser real! Eu só gritava: ‘Os dois não!’.

Queria acreditar que aquilo fosse mentira ou um equĂ­voco! Gritava que a minha mĂŁe estava melhorando, que jĂĄ ia receber alta. Salwa tentava me explicar que o oxigĂȘnio no estado que os dois estavam era essencial.

Lembro de perder a força nas pernas, e minha prima me segurou. Meu irmão Iyad chegou e gritei que nossos pais haviam morrido.

Eu não podia abraçar meu irmão, jå que ele ainda estava se recuperando dessa maldita covid. Na hora, minha prima trouxe aqueles protetores descartåveis de médicos e me vestiu. Abracei meu irmão, choramos juntos. Ainda tínhamos que dar a notícia à minha irmã mais nova.

O médico do meu pai pediu para falar conosco. Subimos para a antessala da UTI, onde eu sempre ia pegar o boletim dos meus pais.

A mesma sala em que, no dia anterior, recebi a notĂ­cia maravilhosa de que os exames de minha mĂŁe estavam melhores e de que ela ia descer para a enfermaria.

Nessa mesma sala, com lĂĄgrimas nos olhos, o mĂ©dico nos disse que tentou de tudo, mas que meu pai precisava de oxigĂȘnio.

Ele disse que nĂŁo entendia como havia faltado oxigĂȘnio no hospital. Enquanto o corpo do meu paizinho passava da UTI para o elevador, de longe fiz minha oração de despedida.

Subi para o quinto andar, onde minha mãe estava. Nitidamente triste e constrangido, o médico dela repetiu as palavras do outro.

Que tinham tentado de tudo, mas nĂŁo conseguiram salvĂĄ-la. Perguntei se ela havia sofrido pela falta do oxigĂȘnio e ele disse que, quando percebeu que nĂŁo havia mais jeito, deu uma dose de sedativo. Aquilo aliviou um pouco o meu coração.

Os primeiros Ăłbitos por falta de oxigĂȘnio do GetĂșlio Vargas foram meu pai e minha mĂŁe. Quando desci para a recepção, jĂĄ havia estourado a notĂ­cia e havia muita gente do lado de fora.

Muitos amigos haviam chegado ao hospital para tomar as providĂȘncias de enterro e nos dar apoio. Eles deram a notĂ­cia aos nossos parentes na Palestina, porque estĂĄvamos sem condiçÔes. Nossa famĂ­lia lĂĄ entrou em desespero.

Meu irmão, que também estava com Covid-19, reconheceu os corpos, ajudou a funeråria a colocå-los no caixão e fez as oraçÔes dentro da religião islùmica, que nós seguimos.

Assim ele se despediu deles. Eu nĂŁo tive esse direito. Meus amados pais foram sepultados no mesmo dia do falecimento, Ă s 15h30.

Não pode haver ninguém no velório e não pudemos oferecer um sepultamento como eles mereciam. Ficamos arrasados. E relembrar tudo isso ainda me dói muito.

O sheik da mesquita que frequentamos fez uma linda oração por eles, a distùncia no cemitério, e só.

ApĂłs o sepultamento, uma amiga me levou para casa e me lembro de todo o caminho de volta. NĂŁo abri a boca, mas minha mente nĂŁo parou de falar e gritar.

Nunca imaginei que fosse faltar oxigĂȘnio num hospital renomado como o GetĂșlio Vargas. SĂł queria para eles os melhores mĂ©dicos, e eles tiveram.

O melhor cuidado e tratamento, e eles tiveram. E por que faltou oxigĂȘnio? Como deixaram faltar algo tĂŁo importante? Por que nĂŁo nos avisaram?

Sei lĂĄ, terĂ­amos transferido meus pais, terĂ­amos trazido oxigĂȘnio de onde fosse, terĂ­amos feito alguma coisa… Esse foi o caminho mais longo e doloroso da minha vida.

A verdade Ă© que os meus pais faleceram pela negligĂȘncia e pela falta de amor ao prĂłximo do governo aqui de Manaus, que estĂĄ com as mĂŁos inundadas de sangue dos meus pais e de tantos outros manauaras que tambĂ©m faleceram por falta de oxigĂȘnio.

Sem contar o descaso do governo federal. Meus pais nĂŁo faleceram apenas de Covid-19. Eles tiveram o melhor tratamento do hospital e tambĂ©m dos mĂ©dicos, mas morreram por asfixia, por falta de oxigĂȘnio.

O Ășltimo encontro da minha famĂ­lia foi no dia 5 de dezembro de 2020. Na ocasiĂŁo, meu irmĂŁo se casou numa pequena cerimĂŽnia islĂąmica na casa dos meus pais.

Como nĂŁo poderia ter festa por conta da pandemia, foi feito algo simples, somente para os meus pais e irmĂŁos. Somos uma famĂ­lia muito festeira e tĂ­nhamos combinado que farĂ­amos uma grande festa no meio do ano, depois que a vacina saĂ­sse.

TĂ­nhamos tantos sonhos e planos juntos! Nesse dia, meus pais estavam felizes e realizados por verem meu irmĂŁo se casar. Para eles isso era muito importante e valoroso.

Meu pai estava tĂŁo nervoso de alegria e emoção que me recordo que rĂ­amos dele. Essa Ă© a Ășltima lembrança que tenho de nĂłs todos juntos, felizes, festejando e brindando Ă  vida.”

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