Estå em discussão no Congresso um projeto que muda uma série de regras para os trabalhadores, em uma nova reforma trabalhista, quase quatro anos após a reforma feita pelo governo Michel Temer. A proposta de agora jå foi aprovada pela Cùmara e aguarda votação no Senado.
O texto do deputado Christino Ăureo (PP-RJ) recebeu crĂticas por promover, sem discussĂŁo, mudanças permanentes nas leis trabalhistas (CLT).
Veja algumas das principais mudanças da nova reforma trabalhista:
- cria uma modalidade de trabalho sem direito a fĂ©rias, 13Âș salĂĄrio e FGTS
- cria outra modalidade de trabalho, sem carteira assinada (Requip) e sem direitos trabalhistas e previdenciĂĄrios; trabalhador recebe uma bolsa e vale-transporte
- cria programa de incentivo ao primeiro emprego (Priore) para jovens e de estĂmulo Ă contratação de maiores de 55 anos desempregados hĂĄ mais de 12 meses; empregado recebe um bĂŽnus no salĂĄrio, mas seu FGTS Ă© menor
- reduz o pagamento de horas extras para algumas categorias profissionais, como bancĂĄrios, jornalistas e operadores de telemarketing
- aumenta o limite da jornada de trabalho de mineiros
- restringe o acesso à Justiça gratuita em geral, não apenas na esfera trabalhista
- proĂbe juĂzes de anular pontos de acordos extrajudiciais firmados entre empresas e empregados
- dificulta a fiscalização trabalhista, inclusive para casos de trabalho anålogo ao escravo
Parte das medidas incluĂdas pelo relator foi tentada pelo governo nos primeiros meses de 2020, na medida provisĂłria do “Contrato de Trabalho Verde Amarelo”. Como ela nĂŁo seria aprovada a tempo pelo Congresso e perderia validade, o governo revogou a MP em abril de 2020. Desde entĂŁo, o governo trabalha para recriar as medidas. O texto do relator teve apoio da base do governo.
Sem carteira nem fĂ©rias, 13Âș salĂĄrio e FGTS
O governo cria uma nova forma de contratação, por meio do Programa Nacional de Prestação de Serviço Social VoluntĂĄrio. Nesse regime, o trabalhador nĂŁo tem direito a salĂĄrio, fĂ©rias, 13Âș salĂĄrio e FGTS. PoderĂĄ receber apenas vale-transporte.
Pelo texto aprovado, o programa terĂĄ duração de 18 meses e serĂĄ destinado a jovens com idade entre 18 e 29 anos, alĂ©m de pessoas com mais de 50 anos. CaberĂĄ aos municĂpios criar e oferecer as vagas, com base em um regulamento que serĂĄ editado pelo MinistĂ©rio do Trabalho e PrevidĂȘncia.
Quem aderir ao programa terĂĄ uma jornada mĂĄxima de 48 horas por mĂȘs, para desempenhar as atividades do programa. Contudo, a jornada deve ser de atĂ© seis horas por dia, por no mĂĄximo trĂȘs vezes na semana.
O programa permite que prefeituras possam contratar temporariamente pessoas para serviços e, em troca, pagar uma remuneração, que nĂŁo pode ser inferior ao salĂĄrio-mĂnimo hora (cerca de R$ 5). A UniĂŁo poderĂĄ ajudar nesse pagamento, em atĂ© R$ 125 por mĂȘs.
Segundo o projeto, as prefeituras nĂŁo podem realizar esses contratos temporĂĄrios para atividades de profissĂ”es regulamentadas ou de cargos e empregos pĂșblicos.
Programa para jovens, com FGTS menor
Quem poderia ser contratado
O relator cria o Priore (Programa Primeira Oportunidade e Reinserção no Emprego), para jovens entre 18 e 29 anos em busca do primeiro emprego e maiores de 55 anos sem emprego formal (carteira assinada) hå mais de 12 meses.
O Priore considera que ainda estĂŁo em busca do primeiro emprego pessoas que tiveram apenas contrato de aprendizagem, de experiĂȘncia, de trabalho intermitente ou de trabalho avulso.
Limite de salĂĄrio
O programa valeria para empregados que recebam atĂ© dois salĂĄrios mĂnimos (atualmente R$ 2.200).
BÎnus de até R$ 275
O programa prevĂȘ um BĂŽnus de InclusĂŁo Produtiva (BIP), pago pelo governo e proporcional Ă carga horĂĄria. O maior BIP seria de R$ 275 (25% do salĂĄrio mĂnimo) ao empregado contratado para trabalhar 44 horas semanais (o mĂĄximo permitido pela CLT).
Prazo para contratar e duração do vĂnculo
A contratação poderå ser feita até 36 meses após a publicação da lei (que ainda não foi aprovada nem sancionada). O contrato poderå ter duração måxima de 24 meses.
Vale sĂł para novos contratos
A contratação seria exclusiva para novos postos de trabalho, limitada a 25% do total de empregados. Empresas com atĂ© 10 empregados poderiam contratar trĂȘs funcionĂĄrios pelo Priore.
Direitos do empregado
O empregado manteria todos os direitos trabalhistas previstos na Constituição e na CLT, como fĂ©rias, 13Âș salĂĄrio, adicional de hora extra e descanso semanal remunerado. O empregado no Priore receberia todo mĂȘs o valor proporcional ao 13Âș salĂĄrio acrescido de 1/3 (terço de fĂ©rias).
FGTS e multa menores
Em contratos normais da CLT, a empresa deposita todo mĂȘs um valor igual a 8% do salĂĄrio bruto na conta do FGTS do empregado. Para trabalhadores do Priore, esse repasse seria menor, de 2% a 6%, conforme o tamanho da empresa (veja detalhes abaixo).
Ao final do contrato, o empregado receberia o valor de multa de 20% do FGTS proporcional ao tempo de trabalho, independentemente do motivo da rescisĂŁo (com ou sem justa causa ou acordo entre empresa e trabalhador). O valor Ă© menor do que a multa por rescisĂŁo sem justa causa na CLT (40%).
Vantagens para a empresa
O Priore reduziria a contribuição para o FGTS do trabalhador (que é de 8% na CLT) conforme o tamanho da empresa:
– 2% para microempresa
– 4% para empresa de pequeno porte
– 6% para as demais
As microempresas ficariam dispensadas de recolher as contribuiçÔes para o Sistema S nos contratos do Priore.
Qualificação profissional
Os trabalhadores contratados por meio do Priore terão prioridade em açÔes de qualificação profissional. O texto do relator deixa a cargo do Ministério da Economia detalhar esses treinamentos.
Custos do programa para o governo
Na primeira versão do parecer, o BÎnus de Inclusão Produtiva (BIP) seria custeado por um corte linear de 30% nas verbas do Sistema S (Senai, Sesc, Sesi, Senac e outros). Na versão aprovada pela Cùmara, as empresas poderão descontar até 15% das contribuiçÔes que teriam que fazer a essas entidades, para pagar seus funcionårios.
Emprego sem carteira e sem direitos trabalhistas
Quem poderia ser contratado
Pessoas entre 18 e 29 anos; ou trabalhadores sem emprego formal (carteira assinada) nos dois anos anteriores; ou inscritos no Cadastro Ănico para programas sociais, com renda mensal familiar de atĂ© dois salĂĄrios mĂnimos (R$ 2.200 hoje).
Sem vĂnculo de emprego
Empregador, trabalhador e entidade responsĂĄvel pelo curso de qualificação assinam digitalmente um Termo de Compromisso de InclusĂŁo Produtiva (CIP). Esse termo nĂŁo cria vĂnculo de emprego. Portanto, nĂŁo hĂĄ carteira assinada nem direitos trabalhistas e previdenciĂĄrios.
Direitos do trabalhador
– Vale-transporte;
– Recesso de 30 dias quando houver a renovação do contrato por um ano;
– Seguro contra acidentes pessoais.
Jornada de trabalho limitada
A jornada de trabalho no Requip seria de atĂ© 22 horas por semana (metade do limite da CLT). A jornada diĂĄria pode ser de oito horas ânesse caso, a pessoa poderia trabalhar no mĂĄximo dois dias e meio para nĂŁo extrapolar a carga semanal. NĂŁo seria permitida a realização de horas extras.
BenefĂcios que somam atĂ© R$ 550 para o trabalhador
O trabalhador receberia dois benefĂcios diferentes: BIP (BĂŽnus de InclusĂŁo Produtiva) e BIQ (Bolsa de Incentivo Ă Qualificação). NĂŁo seria descontado Imposto de Renda ou outros tributos sobre esses valores.
O BIP seria pago pelo governo ao empregado, no valor de atĂ© R$ 275. A BIQ seria paga pelo empresĂĄrio, com valor igual ao BIP. Os benefĂcios somados chegariam a R$ 550 por mĂȘs para quem trabalhar 22 horas semanais.
Duração do contrato
Um ano, prorrogĂĄvel por mais um. Para pessoas com deficiĂȘncia nĂŁo haveria limite de duração.
Quem poderia contratar pelo Requip
– Empresas;
– Profissionais liberais de nĂvel superior;
– Produtores rurais pessoas fĂsicas.
Quantos trabalhadores poderiam ser contratados
O limite de contratados por empresa começa em 10% do nĂșmero de funcionĂĄrios no primeiro ano do Requip, sobe para 15% no segundo ano e termina em 20% no terceiro.
Empresas menores, com até 20 funcionårios, poderiam contratar o equivalente a 20% jå a partir do primeiro ano, se quiserem.
BenefĂcios para quem contratar
Quem oferece a vaga paga a BIQ (Bolsa de Incentivo Ă Qualificação), de atĂ© R$ 250 por mĂȘs, mas nĂŁo precisa recolher contribuição previdenciĂĄria (INSS) sobre esse valor. Os gastos com a BIQ tambĂ©m podem ser abatidos da CSLL (Contribuição Social sobre o Lucro LĂquido).
O BIP nĂŁo tem custo nenhum para o empregador (Ă© bancado pelo governo).
Cursos de aprendizagem
Os cursos para quem participar do Requip seriam oferecidos pelos serviços nacionais de aprendizagem: Sesi, Senai, Sesc, Senac, Sest, Senat, Sebrae, Senar ou Sescoop. Eles tĂȘm a opção de contratar instituiçÔes para prestar o serviço.
Os cursos teriam no mĂnimo 15 horas por mĂȘs.
A empresa que contratar pelo Requip também poderia oferecer diretamente o curso de qualificação, arcando com os custos.
Custos do programa para o governo
Na primeira versão do parecer, o BÎnus de Inclusão Produtiva (BIP) seria custeado por um corte linear de 30% nas verbas do Sistema S (Senai, Sesc, Sesi, Senac e outros). Na versão votada no plenårio da Cùmara, as empresas poderão descontar para pagar a seus funcionårios até 15% das contribuiçÔes que teriam que fazer a essas entidades.
Jornada de mineiros serĂĄ alterada
O texto aprovado prevĂȘ diversas alteraçÔes na CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). Em uma delas, muda a jornada mĂĄxima de trabalhadores de minas em subsolo, que atualmente Ă© de seis horas diĂĄrias. A proposta determina uma jornada diĂĄria de atĂ© 12 horas, limitada a 36 horas semanais. O patrĂŁo e o empregado poderĂŁo negociar o prazo de descanso.
Restrição de acesso à Justiça gratuita
O acesso Ă Justiça gratuita tambĂ©m serĂĄ limitado, conforme o texto aprovado. SĂł terĂŁo acesso ao benefĂcio famĂlias carentes, com renda familiar mensal per capita de atĂ© meio salĂĄrio mĂnimo ou renda familiar mensal de atĂ© trĂȘs salĂĄrios mĂnimos (R$ 3.300).
No caso de processos trabalhistas, o acesso Ă Justiça gratuita sĂł serĂĄ concedido a quem teve salĂĄrio inferior a 40% do limite mĂĄximo dos benefĂcios do Regime Geral de PrevidĂȘncia Social. Se a regra jĂĄ valesse hoje, apenas pessoas que tiveram salĂĄrio inferior a R$ 2.500 poderiam requerer esse benefĂcio.
Juiz nĂŁo poderĂĄ anular clĂĄusulas de acordos extrajudiciais
JuĂzes do trabalho ficam proibidos de anular clĂĄusulas de acordos extrajudiciais entre empregados e empresas. Segundo o texto, o juiz ficarĂĄ limitado a homologar ou nĂŁo o acordo na integralidade e nĂŁo poderĂĄ determinar ajustes entre as partes. A avaliação do juiz tambĂ©m serĂĄ “exclusivamente sobre a conformidade dos elementos essenciais do negĂłcio jurĂdico”.
Fiscalização sem multa e ‘orientação’ para escravagistas
O texto altera a fiscalização trabalhista, prevendo que empresas sĂł podem ser multadas por infringir a lei depois de duas visitas de “orientação” de auditores do trabalho. A regra vale inclusive para casos de trabalho anĂĄlogo ao escravo.
Redução de pagamento de horas extras
Caso a MP seja aprovada pelo Senado, bancårios, jornalistas e operadores de telemarketing, entre outros trabalhadores com jornadas reduzidas (ou seja, de menos de oito horas por dia) terão redução no valor do pagamento de horas extras.
O texto prevĂȘ uma “extensĂŁo da jornada” para oito horas diĂĄrias e determina que o pagamento da hora extra tenha acrĂ©scimo somente de 20% – hoje, a legislação trabalhista determina que a hora extra tenha acrĂ©scimo de 50% (quando trabalhada de segunda a sĂĄbado) e 100% (quando trabalhada domingos ou feriados).
