13 de abril de 2024

No Acre, professora recebe diagnóstico de autismo aos 46 anos: “Foi libertador e de muita força”

Ao ContilNet, a acreana contou como foi o processo de descobrir o transtorno e receber o laudo, há 1 ano

O Dia Mundial de Conscientização do Autismo, celebrado nesta terça-feira, 2 de abril, é uma data criada pela Organização das Nações Unidas (ONU), com objetivo de levar informação à população para reduzir a discriminação sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Ao redor do mundo, milhares de pessoas sofrem com o preconceito relacionado ao transtorno.

No Acre, a professora Simone Pinheiro não viveu de maneira diferente. Desde criança, com estereotipias e características do transtorno, a professora conviveu com o bullying. Ao ContilNet, a acreana contou como foi o processo de descobrir o transtorno e receber o laudo, há 1 ano.

Segundo a Biblioteca Virtual de Saúde, do Ministério da Saúde, o autismo é um problema no desenvolvimento neurológico que prejudica a organização de pensamentos, sentimentos e emoções. “Tem como características a dificuldade de comunicação por falta de domínio da linguagem e do uso da imaginação, a dificuldade de socialização e o comportamento limitado e repetitivo. Os sinais de alerta surgem nos primeiros meses de vida, mas a confirmação do diagnóstico costuma ocorrer aos dois ou três anos de idade”.

Simone Pinheiro foi diagnosticada com autismo há 1 ano, aos 46 anos/Foto: Cedida

Simone Pinheiro, que é professora dos anos iniciais, contou que após uma forte crise de ansiedade, que a levou a pensar que poderia ser um infarto, ela foi orientada a procurar um especialista para tratar deste transtorno que afeta milhares de pessoas. “Eu procurei um especialista para fazer esse acompanhamento. Então comecei a fazer terapia e com a terapeuta, eu não sentia evolução, continuei tendo agressividade, crises de ansiedade e isolamento social. Se eu ficava muito nervosa, começava a me balançar de um lado para o outro e eu contei para ela. A terapeuta sugeriu que investigassemos para o autismo. Fizemos todos os testes, investigamos o histórico da minha vida, na infância e adolescência e depois de quatro meses, eu recebi o diagnóstico que deu para TEA”, contou.

A professora afirmou que foi libertador receber o diagnóstico de autismo. “Foi libertador para mim, algo de muita força. Eu tinha algumas atitudes e ações, e eu sofria críticas da sociedade pois eu não conseguia compreender o porquê daquela minha atitude, da desregulação e isso me deixou muito para baixo, muito triste. Quando eu consegui meu lado, fiz todos os testes, e veio o laudo de autismo nível 1 de suporte, eu pensei ‘caramba, agora eu posso buscar meus direitos’”, disse.

Simone relembrou as vezes que se irritava com filas grandes, com o espaço de trabalho e outras coisas que a incomodavam. “Eu me irritava com aquelas filas enormes e às vezes acabava sendo grossa com a moça do caixa ou no trabalho eu vivia trocando de setor. Com isso, eu passei a ir atrás dos meus direitos, pois eu não fazia aquilo porque eu era cruel e egoísta, mas porque tem algo em mim que eu não consigo controlar, está além das regras sociais”, explicou.

Simone buscou um profissional após uma crise de ansiedade/Foto: Cedida

A professora relembrou que o diagnóstico foi uma conquista muito importante ao receber o laudo aos 46 anos, mas que ainda enfrenta preconceito. “Ainda tem muito preconceito na sociedade, para todas as síndromes. Até hoje meus pais não aceitam, falam que eu tive uma infância tranquila, que minha mãe teve uma gravidez tranquila, que é invenção e querem tirar meu dinheiro, mas na verdade, como meu nível é o 1, eu não tive comprometimento na fala, no andar, mas eu era uma criança muito isolada, agressiva na escola e não tinha muitas amizades. Eu tento falar isso para eles, mas até hoje não querem aceitar. Mas eu tenho feito isso, sabe? É por isso que eu sempre estou falando sobre a causa”, revela.

Estereotipias

Uma das coisas que também fizeram com que Simone acendesse o alerta foram as estereotipias, que podem se tornar agressivas para o corpo. “Eu tenho estereotipias com os pés, que quando eu estou sentada, eu sobro os pés e só percebo quando já estão quase dormentes. Aí eu me tocava e percebia que meus pés estavam dobrados, mas era só o tempo de passar aquele incômodo, que eu já estava fazendo de novo. Além disso, eu também tenho um processo com as mãos que eu fico fazendo estalos e dobrando o dedo, deixando o indicador para baixo como se estivesse procurando algo. Eu também tenho uma estereotipia que eu fico repetindo, que a terapeuta disse que é uma ecolalia”, explicou.

As estereotipias, conhecidas também por sua nomenclatura em inglês “Stimming” ou “Stim”, são os movimentos motores e comportamentos repetitivos e alguns exemplos disso são agitar ou esfregar as mãos; balançar o tronco para frente e para trás; andar na ponta dos pés; pular; girar; fazer movimentos repetitivos com as pernas e bater palmas.

Simone tem estereotipias com as mãos e pés, além da ecolalia/Foto: Cedida

Esses são alguns exemplos clássicos, mas as estereotipias não se resumem a isso. Os movimentos repetitivos são uma forma de autorregulação que serve para as mais diversas situações. Podem ser uma resposta à sobrecarga sensorial, por exemplo.

Qualidade de vida pós diagnóstico

A professora contou ao ContilNet que percebeu um aumento na qualidade de vida durante o primeiro ano do diagnóstico. “Eu faço as terapias para a questão da fala, porque eu tenho algumas palavras que eu não consigo falar e eu sempre sofria muito bullying. No meu local de trabalho, já ouvi pessoas falando que percebiam que eu tinha algum problema. Eu também já fui chamada de louca e estranha”, disse.

Com o diagnóstico, Simone passou a entender os seus limites e, por isso, passou a evitar lugares que causassem sobrecarga. “Isso tem sido fundamental, por exemplo, para não machucar muito os pés, porque isso pode causar um atrofiamento e agora eu tento colocar uma bolinha, fazer alguma coisa na cadeira, tudo isso para ter uma qualidade de vida”, explicou.

A servidora pública também falou sobre reivindicar os espaços de atendimento, pois pessoas com autismo são prioridade e afirma que os espaços precisam ter esse acolhimento e compreensão. 

“Me incomodava o barulho da escola”

Simone explicou que leciona há 20 anos e a escola foi um dos motivos que a levou a investigar o autismo. “Às vezes o barulho da escola e o comportamento ao redor me causavam algumas estereotipias e eu ficava desregulada, chegava em casa muito cansada, chorando. Então isso também foi um dos motivos que me levou ao processo das avaliações”, ressaltou.

A professora contou que buscou uma clínica da rede privada de Rio Branco para as consultas e avaliações neuropsicológicas, mas que apesar do valor pago no processo, o diagnóstico foi libertador.

Simone é professora dos anos iniciais em uma escola de Rio Branco/Foto: Cedida

“É um investimento. É uma poupança para a melhora da sua qualidade de vida, porque se você não fizer terapia, se você não tiver o diagnóstico, o autismo tem comorbidades, como a ansiedade, que você pode desenvolver um problema cardíaco, hepáticos e renais. Eu leio em pesquisas que indicam que as pessoas com autismo não identificados na infância, têm tendência de cometer suidício, pois gera dependência e depressão, além do medo e insegurança. Então é muito importante procurar, pois quando se tem diagnóstico, você sabe por qual caminho seguir”, explicou, citando a seletividade alimentar, que prejudica na sua alimentação e saúde.

“Procure um profissional”

Simone encerrou a entrevista concedida ao ContilNet com o conselho para as pessoas que perceberam alguma estereotipia ou desconfiam de um possível diagnóstico de autismo. “Procure um profissional. Acredite no SUS. Procure a rede pública ou privada, porque é sua saúde e isso também facilita para algum familiar”, explicou.

O sobrinho de cinco anos da professora também foi diagnosticado com TEA e Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) após o laudo de Simone.

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