Rio Branco, Acre,


Atingidos pelo desemprego, haitianos radicados na Grande BH sonham com nova migração

Famílias que saíram do país centro-americano sonhando ganhar a vida no Brasil são atingidas em cheio pelo desemprego e já começam a planejar o retorno ou até migrar para outro país

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Africanos e senegaleses na entrada do abrigo de imigrantes em Rio Branco (Foto: Altino Machado)

Está chegando ao fim o sonho dos haitianos em mudar de vida no Brasil. Depois de quatro anos vindo para cá em busca de dinheiro e de uma vida melhor, aceitando, inclusive, trabalhos pesados e inferiores ao que estavam acostumados no Haiti, eles amargam, agora, o desemprego e a retração econômica da então “terra prometida”. Somente em um bairro em Contagem, na Grande BH, onde há cerca de 250 haitianos morando, a estimativa é de que 80% deles estejam desempregados. “Vendi tudo para vir para cá. A minha esperança era de que, aqui, seria a terra das oportunidades. Há seis meses estou desempregada e não consigo nada. Se soubesse que passaria por tudo isso, não teria vindo. Agora, como vou embora, se não tenho mais dinheiro?”, desabafa a haitiana Nerline Georges, de 36 anos.

A imigração maciça de haitianos para o Brasil ocorre desde 2010, ano em que houve o terremoto que devastou a capital Porto Príncipe, deixando mais de 200 mil vítimas no país. Desde então, o quadro de miséria, que já era grave, ficou pior. Estima-se que haja, atualmente, cerca de 65 mil haitianos no Brasil e, de acordo com dados do Ministério do Trabalho, cerca 18 mil deles estão trabalhando com carteira assinada. Porém, a maioria está como mão de obra barata para muitas empresas. Há quem tenha diploma de engenheiros trabalhando aqui como pedreiro, bombeiro, ou outro emprego que não necessite do ensino superior. Desde que chegaram ao Brasil, a indústria e a construção civil eram as áreas que mais empregavam. No entanto, com a crise econômica, os dois setores vem sendo impactados. “Trabalhava em uma industria, como auxiliar de produção, consegui emprego assim que cheguei, no início de 2014. Ganhava cerca de R$ 700, mas veio a crise e, desde maio, estou sem emprego. Deixo currículo em todos os lugares, mas não sou chamado para nada. Se quero embora? Não tenho como sair. Tenho que esperar as coisas melhorarem para me mudar daqui”, comenta Junior Florestal, de 39 anos.

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Quando começaram a migrar para o Brasil, as oportunidades eram muitas. Uma empresa de construção civil, em Contagem, por exemplo, chegou a contratar cerca de 20 haitianos e, hoje, não há nenhum no quadro de funcionários. Os anos de 2013 e 2014 foram de bons frutos para os estrangeiros já que, com a Copa do Mundo, a demanda por serviços era grande, conforme lembra Evels Georges, de 41 anos. “Cheguei em Minas há quatro anos, e, em 10 dias, estava empregado. Era maravilhoso. Agora está tudo muito difícil”, lamenta Evels. Ele diz que trabalha como porteiro em uma escola em Contagem e ganha pouco mais de um salário mínimo (R$ 780). “Minha mulher e minha filha estão desempregadas. Pago R$ 500 de aluguel, minha luz subiu de R$ 90 para R$ 180, e chego no supermercado e não consigo comprar quase nada. A carne, por exemplo, está cara demais para comermos”, diz, acrescentando que, uma situação dessas é mais impactante para o haitiano do que para o brasileiro. “Não trabalhamos só para nós, trabalhamos para os outros que estão lá, na nossa terra, à espera de dinheiro”.

Evels pensar em “abandonar o sonho brasileiro”, assim que conseguir dinheiro. “O problema é o preço alto de todas as coisas e o salário que não aumenta”, diz. De acordo com os haitianos ouvidos pelo Estado de Minas, o novo destino dos sonhos para eles, hoje, é o Chile, onde há mais oportunidades de emprego e ofertas de vaga. “O que vamos fazer no Brasil sem emprego? Estou há três meses sem trabalhar aqui. Parei de comprar leite e até carne”, indignou-se a haitiana Marie Carme, de 31 anos.

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‘Disseram que o Brasil era um país avançado, mas, hoje, vemos que a realidade é outra’, Phanel Georges, pedagogo (foto: Cristina Horta/EM/D.A Press)

De acordo com os entrevistados, muitos haitianos que sonhavam vir para o Brasil já mudaram de ideia. “Disseram que o Brasil era um país avançado, mas, hoje, vemos que a realidade é outra”, define o Phane Georges, de 30. Depois de dois meses desempregado, ele conseguiu um emprego na Secetaria Municipal de Educação, em Contagem, como pedagogo . “Sou um dos poucos que está trabalhando na própria profissão. O Brasil ainda não reconhece o nosso diploma, há a questão da qualificação e a crise. Tudo isso contribui para o desemprego haitiano no Brasil”, afirma.

Atualmente, Phanel atua na prefeitura como elo entre o poder público e os haitianos, por isso conhece as comunidades de imigrantes em Contagem. “Sei o quanto está difícil para todos. Estou trabalhando, mas é um contrato temporário que pode durar até dezembro. Tenho medo do desemprego, porque não sei o que vou fazer”, diz, afirmando que vem crescendo, a cada dia, a desocupação entre os seus conterrâneos. “Sei que, aqui no Bairro Petrolândia, em Contagem, dos cerca de 250 que aqui moram, cerca de 80% estão desempregados”, afirma. Ele recorda que, ainda em 2014, quando muitos chegaram, os patrões estavam em busca dessa mão de obra. “Mas, com a crise, os haitianos que estavam empregados, foram os primeiros a serem mandado embora”, destaca.

Uma conta moral difícil de ser paga

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‘O que vamos fazer no Brasil sem emprego? Estou há três meses sem trabalhar aqui. Parei de comprar leite e até carne’, Marie Carme, desempregada que prefere não mostrar o rosto (foto: Cristina Horta/EM/D.A Press)

Para o professor da PUC-Minas e responsável por estudos de imigrantes em Minas, Duval Fernandes, o que preocupa no cenário haitiano no Brasil é a conta que eles têm a pagar. “Eles chegam com uma dívida seja com coiotes que lhes trouxeram, ou com quem conseguiram dinheiro para vir. Além disso, têm a conta moral da obrigação de mandar dinheiro a seus familiares. Isso é uma coisa angustiante”, comenta Duval.

Ele não acredita que os haitianos sejam os primeiros a serem cortados das empresas nesta época de crise. “Em nossos trabalhos, temos ouvido muitos empresários satisfeitos com os serviços haitianos. Temos de pensar que há a questão empresarial mesmo, em que fica mais barato para uma empresa mandar aquele que trabalha há menos tempo”, diz. Para Duval, como muitos chegam com uma dívida alta a pagar e ainda ter que mandar dinheiro para seus parentes, a situação está mais apertada agora com a subida do dólar. “Uma pessoa que ganhava um salário mínimo, por exemplo, mandava um terço do salário e, hoje, com a alta da moeda norte-americana, está mandando praticamente a metade. Geralmente, eles mandam uma média de US$ 100 por mês ”, diz. Sobre a vontade de ir embora, o professor destaca que há três tipos de imigrantes haitianos: “O que veio e deixou sua família e conta em ganhar dinheiro para voltar para o Haiti; há o que veio e quer se manter no Brasil, já que trouxe seus filhos, e aquele que enxerga o Brasil como a etapa de um processo imigratório”, enumera.

No ultimo caso, Duval diz que, no Chile, há a facilidade de não exigir visto de turista para os haitianos. “Muitos coiotes venderam uma ilusão a essas pessoas dizendo a elas que aqui ganhariam muito dinheiro. E não é bem assim. A nossa economia oferece posto de trabalho baixo e, com essas notícias chegando ao Haiti, é provável que muitos deixem de vir”, conclui.

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