Rio Branco, Acre,


Motéis brasileiros ostentam e oferecem passeios de helicóptero e filmes em 4D

Outras suítes que podem ser alugadas por poucas horas incluem jantares preparados por chefs premiados, DJs privados ou filmes em 4D com poltronas que se movimentam.

Suíte do motel Classe A faz homenagem ao Corinthians
Suíte do motel Classe A faz homenagem ao Corinthians

Basta dirigir por qualquer grande cidade brasileira e lá estão eles, os motéis chamando atenção, com suas luzes de néon e nomes como Magnata e Taj Mahal. Alguns lembram fortalezas medievais colossais para encontros amorosos. Outros evocam os excessos faraônicos do antigo Egito.

Mas essa ostentação de fachada é coisa do passado.

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Os palácios do prazer que estão surgindo agora oferecem serviços como passeios de helicóptero acima desta megacidade de 20 milhões de habitantes. Nas suítes de certos motéis, os hóspedes deslizam por toboáguas até piscinas privadas aquecidas.

Outras suítes que podem ser alugadas por poucas horas incluem jantares preparados por chefs premiados, DJs privados ou filmes em 4D com poltronas que se movimentam.

“Os clientes dos melhores motéis brasileiros agora exigem uma experiência que vai além de encontrar um local discreto para fazer sexo”, disse Flávio Monteiro, o diretor do Apple Motel, que abriu recentemente onde outro motel, o Roma In Ville, recebia os hóspedes com estátuas evocando um bacanal romano.

“As estátuas não estavam funcionando para nós”, disse Monteiro, cuja equipe redesenhou o espaço para lembrar vagamente, ao menos na fachada, uma Apple Store –se uma loja da Apple tivesse vidros com iluminação em LED que mudam de cor de vermelho para azul e verde. Mas em seu interior, os clientes relaxam em suítes com cascatas em piscinas privadas. “Nós oferecemos algo mais sublime”, ele acrescentou.

Apreciados por muitos, desaprovados por outros, os motéis há muito contam com um lugar especial no maior país da América Latina. Apesar de terem sido inspirados pelos motéis americanos, ou hotéis de beira de estrada, a versão brasileira se transformou em lugares onde os casais podem realizar encontros amorosos secretos, uma escapada de espaços apertados ou apenas para apimentar um pouco as coisas.

A Associação Brasileira de Motéis diz que o mercado é tão popular e competitivo que há cerca de 5.000 motéis em todo o país –300 apenas em São Paulo. Os proprietários enfrentam pressão constante para oferecer novidades para a clientela exigente.

“Eu prefiro motéis que inovam com padrões de bom gosto”, disse Vanessa Antolinez, 36, uma designer de interiores que é uma cliente regular, juntamente com seu marido, do Acaso Motel, onde as suítes custam cerca de US$ 120 para uma estadia de poucas horas. Entre seus atrativos estão um saco de pancadas para descarregar a tensão, pratos como cordeiro com mostarda Dijon e um ofurô ao estilo japonês.

“Às vezes é preciso um pouco de privacidade e quebrar a rotina”, disse Antolinez. “Mas também é preciso algo com classe.”

Como muitos outros empreendimentos brasileiros, os motéis estão enfrentando a crise econômica do país. Mas alguns proprietários, especialmente aqueles no lado de alta renda do espectro econômico, dizem que o negócio é resistente, possivelmente porque a desvalorização da moeda brasileira está tornando as viagens ao exterior mais caras, encorajando algumas pessoas a gastarem em diversões locais.

“Muitas pessoas preferem cortar outros custos antes de decidirem deixar de fazer visitas regulares a um motel”, disse Felipe Martinez, 32, diretor do Lush, um motel recém-reformado que oferece aos clientes um passeio de helicóptero de 30 minutos por cerca de US$ 350 e uma volta de uma hora em uma Ferrari por cerca de US$ 400.

Em uma avenida onde há uma grande mesquita, fábricas abandonadas e prédios de escritório brutalistas, o Lush aluga suítes que variam de cerca de US$ 85 por três horas até US$ 120 por toda a noite. (Em comparação, o Hotel Unique, um hotel de luxo de 95 quartos projetado para parecer um casco de navio, cobra uma diária de cerca de US$ 330.)

O papel de parede azul de uma das suítes do Lush parece inspirado pelas pinturas surrealistas de Salvador Dalí. Em outra suíte, a cama curvilínea evoca as câmaras de sono de ficção científica. Os proprietários do Lush também contrataram a artista de rua Raquel Brust, que produz fotos impressas em dimensões imensas, para dar a algumas das suítes uma estética urbana vanguardista.

Como seus pares na indústria da discrição, o Lush preza a privacidade. De fato, é dada muita ênfase à discrição a ponto da única pessoa que os clientes do motel encontram no interior do estabelecimento é o recepcionista, que os recebe na entrada e cobra o pagamento na saída. Garagens privadas, ligadas a cada suíte, protegem as identidades dos ocupantes.

Os pratos do extenso cardápio, que inclui salmão ao molho de curry verde e camarão em purê de leite de coco e mandioca, são pedidos por telefone e servidos discretamente por um elevador de alimentos. Os funcionários do motel usam o mesmo método para entregar outros itens do cardápio, incluindo caipirinhas, vinhos malbec da adega do Lush, preservativos e uma série de brinquedos sexuais.

“A comida é excelente e o ambiente é impecável”, disse Thays Maroni, 22, uma professora colegial de inglês que gasta regularmente em estadias no Lush com seu namorado, Iberê Balbeck, um jovem de 23 anos que mora com seus pais enquanto estuda para ser piloto de helicóptero. “É onde vamos para um pouco de privacidade. Algum dia vou surpreender o Iberê com um passeio de Ferrari.”

Os acadêmicos que estudam os motéis dizem que o uso deles varia enormemente, com os dias úteis frequentemente envolvendo casos secretos ou encontros com prostitutas, e os fins de semana são preferidos por casais em relacionamentos duradouros ou casados.

O setor de motéis em São Paulo atende a uma ampla variedade de interesses pessoais. O Motel Classe A, por exemplo, oferece uma suíte decorada para torcedores do Corinthians e outra para os fãs do livro “Cinquenta Tons de Cinza”. As suítes do Snob’s Motel parecem aspirar ser cosmopolitas, com nomes de cidades como Dubai, Moscou e, sim, Las Vegas. Uma suíte do Motel Riviera foi projetada para parecer que o cliente está descansando perto de um iate ancorado no Mediterrâneo.

Mas esses floreios parecem antiquados, ou apenas sem ambição, em comparação à abordagem exagerada de estabelecimentos como o Harmony Motel.

Sua suíte Nagoya tem um bar com chopeira, churrasqueira, pole dance suspenso com chão de vidro, um lounge para jogar Xbox, fliperama, teto solar, mesa de sinuca, um aquário repleto de peixes de água doce, como o pirarucu, e uma cama king-size decorada com pétalas de rosa.

O hotel também lembra aos clientes que mais de 100 pessoas cabem em uma suíte caso os hóspedes queiram dar uma festa. Uma estadia na suíte duplex para um casal custa a partir de US$ 100 por algumas poucas horas; o preço sobe se a estadia for mais longa ou de acordo com o número de hóspedes.

“Os motéis no Brasil são como a Disneylândia do sexo”, disse Dinah Guimaraens, uma antropóloga e arquiteta que escreveu extensamente sobre os motéis brasileiros. “Eles fornecem uma combinação de entretenimento, fantasia e escapismo, permitindo à classe média se sentir poderosa por alguns poucos momentos fugazes.”

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