Chefiado por uma mulher, o MinistĂ©rio PĂșblico do Estado do Acre (MPAC) tem priorizado a atenção Ă mulher para garantir a proteção e efetivação de seus direitos. As mulheres, hoje, sĂŁo maioria do eleitorado no Acre e formam parcela significativa da população que enfrenta violĂȘncias domĂ©stica, sexual e psicolĂłgica, persistentes em uma sociedade que ainda nĂŁo consegue extirpar totalmente histĂłricas desigualdades de gĂȘnero.
As delegacias e as varas judiciais estĂŁo abarrotadas de notĂcias e denĂșncias dando conta de estupros, assĂ©dios e mortes de mulheres todos os dias. Diante desse cenĂĄrio, o MinistĂ©rio PĂșblico forma uma frente de trabalho que engloba a ĂĄrea criminal e a ĂĄrea cĂvel, que combina intervenção judicial com intervenção extrajudicial.
Apesar de leis como Lei Maria da Penha e Lei do FeminicĂdio, bem como, uma sĂ©rie de dispositivos que asseguram direitos e proteção, as prĂĄticas cotidianas estĂŁo permeadas de uma mentalidade, consciente ou inconsciente, que ainda acredita em uma suposta superioridade de gĂȘnero, o que justifica todo tipo de violĂȘncia, demandando para isso um combate que se dĂĄ por processos educativos, de conscientização e efetivação de direitos.

Procuradora-geral de Justiça, Kåtia Rejane/Foto: Reprodução
âSĂŁo inegĂĄveis as conquistas no campo dos direitos humanos e o aumento da representatividade das mulheres no espaço pĂșblico, mas o grande nĂșmero de violĂȘncia e estupros indica que precisamos fazer muito mais, e o MP acreano vem trabalhando para enfrentar essa realidadeâ, afirmou a procuradora-geral de Justiça, KĂĄtia Rejane.
A triste realidade
O Acre figura entre os estados com os maiores Ăndices de violĂȘncia contra a mulher, estando acima da taxa, e Ă© atĂ© o ano de 2015 era o primeiro em crimes de estupro.
Conforme o AnuĂĄrio Brasileiro de Segurança PĂșblica, em 2017, a taxa de crimes de homicĂdios de pessoas do sexo feminino no Acre foi a segunda maior do Brasil, correspondendo a 8,3 por 100 mil mulheres, ficando relativamente abaixo do Rio Grande do Norte, cuja taxa foi de 8,4 homicĂdios para cada 100 mil mulheres.
Das 37 vĂtimas de homicĂdios, 13 mulheres foram vĂtimas de feminicĂdios, representando 38% do total, percentual bem acima do nacional, que foi de 24,8% em relação ao total de homicĂdios de mulheres, assassinadas por outras motivaçÔes.
Com relação Ă lesĂŁo corporal dolosa, ou seja, violĂȘncia domĂ©stica, o Acre registrou, em 2017, uma taxa de 159,9 ocorrĂȘncias para cada 100 mil mulheres, ficando abaixo da nacional, que foi de 183,9, porĂ©m ficando entre aqueles com o maior nĂșmero de registros proporcionais, quando comparado com os demais estados brasileiros.
Quanto aos crimes de estupro, atĂ© 2015, o estado apresentava a maior incidĂȘncia, com taxa de 65,2 para cada 100 mil pessoas, enquanto que a nacional era de 22,2. Em 2016, caiu para 33,9 e, em 2017, houve redução de 25% em relação Ă quantidade de ocorrĂȘncias registradas no ano anterior, ficando em 25,3 registros de estupro por 100 mil habitantes.
Ocorre que as estatĂsticas referentes aos casos de estupros sĂŁo aquelas efetivamente incluĂdas no sistema de segurança pĂșblica. Levantamentos feitos com base nos crimes sexuais mostram que os Ăndices de notificação de mulheres violentadas nĂŁo ultrapassam 10%, ou seja, 90% dos casos deixam de ser notificados Ă s autoridades competentes.
Para ser ter uma ideia, a PolĂcia Civil registrou, no ano de 2015, 524 crimes contra a dignidade sexual de populaçÔes vulnerĂĄveis, enquanto que as estatĂsticas do Sistema Nacional de Atendimento MĂ©dico (Sinam) registravam 697 casos, perfazendo uma diferença de 173 casos. Quando a equipe tĂ©cnica do MPAC avaliou os casos das vĂtimas nominalmente, foi constatado que se tratava de indivĂduos totalmente diferentes.
Por outro lado, o Brasil Ă© o paĂs que possui a maior taxa de homicĂdios praticados contra a população LGBT, e esses crimes sĂŁo praticados de forma cruel contra mulheres travestis e transexuais. Dados do Grupo Gay da Bahia (GGB) indicam que o ano de 2017 foi o ano recorde de mortes motivadas por homofobia no paĂs, com 445 homicĂdios, um aumento de 30% em relação a 2016. O nĂșmero representa uma vĂtima a cada 19 horas. No Acre, entre 2007 e 2017, foram registradas 18 ocorrĂȘncias de homicĂdios contra homossexuais e transexuais. Desse total, seis ocorrĂȘncias foram comunicadas no ano de 2016.
Porta de acesso aos direitos
Em 2017, o MinistĂ©rio PĂșblico acreano recebeu mais de quatro mil inquĂ©ritos policiais de violĂȘncia contra mulher. Por dia, a 13ÂȘ Promotoria de Justiça Especializada no Combate Ă ViolĂȘncia DomĂ©stica e Familiar Contra a Mulher, participa, em mĂ©dia, de 20 audiĂȘncias na Vara Especializada de Combate Ă ViolĂȘncia DomĂ©stica, em Rio Branco.
Criado em 2015, o Centro de Atendimento Ă VĂtima (CAV) Ă© a porta de acesso do MPAC Ă mulher vĂtima de violĂȘncia de gĂȘnero, garantindo a ela uma identidade, voz e protagonismo no processo penal e fora dele, atuando na reparação do dano, seja material, social, moral e psicolĂłgico, articulando a rede de proteção e, ao mesmo tempo, fiscalizando os serviços e subsidiando iniciativas de membros do MPAC.
AtĂ© o fim do ano passado, dos 62 casos que chegaram ao CAV, 80% deles sĂŁo relacionados a violaçÔes de direito contra mulheres, inclusive transexuais, tais como violĂȘncia sexual, familiar e domĂ©stica. Cada caso gera uma gama de atendimentos, a exemplo de contatos telefĂŽnicos, visitas domiciliares, visitas institucionais, encaminhamentos, estudos de caso e pesquisa de processo judicial. Em geral, hĂĄ uma mĂ©dia de 44 atendimentos por caso.
Em pouco tempo de funcionamento, o CAV jĂĄ deu importantes passos que resultaram em propostas de escala nacional e estadual, tornando-se referĂȘncia no combate Ă violĂȘncia de gĂȘnero, no Ăąmbito do MinistĂ©rio PĂșblico, tanto que foi premiado com o Selo de PrĂĄticas Inovadoras do FĂłrum Brasileiro de Segurança PĂșblica (FBSP).
O CAV, sendo um ĂłrgĂŁo especializado na violĂȘncia de gĂȘnero, compreende que esse tipo de violĂȘncia nĂŁo Ă© sĂł praticado contra pessoas do sexo feminino, mas tambĂ©m contra aquelas que se declaram mulheres. A partir da atuação do ĂłrgĂŁo, a Secretaria de PolĂcia Civil incluiu mulheres transexuais e travestis vĂtimas de violĂȘncia domĂ©stica e familiar no pĂșblico atendido pela Delegacia Especializada no Atendimento Ă Mulher (Deam).
AlĂ©m disso, houve sugestĂ”es de alteraçÔes legislativas para que mulheres transexuais e transgĂȘneros possam ser protegidas pela Lei Maria da Penha, e o estabelecimento de notificação compulsĂłria, na rede pĂșblica ou privada de saĂșde, de casos de violĂȘncia que envolvam pessoas com identidade de gĂȘnero feminino como vĂtimas.
O CAV realizou inspeçÔes e estudos sobre crimes sexuais e violĂȘncia domĂ©stica em unidades de saĂșde de Rio Branco, de BrasilĂ©ia e de Xapuri, a partir das Fichas de Notificação CompulsĂłria de Doenças e Agravos do Sistema Ănico de SaĂșde (SUS), visando subsidiar intervençÔes judiciais e extrajudiciais e reduzir os crimes sexuais. Com esse trabalho, foi possĂvel estabelecer o fluxo de atendimento de violĂȘncia sexual e, em parceria com a Secretaria de Estado de SaĂșde, promover a regulação dos prontuĂĄrios.
âEstudos mostram que as mulheres que sofrem violĂȘncia domĂ©stica e familiar sĂŁo revitimadas na prĂłpria rede de proteção do Estado e a maioria das que denunciam Ă© reincidente nesse tipo de violĂȘnciaâ, destaca a coordenadora do CAV, procuradora de Justiça PatrĂcia RĂȘgo, que foi reconhecida pela revista Marie Claire como mulher inspiradora no enfrentamento contra a violĂȘncia de gĂȘnero, atravĂ©s do PrĂȘmio Viva.
Com isso, o MPAC deu inĂcio ao MutirĂŁo de InquĂ©ritos Policiais na Deam. A ação na delegacia possibilitou dar maior celeridade na tramitação dos inquĂ©ritos e reunir dados que demonstrassem o panorama geral da violĂȘncia domĂ©stica, alĂ©m de verificar a estrutura fĂsica e condiçÔes materiais de funcionamento da delegacia.
AtravĂ©s de recomendação, o MPAC pediu tambĂ©m o desmembramento fĂsico entre a Deam e a Delegacia de Proteção Ă Criança e ao Adolescente (Depca) para que passassem a atuar em edifĂcios prĂłprios. A intenção Ă© que os funcionĂĄrios da primeira recebessem exclusivamente casos de violĂȘncia contra a mulher, otimizando o atendimento.
