MinistĂ©rio PĂșblico/AC busca romper com ciclo perverso de violĂȘncia de gĂȘnero

Por ASCOM 09/03/2019 Ă s 16:24 Atualizado: hĂĄ 7 anos

Chefiado por uma mulher, o MinistĂ©rio PĂșblico do Estado do Acre (MPAC) tem priorizado a atenção Ă  mulher para garantir a proteção e efetivação de seus direitos. As mulheres, hoje, sĂŁo maioria do eleitorado no Acre e formam parcela significativa da população que enfrenta violĂȘncias domĂ©stica, sexual e psicolĂłgica, persistentes em uma sociedade que ainda nĂŁo consegue extirpar totalmente histĂłricas desigualdades de gĂȘnero.

As delegacias e as varas judiciais estĂŁo abarrotadas de notĂ­cias e denĂșncias dando conta de estupros, assĂ©dios e mortes de mulheres todos os dias. Diante desse cenĂĄrio, o MinistĂ©rio PĂșblico forma uma frente de trabalho que engloba a ĂĄrea criminal e a ĂĄrea cĂ­vel, que combina intervenção judicial com intervenção extrajudicial.

Apesar de leis como Lei Maria da Penha e Lei do FeminicĂ­dio, bem como, uma sĂ©rie de dispositivos que asseguram direitos e proteção, as prĂĄticas cotidianas estĂŁo permeadas de uma mentalidade, consciente ou inconsciente, que ainda acredita em uma suposta superioridade de gĂȘnero, o que justifica todo tipo de violĂȘncia, demandando para isso um combate que se dĂĄ por processos educativos, de conscientização e efetivação de direitos.

MinistĂ©rio PĂșblico/AC busca romper com ciclo perverso de violĂȘncia de gĂȘnero

Procuradora-geral de Justiça, Kåtia Rejane/Foto: Reprodução

“SĂŁo inegĂĄveis as conquistas no campo dos direitos humanos e o aumento da representatividade das mulheres no espaço pĂșblico, mas o grande nĂșmero de violĂȘncia e estupros indica que precisamos fazer muito mais, e o MP acreano vem trabalhando para enfrentar essa realidade”, afirmou a procuradora-geral de Justiça, KĂĄtia Rejane.

A triste realidade

O Acre figura entre os estados com os maiores Ă­ndices de violĂȘncia contra a mulher, estando acima da taxa, e Ă© atĂ© o ano de 2015 era o primeiro em crimes de estupro.

Conforme o AnuĂĄrio Brasileiro de Segurança PĂșblica, em 2017, a taxa de crimes de homicĂ­dios de pessoas do sexo feminino no Acre foi a segunda maior do Brasil, correspondendo a 8,3 por 100 mil mulheres, ficando relativamente abaixo do Rio Grande do Norte, cuja taxa foi de 8,4 homicĂ­dios para cada 100 mil mulheres.

Das 37 vítimas de homicídios, 13 mulheres foram vítimas de feminicídios, representando 38% do total, percentual bem acima do nacional, que foi de 24,8% em relação ao total de homicídios de mulheres, assassinadas por outras motivaçÔes.

Com relação Ă  lesĂŁo corporal dolosa, ou seja, violĂȘncia domĂ©stica, o Acre registrou, em 2017, uma taxa de 159,9 ocorrĂȘncias para cada 100 mil mulheres, ficando abaixo da nacional, que foi de 183,9, porĂ©m ficando entre aqueles com o maior nĂșmero de registros proporcionais, quando comparado com os demais estados brasileiros.

Quanto aos crimes de estupro, atĂ© 2015, o estado apresentava a maior incidĂȘncia, com taxa de 65,2 para cada 100 mil pessoas, enquanto que a nacional era de 22,2. Em 2016, caiu para 33,9 e, em 2017, houve redução de 25% em relação Ă  quantidade de ocorrĂȘncias registradas no ano anterior, ficando em 25,3 registros de estupro por 100 mil habitantes.

Ocorre que as estatĂ­sticas referentes aos casos de estupros sĂŁo aquelas efetivamente incluĂ­das no sistema de segurança pĂșblica. Levantamentos feitos com base nos crimes sexuais mostram que os Ă­ndices de notificação de mulheres violentadas nĂŁo ultrapassam 10%, ou seja, 90% dos casos deixam de ser notificados Ă s autoridades competentes.

Para ser ter uma ideia, a Polícia Civil registrou, no ano de 2015, 524 crimes contra a dignidade sexual de populaçÔes vulneråveis, enquanto que as estatísticas do Sistema Nacional de Atendimento Médico (Sinam) registravam 697 casos, perfazendo uma diferença de 173 casos. Quando a equipe técnica do MPAC avaliou os casos das vítimas nominalmente, foi constatado que se tratava de indivíduos totalmente diferentes.

Por outro lado, o Brasil Ă© o paĂ­s que possui a maior taxa de homicĂ­dios praticados contra a população LGBT, e esses crimes sĂŁo praticados de forma cruel contra mulheres travestis e transexuais. Dados do Grupo Gay da Bahia (GGB) indicam que o ano de 2017 foi o ano recorde de mortes motivadas por homofobia no paĂ­s, com 445 homicĂ­dios, um aumento de 30% em relação a 2016. O nĂșmero representa uma vĂ­tima a cada 19 horas. No Acre, entre 2007 e 2017, foram registradas 18 ocorrĂȘncias de homicĂ­dios contra homossexuais e transexuais. Desse total, seis ocorrĂȘncias foram comunicadas no ano de 2016.

Porta de acesso aos direitos

Em 2017, o MinistĂ©rio PĂșblico acreano recebeu mais de quatro mil inquĂ©ritos policiais de violĂȘncia contra mulher. Por dia, a 13ÂȘ Promotoria de Justiça Especializada no Combate Ă  ViolĂȘncia DomĂ©stica e Familiar Contra a Mulher, participa, em mĂ©dia, de 20 audiĂȘncias na Vara Especializada de Combate Ă  ViolĂȘncia DomĂ©stica, em Rio Branco.

Criado em 2015, o Centro de Atendimento Ă  VĂ­tima (CAV) Ă© a porta de acesso do MPAC Ă  mulher vĂ­tima de violĂȘncia de gĂȘnero, garantindo a ela uma identidade, voz e protagonismo no processo penal e fora dele, atuando na reparação do dano, seja material, social, moral e psicolĂłgico, articulando a rede de proteção e, ao mesmo tempo, fiscalizando os serviços e subsidiando iniciativas de membros do MPAC.

AtĂ© o fim do ano passado, dos 62 casos que chegaram ao CAV, 80% deles sĂŁo relacionados a violaçÔes de direito contra mulheres, inclusive transexuais, tais como violĂȘncia sexual, familiar e domĂ©stica. Cada caso gera uma gama de atendimentos, a exemplo de contatos telefĂŽnicos, visitas domiciliares, visitas institucionais, encaminhamentos, estudos de caso e pesquisa de processo judicial. Em geral, hĂĄ uma mĂ©dia de 44 atendimentos por caso.

Em pouco tempo de funcionamento, o CAV jĂĄ deu importantes passos que resultaram em propostas de escala nacional e estadual, tornando-se referĂȘncia no combate Ă  violĂȘncia de gĂȘnero, no Ăąmbito do MinistĂ©rio PĂșblico, tanto que foi premiado com o Selo de PrĂĄticas Inovadoras do FĂłrum Brasileiro de Segurança PĂșblica (FBSP).

O CAV, sendo um ĂłrgĂŁo especializado na violĂȘncia de gĂȘnero, compreende que esse tipo de violĂȘncia nĂŁo Ă© sĂł praticado contra pessoas do sexo feminino, mas tambĂ©m contra aquelas que se declaram mulheres. A partir da atuação do ĂłrgĂŁo, a Secretaria de PolĂ­cia Civil incluiu mulheres transexuais e travestis vĂ­timas de violĂȘncia domĂ©stica e familiar no pĂșblico atendido pela Delegacia Especializada no Atendimento Ă  Mulher (Deam).

AlĂ©m disso, houve sugestĂ”es de alteraçÔes legislativas para que mulheres transexuais e transgĂȘneros possam ser protegidas pela Lei Maria da Penha, e o estabelecimento de notificação compulsĂłria, na rede pĂșblica ou privada de saĂșde, de casos de violĂȘncia que envolvam pessoas com identidade de gĂȘnero feminino como vĂ­timas.

O CAV realizou inspeçÔes e estudos sobre crimes sexuais e violĂȘncia domĂ©stica em unidades de saĂșde de Rio Branco, de BrasilĂ©ia e de Xapuri, a partir das Fichas de Notificação CompulsĂłria de Doenças e Agravos do Sistema Único de SaĂșde (SUS), visando subsidiar intervençÔes judiciais e extrajudiciais e reduzir os crimes sexuais. Com esse trabalho, foi possĂ­vel estabelecer o fluxo de atendimento de violĂȘncia sexual e, em parceria com a Secretaria de Estado de SaĂșde, promover a regulação dos prontuĂĄrios.

“Estudos mostram que as mulheres que sofrem violĂȘncia domĂ©stica e familiar sĂŁo revitimadas na prĂłpria rede de proteção do Estado e a maioria das que denunciam Ă© reincidente nesse tipo de violĂȘncia”, destaca a coordenadora do CAV, procuradora de Justiça PatrĂ­cia RĂȘgo, que foi reconhecida pela revista Marie Claire como mulher inspiradora no enfrentamento contra a violĂȘncia de gĂȘnero, atravĂ©s do PrĂȘmio Viva.

Com isso, o MPAC deu inĂ­cio ao MutirĂŁo de InquĂ©ritos Policiais na Deam. A ação na delegacia possibilitou dar maior celeridade na tramitação dos inquĂ©ritos e reunir dados que demonstrassem o panorama geral da violĂȘncia domĂ©stica, alĂ©m de verificar a estrutura fĂ­sica e condiçÔes materiais de funcionamento da delegacia.

AtravĂ©s de recomendação, o MPAC pediu tambĂ©m o desmembramento fĂ­sico entre a Deam e a Delegacia de Proteção Ă  Criança e ao Adolescente (Depca) para que passassem a atuar em edifĂ­cios prĂłprios. A intenção Ă© que os funcionĂĄrios da primeira recebessem exclusivamente casos de violĂȘncia contra a mulher, otimizando o atendimento.

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