José Mujica renuncia ao Senado uruguaio e se aposenta da vida política ativa

Por O GLOBO 20/10/2020 Ă s 22:33

O ex-presidente do Uruguai JosĂ© “Pepe” Mujica (2010-2015) renunciou ao cargo de senador, retirando-se da vida polĂ­tica ativa nesta terça-feira (20). O polĂ­tico da Frente Ampla de esquerda, eleito senador em 2014, jĂĄ havia anunciado que renunciaria ao cargo no mĂȘs passado, por motivos de saĂșde.

Mujica, de 85 anos, se despediu do Congresso junto com outro ex-presidente, Julio MarĂ­a Sanguinetti (1985-1990 e 1995-2000), de 84 anos, do conservador Partido Colorado, que tambĂ©m renunciou. Os adversĂĄrios polĂ­ticos decidiram abandonar o Senado em uma sessĂŁo conjunta na qual trocaram um forte abraço, em gesto classificado por outros parlamentares como um “reflexo da democracia”.

Aplaudido de pĂ©, Mujica fez um emocionado agradecimento aos seus colegas e aos funcionĂĄrios da Casa. Segundo ele, sua saĂ­da nĂŁo “significa o abandono da polĂ­tica, mas sim o abandono da linha de frente”.

— No meu jardim, hĂĄ dĂ©cadas nĂŁo cultivo o Ăłdio. Aprendi uma dura lição que a vida me impĂŽs. O Ăłdio acaba deixando as pessoas estĂșpidas — disse o ex-presidente, que passou 13 anos preso durante a ditadura militar. — Passei por tudo nessa vida, fiquei seis meses atado por um arame, com as mĂŁos nas costas, fiquei dois anos sem ser levado para tomar banho e tive que me banhar com um copo. JĂĄ passei por tudo, mas nĂŁo tenho Ăłdio de ninguĂ©m e quero dizer aos jovens que triunfar na vida nĂŁo Ă© ganhar, mas sim se levantar toda vez que cair.

CoronavĂ­rus

Em setembro, Mujica revelou que, devido a uma doença imunolĂłgica crĂŽnica, nĂŁo poderĂĄ tomar uma vacina contra o coronavĂ­rus quando ela estiver disponĂ­vel. Agora, disse que atuarĂĄ como um “conselheiro” para seus partidĂĄrios.

— Vou porque a pandemia estĂĄ me obrigando. Ser senador Ă© falar com as pessoas e andar por todo lugar. Estou ameaçado por todos os lados: pela velhice e por minha doença crĂŽnica  — afirmou ele.

Pouco antes da sessĂŁo, Mujica afirmou que a despedida conjunta com Sanguinetti ocorreu porque apĂłs conversarem, perceberam que estavam “na mesma esquina”. Segundo o ex-presidente de esquerda, a simbologia disso Ă© importante para o Uruguai porque, “em outros paĂ­ses, eles [adversĂĄrios polĂ­ticos] nem sequer se cumprimentam”.

Sanguinetti, por sua vez, lembrou em uma carta de despedida que sua renĂșncia jĂĄ estava prevista desde antes das eleiçÔes nacionais de 2019. A decisĂŁo, ele disse, foi tomada pela necessidade de se dedicar Ă  Secretaria Geral do Partido Colorado e Ă s suas atividades como jornalista e correspondente editorial.

— Essa Ă© uma hora de conciliação, de reafirmação democrĂĄtica — disse Sanguinetti, que tambĂ©m foi aplaudido pelo Senado. — Tendo enfrentado Mujica tanto como poderĂ­amos, ele desde uma revolução armada, e eu, desde os governos que a combatiam, hoje podemos dizer, como Octavio Paz, que a inteligĂȘncia encarna por fim, reconciliam-se as duas metades inimigas e voltam a ser fonte, manancial de fĂĄbulas: homem, ĂĄrvore de imagens, palavras que sĂŁo flores, que sĂŁo frutos, que sĂŁo atos.

Vida simples

Mujica tem uma longa carreira política e de militante: durante a sua juventude, fez parte da guerrilha Tupamaros que lutava contra a ditadura militar no país, participação que o levou à prisão de 1972 a 1985. Em 2018, quando renunciou ao Senado pela primeira vez, disse em uma carta estar “cansado da longa viagem” e que iria se “refugiar na aposentadoria”. Menos de um ano depois, no entanto, candidatou-se novamente e foi eleito.

No poder, acabou ficando conhecido mundialmente por sua postura e vida simples — atĂ© hoje, ele se locomove com um velho fusca azul — e por ter feito um governo mais progressista, com a descriminalização do aborto e da maconha, alĂ©m da legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo. O polĂ­tico tambĂ©m doou grande parte de seu salĂĄrio na PresidĂȘncia por considerar que no Uruguai  “vivem muitas pessoas pobres”.

A despedida foi marcada por cumprimentos e palavras bondosas de outros senadores. Óscar Pepe, da Frente Ampla, disse que o “ideal de Pepe emociona” porque “dedicar a vida Ă  polĂ­tica tem a ver com injustiças que te aflingem”:

— Viver Ă© ter causas, viver Ă© luta, e por isso o agradecimento de poder viver ao lado de companheiros como Mujica — afirmou.

Sanguinetti  foi presidente durante a transição democråtica uruguaia, quando foi eleito pelo voto popular em 1985, após 13 anos de ditadura. Em 1995, ganhou novamente as eleiçÔes. Hå décadas, é uma das principais lideranças do Partido Colorado que, que em seus mais de 180 anos governou por diversas vezes o país. Sua popularidade, no entanto, caiu após o governo de Jorge Batlle (2000-2005), que em 2002 enfrentou uma das maiores crises econÎmicas do Uruguai. [Foto de capa: Pablo Porciuncula/AFP]

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