VĂ­tima de violĂȘncia domĂ©stica escreve bilhete com pedido socorro em agĂȘncia bancĂĄria

Por G1 04/03/2021 Ă s 10:55 Atualizado: hĂĄ 5 anos

“VocĂȘ pode me ajudar”. A frase, seguida de um “Xis” e das palavras “violĂȘncia domĂ©stica”, foi escrita por uma mulher, de 27 anos, dentro de uma agĂȘncia bancĂĄria em Sobradinho, no Distrito Federal, na Ășltima segunda-feira (1Âș).

A vĂ­tima estava em um caixa, fazendo o saque do Bolsa FamĂ­lia, e entregou o bilhete ao funcionĂĄrio do banco. No texto, ela ainda alertou: “Ele tĂĄ aĂ­ fora”.

Por causa da pandemia de Covid-19, sĂł Ă© permitida a entrada na agĂȘncia de uma pessoa por vez. Enquanto a mulher sacava o dinheiro, o marido aguardava do lado de fora.

O bancĂĄrio entendeu o pedido de socorro e foi atrĂĄs da polĂ­cia com os colegas da agĂȘncia. No dia seguinte, a polĂ­cia foi atĂ© a casa da vĂ­tima, que foi encaminhada para uma Casa Abrigo.

O agressor, entretanto, nĂŁo foi encontrado no local (leia mais ao fim da reportagem).

O desenho do xis com o pedido de ajuda Ă© uma orientação da campanha para ajudar mulheres vĂ­timas de violĂȘncia domĂ©stica lançada em junho de 2020.

Na semana passada, seguindo as mesmas instruçÔes da campanha, uma mulher de Anåpolis, interior de Goiås, pediu ajuda em uma rede social. Ela e o marido, que é caminhoneiro, estavam em viagem.

O homem foi preso por cĂĄrcere privado e violĂȘncia domĂ©stica apĂłs ser abordado por policiais em Bady Bassitt, no estado de SĂŁo Paulo. Assista ao vĂ­deo abaixo para entender mais sobre o caso:

O funcionårio do banco que atendeu a mulher em Sobradinho conversou com o G1 por telefone, nesta quarta-feira (3), mas sob condição de anonimato.

O homem, de 40 anos, contou que na hora em que recebeu o bilhete, pediu para a vĂ­tima anotar os dados, como telefone e endereço. “Mas a mulher ficou com medo de passar o telefone e o companheiro atender”, disse.

“Depois que ela foi embora, fiquei procurando uma forma de ajudĂĄ-la. Fizemos uma pequena reuniĂŁo para ver o que poderĂ­amos fazer”, contou.

Dificuldade para conseguir ajuda e descaso
Junto com colegas do banco, o funcionĂĄrio que atendia a mulher decidiu ir atĂ© a 13ÂȘ Delegacia de PolĂ­cia, de Sobradinho. Mas o policial de plantĂŁo nĂŁo registrou a ocorrĂȘncia.

“Ele leu, leu, olhou o papel e disse que era jurisdição de Planaltina porque a mulher morava lĂĄ. Eu questionei se ele nĂŁo poderia fazer contato com alguĂ©m, mas ele nĂŁo deu a mĂ­nima pra mim”, contou o bancĂĄrio.

O bancĂĄrio disse ainda que chegou a ligar para a Delegacia de Atendimento Ă  Mulher (Deam) para informar o ocorrido, mas tambĂ©m nĂŁo foi atendido. “Um homem atendeu e disse que era pra denunciar no 197, porque tinha que apurar se aquilo era verdade mesmo”, revelou.

“Sobra burocracia e falta empatia. Cheguei no outro dia no banco desnorteado”, disse o bancĂĄrio.
Em nota, a PolĂ­cia Civil disse que “o caso estĂĄ sendo apurado com mĂĄxima prioridade” e que prestarĂĄ todas as informaçÔes pertinentes.

Coragem e busca de solução
Uma das pessoas que ajudaram o funcionĂĄrio do banco na busca por ajuda foi Juliana Gomes da Silva, telefonista da agĂȘncia.

Após saber das tentativas frustradas do colega para registrar o caso na Polícia Civil, Juliana decidiu falar com uma amiga, que é policial militar do batalhão de Planaltina. Ela mandou fotos dos bilhetes: o que pedia ajuda e um segundo, onde a mulher escreveu o endereço.

O texto, além do endereço, descrevia como achar a quitinete onde a vítima morava, dando características como a cor do portão. Ao final, a mulher também fazia mais um pedido: para que os policiais insistissem (veja bilhete abaixo).

Em entrevista ao G1, Juliana destacou a coragem da mulher.

“Por estarmos no meio de uma pandemia, ela sĂł pĂŽde entrar sozinha. Foi o momento em que ela se sentiu segura e pediu ajuda. Ele [o agressor] estava ligando o tempo todo pra ela ir rĂĄpido”, contou.

VĂ­tima de violĂȘncia domĂ©stica escreve bilhete com pedido socorro em agĂȘncia bancĂĄria

Mulher vĂ­tima de violĂȘncia domĂ©stica pediu ajuda em bilhete entregue Ă  uma bancĂĄria — Foto: PMDF / Reprodução

“Pela experiĂȘncia que tenho, no momento em que li os bilhetes, jĂĄ entrei em contato com uma amiga que trabalha na PM. A vĂ­tima foi breve e rĂĄpida. Ficamos todos apreensivos”, contou Juliana, que tambĂ©m Ă© coordenadora da Central Única das Favelas (CUFA-DF).

Final da histĂłria
ApĂłs a denĂșncia, policiais militares do grupo de Prevenção Orientada Ă  ViolĂȘncia DomĂ©stica e Familiar (Provid) foram atrĂĄs das informaçÔes escritas nos dois bilhetes. Ao chegar no endereço, no setor EstĂąncia Mestre D’Armas, em Planaltina, eles descobriram que a mulher era mantida em cĂĄrcere privado pelo companheiro.

No endereço, em uma segunda tentativa do grupo – na primeira, aparentemente nĂŁo havia ninguĂ©m em casa –, a equipe encontrou a mulher e seus dois filhos: um menino de 1 ano e 7 meses e uma menina 5 anos. A vĂ­tima confirmou que tinha escrito o bilhete pedindo ajuda.

Sérgio Borges, sargento da Polícia Militar, disse a mulher estava com medo.

“Ela confirmou que o marido fazia agressĂ”es verbais. […] Percebi que ela estava com medo. NĂŁo Ă© de hoje que ela Ă© vĂ­tima de violĂȘncia domĂ©stica”, afirmou.

Em 2019, a mesma mulher jĂĄ havia sido atendida apĂłs uma denĂșncia de violĂȘncia. “Agora Ă© com a Justiça. A nossa parte a gente fez. Ela pode receber medida protetiva e, dependendo do entendimento, o juiz expede mandado de prisĂŁo pra ele”, explicou o sargento.

A vítima foi encaminhada para uma Casa Abrigo. Até a tarde desta quarta-feira (3), o agressor não havia sido localizado.

Casa Abrigo

O abrigo para onde a mulher e os filhos formam levados recebe vĂ­timas de violĂȘncia domĂ©stica que registram ocorrĂȘncia policial no DF. Segundo informaçÔes da Secretaria da Mulher, a vĂ­tima “estĂĄ serena e disse que se sente aliviada”.

A casa Ă© protegida, e o endereço mantido em sigilo, para segurança das abrigadas. As vĂ­timas tĂȘm acesso aos serviços de alimentação, segurança e transporte.

“Esse caso foi muito emblemĂĄtico. A primeira coisa que o agressor faz Ă© impedir a mulher de se comunicar. Essa vĂ­tima, ao ter oportunidade de sair de casa, resolveu pedir ajuda e as pessoas entenderam o recado. Isso mostra como a sociedade estĂĄ mais atenta. Esse Ă© o caminho”, diz a SecretĂĄria da Mulher do DF, Ericka Filippelli.

Sinal vermelho X

Ainda este mĂȘs, a Secretaria da Mulher disse que pretende abrir inscriçÔes para que estabelecimentos do DF participem da campanha Sinal Vermelho.

Em janeiro, uma lei com o mesmo nome foi regulamentada. Segundo o texto, para pedir socorro, as vĂ­timas precisam escrever um “X” na palma da mĂŁo, com caneta, batom ou outro material acessĂ­vel, se possĂ­vel na cor vermelha.

O sinal deve ser mostrado com a mão aberta aos funcionårios desses estabelecimentos que, por sua vez, precisam adotar um protocolo de atendimento e acionar as forças de segurança. A medida vale para:

-farmĂĄcias;
-repartiçÔes pĂșblicas;
-portarias de condomĂ­nio;
-hotéis;
-supermercados.

O texto afirma que, ao atender uma mulher que apresente o “sinal vermelho”, os funcionĂĄrios devem manter a calma.

A vítima precisa ser encaminhada para uma sala segura, onde possa aguardar atendimento especializado, sem chamar a atenção dos demais clientes ou do possível agressor, que possa estar acompanhando ela. A polícia deve ser acionada imediatamente.

Denuncie
A Secretaria da Mulher tem um WhatsApp para denĂșncias de agressĂŁo contra mulheres que nĂŁo podem sair de casa ou que estĂŁo confinadas com seus agressores. O canal se chama “Mulher, vocĂȘ nĂŁo estĂĄ sĂł” e o nĂșmero Ă© (61) 99145-0635.

Outra opção para denunciar é por meio do e-mail vocenaoestaso@mulher.df.gov.br. Tanto o WhatsApp quanto o e-mail ficam disponíveis 24 horas.

(Foto: PMDF / Reprodução)

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