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6 maio, 2021 8:13 pm

Após morte, família descobre que idosa foi tratada com nebulização de hidroxicloroquina sem autorização

Mulher recebeu tratamento em unidade de saúde de Itacoatiara e, com piora do estado de saúde, foi transferida a Manaus, mas não resistiu.

POR G1 AM

A filha de uma idosa de 71 anos, que morreu em decorrência de complicações da Covid-19, descobriu que a mãe foi tratada com nebulização de hidroxicloroquina em uma unidade de saúde de Itacoatiara, distante 270 quilômetros da capital. Após mais de um mês internada, a mulher chegou a ser transferida para atendimento em Manaus, onde ficou três dias, mas não resistiu.

A filha, que não quer se identificar por se tratar de uma cidade pequena, afirma que não houve autorização da família para esse tipo de tratamento e só descobriu que a idosa recebeu o medicamento após pedir o prontuário médico. O caso foi denunciado para a polícia.

Em nota ao G1, a Secretaria de Saúde do Amazonas informou que “não compactua com a prática de qualquer terapêutica experimental sem comprovação científica. Ao tomar conhecimento, a SES-AM encaminhou ofício ao município solicitando que abra processo administrativo para apurar o caso, tendo em vista que Itacoatiara tem gestão plena em saúde e irá acompanhar o processo.”

A reportagem também tenta contato desde a tarde de domingo, por telefone, com o delegado responsável pelo caso, com o prefeito do município para mais detalhes sobre o ocorrido e com a equipe médica responsável pela aplicação do medicamento, mas não obteve resposta até a publicação deste texto.

Prescrição de nebulização de hidroxicloroquina a paciente internada em Itacoatiara, em Manaus — Foto: Reprodução

Prescrição de nebulização de hidroxicloroquina a paciente internada em Itacoatiara, em Manaus — Foto: Reprodução

A idosa deu entrada no Hospital Regional José Mendes, em Itacoatiara, no dia 6 de fevereiro. Segundo a filha da paciente, a mãe apresentou sintomas da Covid-19 e, até então, o estado de saúde dela não parecia tão grave.

Os parentes a levaram para o hospital, onde ela realizou um exame de raio-x. A família disse que foi a única vez que o hospital fez esse procedimento na paciente. Para os familiares, os médicos alegaram que a idosa estava com pneumonia, que a doença precisava ser tratada no hospital e que o tratamento duraria apenas 15 dias. No entanto, todo o processo durou um mês e 7 dias, até o falecimento da idosa em Manaus.

A filha disse ao G1 que tentou transferir a idosa para um hospital particular em Manaus. No entanto, em Itacoatiara, não houve autorização dos médicos, que disseram aos familiares que se tratava de uma paciente idosa, com pressão alta e problemas cardíacos.

“Um dos médicos falou que ela tinha que se tratar ali mesmo, em Itacoatiara, pois não tinha condições de ir para Manaus. Mas vimos que o caso dela somente piorava”, disse a filha.

“Eu só me atentei sobre a questão desse medicamento quando eu assisti a uma reportagem falando sobre o uso da hidroxicloroquina, a inalação e quais eram os sintomas que a pessoa sentia, o que provocava isso. Eu me lembrei exatamente de como a minha mãe ficou no hospital. Eles faziam a inalação, mas apenas diziam que era inalação, não falavam com o que era feito a inalação. Falavam que ela tinha que fazer inalação com a máscara de bipap, que iria ajudar o pulmão dela, mas em nenhum momento foi nos informado com o que era feito essa inalação”

O quadro de saúde da idosa se agravou. A família, após muita insistência, conseguiu a transferência dela para o Hospital Delphina Aziz, em Manaus. A paciente foi diretamente para a UTI, onde ficou três dias e faleceu no dia 13 de março.

Após a morte, a família conta que pediu o prontuário médico completo da idosa.

Para a filha, um médico chegou a dizer que batimento cardíaco acelerado era reação “normal” durante o tratamento e que “provavelmente, a paciente estava problema psicológicos, como ansiedade”.

 

“O médico me disse: ‘Isso é normal, é por causa da máscara, é super normal. Ela está bem, ela é uma incógnita para gente’. Era o que ele me falava. Mas eu vi a minha mãe com presença de sangue na urina e pensei: ‘isso não está certo, o que está acontecendo?’. E insistiam em dizer que estava tudo normal”, contou a filha.

Com o prontuário e o alerta na reportagem, a filha decidiu olhar novamente o documento do hospital assinado por médicos.

“Eu nunca me conformei com o estado em que ela ficou, e pelo fato de eu não ter uma resposta do que estava acontecendo com ela. Aqui não tem boletim médico, não explicam como está o paciente, e você ver o paciente morrendo no leito. Foi quando eu resolvi pedir a cópia do prontuário. Olhei o prontuário, vi que em vários dias teve a inalação com hidroxicloroquina, em torno de 10 dias mais ou menos”, contou.

A denúncia foi feita no dia 23 de abril, última sexta-feira. A filha disse que vai aguardar a investigação policial e vai solicitar ajuda ao Ministério Público do município.

Casos em Manaus

Segundo a Secretaria de Saúde do Amazonas, pelo menos outras duas pacientes com Covid-19 foram submetidas a nebulização com hidroxicloroquina em uma maternidade em Manaus, em fevereiro, sendo que uma delas morreu. A Polícia Civil investiga a denúncia de que pelo menos três mulheres grávidas morreram após a nebulização.

A Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), vinculada ao Ministério da Saúde, informou que considera o tratamento realizado com cloroquina nebulizada em pacientes internados com Covid-19 em Manaus um experimento clandestino e sem autorização legal. Em nota, o órgão faz menção indireta às pesquisas com cobaias no nazismo.

Prescrição de nebulização de hidroxicloroquina para paciente internada em Itacoatiara, no Amazonas — Foto: Reprodução

Prescrição de nebulização de hidroxicloroquina para paciente internada em Itacoatiara, no Amazonas — Foto: Reprodução