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24 junho, 2021 10:20 pm

Livro lançado por professores da Ufac revisa a história do Acre

Alceu Ranzi e Evandro Ferreira reveem a história de um Estado que já foi um país e tem passado milenar

POR TIÃO MAIA, PARA CONTILNET

O passado, o presente e o futuro do Acre, um Estado que já foi país e que depois se tornou o primeiro território nacional do Brasil, uma excrescência, ao que tudo indica, copiada dos Estados Unidos na época da incorporação ao território norte-americano das ilhas conquistadas ao longo do Pacífico, como o Hawaí, estão sendo passados a limpo no livro “Acre Visto e Revisto”. A obra foi escrita a quatro mãos (e que mãos!) pelos professores Alceu Ranzi e Evandro Ferreira, ambos da Universidade Federal do Acre (Ufac). Trata-se de uma coletânea de artigos em que o Acre é o foco principal.

Ranzi é paleontólogo e Evandro Ferreira, botânico. O primeiro, já aposentado, mora em Santa Catarina. O segundo, ainda na ativa, embrenhado pelas matas do Acre em pesquisas, não pôde responder os pedidos de entrevistas.

Portanto, aqui, as considerações de apenas um dos autores, sobre o livro e sobre sua própria história. A seguir, os principais trechos com Alceu Ranzi, um dos autores da obra:

ContilNet – O que significa o Acre para o senhor?
Alceu Ranzi – Depois da minha família, o Acre foi e é minha realização profissional, de amizades, de oportunidades…enfim um mundo a ser explorado. Focado no Acre, realizei meus estudos de graduação em geografia na Ufac (1974-1978). Estudei os fósseis do Acre, na oportunidade do meu mestrado na UFRGS (Universidade Federal do rio Grande do Sul), em Porto Alegre (1979-1981) e no Doutorado, obtive o título de Ph.D. na University of Florida (1987-1991) onde foquei no paleoambiente do Acre nos tempos do Pleistoceno, mais ou menos os últimos dois milhões de anos. Como deveria ser o Acre com suas florestas, cerrados e animais que hoje conhecemos apenas pelos seus restos fósseis.

Dediquei muitos anos para coletar e organizar as primeiras coleções e a implantação do Laboratório de Pesquisas Paleontológicas da UFAC, uma referência para quem visita o Campus. Hoje a paleontologia no Acre está nas boas mãos do Dr. Jonas Filho, Dr. Edson Guilherme e Dr. Ricardo Negri.

ContilNet – Como foi que o senhor descobriu a existências dos Geoglifos no Acre?
AR – Sem abandonar a paleontologia, nos últimos 20 anos me dediquei a fotografar, mapear e divulgar os Geoglifos do Acre, juntamente com um time multidisciplinar de várias especialidades. No estudo dos geoglifos a parceira de todas as horas foi a Dra. Denise Schaan, falecida precocemente (1962-2018). Ainda sobre àquela primeira pergunta, devo dizer que no Acre nasceram dois dos meus filhos, Bianca, Engenheira Ambiental e Thomas, Analista de Sistemas. O Tiago Juruá (o nome já diz tudo) foi, por 10 anos, responsável pela Reserva Estrativista Cazumbá-Iracema, no rio Caeté em Sena Madureira. Cleusa, minha companheira e mãe dos meus filhos, é professora aposentada da Ufac, e autora do livro Raizes do Acre.

ContilNet – Como o senhor veio e qual a razão de vir para o Acre?
AR – Essa é uma história de 50 anos. Cheguei no Acre em maio de 1971. Vim à convite do Bispo Dom Henrique Rüth, da Prelazia do Alto Juruá em Cruzeiro do Sul. Auxiliei Dom .Henrique na administração da Prelazia, tempo de muitas obras – escolas, igrejas, hospitais, educandário. Dom Henrique cuidava das almas e da educação e saúde dos homens, mulheres e crianças de Cruzeiro do Sul.

Muitos funcionários, folha de pagamentos e toda a burocracia da Prelazia, uma organização muito ativa e presente no Juruá. No turno da noite ainda dava aulas na Escola Flodoardo Cabral. Eu morava com o vigário, mas não era religioso de congregação, assim eu frequentava o Igarapé Preto e ia aos bailes do Clube Juruá. Morei no Juruá, durante os anos de 1971, 1972 e 1973. Meu irmão Pedro Ranzi, havia chegado dois anos antes e na época foi prefeito de Cruzeiro do Sul.

ContilNet – E como foram os primeiros contatos com os Geoglifos?
AR – Em 1974, fiz vestibular para Geografia na Ufac e me radiquei em Rio Branco. Do Reitor Áulio Gelio eu recebi algumas missões entre as quais, em 1977, acompanhar arqueólogos do Rio de Janeiro, nos primeiros levantamentos arqueológicos no Acre, equipe composta pelo Dr. Ondemar Dias da Universidade Federal do rio de Janeiro (UFRJ) e o seu estudante Franklin Levy. Acompanhei a prospecção ao longo da BR 317 de Rio Branco até Assis Brasil, logo na região da atual Capixaba, foram localizados os primeiros Geoglifos.

Depois, com o Agenor Mariano [jornalista, repórter fotográfico aposentado], obtivemos a primeira fotografia aérea de um Geoglifo, a notícia e as fotos foram publicadas no Jornal o Rio Branco em 15 de agosto de 1986.

No dia 16 de abril de 2000 a imprensa do Acre divulgou as primeiras fotos coloridas dos Geoglifos, fruto de um trabalho conjunto com o Edison Caetano. O que veio depois…já é história, os Geoglifos do Acre adquiriram identidade própria e ganharam o mundo. Os Geoglifos representam uma civilização Amazônica, das florestas tropicais, que existiu no Acre por muitas centenas de anos, desde antes de Cristo até aproximadamente o ano de 1.300. Seus monumentos de terra, com perfeição geométrica é o legado que nos deixaram e temos a obrigação de conhecer e preservar.

ContilNet – Mas há, ao que tudo indica, alguma tentavia de destruição desses monumentos localizados em algumas propriedades. Como o senhor recebeu tais notícias?
AR – No ano de 2020, tivemos a notícia da lamentável destruição do Geoglifo da Fazenda Araxá ,em Capixaba. Isso nos alerta de que temos muito trabalho para desenvolver em conjunto com os fazendeiros, agricultores e proprietários das terras, para demonstrar o valor desses monumentos para a pré-história, cultura e identidade dos Acreanos.

Para tornar o Acre produtivo em pecuária e grãos, não é necessário destruir os Geoglifos. A ciência, o patrimônio nacional a pecuária e agricultura são compativeis. Há espaço para todos. Poderemos ter um Acre desenvolvido e produtivo, ao mesmo tempo que se respeita e valoriza o patrimônio que pertence a todos os brasileiros.

Vale lembrar que existe uma indústria turística nascente no Acre, com voos de balão e sobrevoos de avião que tem os Geoglifos como atrativo. Se soubermos divulgar os Geoglifos, o Acre receberá turistas do mundo todo para conhecer essa maravilha do engenho humano de uma época que não havia ferramentas, nem máquinas de terraplanagem. As obras atestam a engenhosidade dos construtores de Geoglifos.

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