24 de maio de 2024

Vítima de racismo: conheça o acreano que começou Direito aos 17 anos e virou delegado

O recente e absurdo incidente de racismo, que partiu de um idoso que se negou a ser atendido por um delegado negro, na 2ª regional da Delegacia de Polícia Civil, colocou os holofotes da imprensa e da sociedade civil sobre o delegado Samuel Mendes, titular do local e vítima do crime. Em contraponto a seu detrator, Mendes, em entrevista, apresenta uma leitura de mundo bastante sensata e empática.

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Filho de Manoel Mendes e Ondina Mendes, ele conta que suas maiores inspirações em vida são seus pais, juntos há mais de 40 anos. “Qual era a prioridade de casa? O estudo, tanto que eu nunca me esqueço a frase do meu pai: ‘A herança que eu tenho para deixar para você é o estudo, não espere mais nada, somente o estudo’”, conta Mendes, relembrando que o pai, oriundo de uma família de 12 irmãos, venceu na vida justamente através do ensino e que se formar em Engenharia Agronômica foi o que permitiu o Manoel deixar o estado do Maranhão, onde teve uma infância humilde, para vir ao Acre, após ser aprovado em um concurso federal, nos anos 80.

O pai e a mãe do delegado já namoravam antes da vinda para Rio Branco, de modo que, quando Manoel Mendes veio, ele e a esposa ficaram namorando através de cartas por cerca de quatro anos, até Manoel se estabilizar e Ondina vir morar com ele. Na capital acreana, o casal maranhense teve dois filhos, Samuel e seu irmão mais velho.

Em solo acreano, o pai não mediu esforços para dar aos filhos a melhor educação, dentro do possível. “Ele sempre acompanhou de perto e investiu, com todo esforço pessoal dele, para isso. Não era aquele pai que só mandava o filho pro colégio, eu chegava em casa e ele olhava meu caderno, as tarefas, fazia esforço para se precisasse, me colocava numa aula de reforço. Então ele sempre investiu nos filhos, e principalmente no estudo. Ele é o próprio exemplo, até hoje, com 75 anos, se você chegar lá na minha casa meia-noite meu pai está estudando, mesmo aposentado”.

Foto: Reprodução

O delegado conta sobre seu passado, dentro de sua sala, na Delegacia de Polícia Civil, localizada na Cidade do Povo, onde dispõe de alguns artefatos decorativos como lâminas rústicas e, principalmente, um pequeno tabuleiro xadrez de base transparente. Pode-se dizer que o tabuleiro é decorativo porque Samuel revela não ter mais tanto tempo para dedicar ao jogo, como tinha na infância, quando disputou diversos campeonatos, incentivado pela mãe.

“Era um esporte pouco difundido no Acre, incomum para crianças e até para pessoas negras. Porque as pessoas tem aquela visão ignorante de que o negro é melhor para esportes físicos do que intelectuais. Quando novo eu competia, jogava fora do estado, cheguei a jogar o campeonato brasileiro, onde fiquei em nono lugar, joguei nos jogos estudantis da Região Norte, ficando em segundo lugar, também teve os jogos pan americanos. E quando eu pedia patrocínio falavam ‘mas é ele que joga xadrez? Por que não vai jogar futebol?’ e minha mãe sempre comigo, incentivando para eu não parar, indo atrás de patrocínio”.

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Trajetória

Foi no Ensino Médio que ele passou a cogitar o Direito como área de atuação. Na época, no início dos anos 2000, o método de ingresso para cursos superiores na Universidade Federal do Acre (Ufac) se dava através do vestibular. Terminando a escola com 16 anos, Samuel decidiu concorrer a uma das vagas do curso de direito da Ufac. “Eu passei para Direito no meu segundo vestibular, terminei o Ensino Médio com 16 anos, no primeiro vestibular passei na primeira fase, que era prova objetiva, e acabei ficando na segunda, a redação. Estudei mais um ano para poder fazer o vestibular novamente”, diz.

Foi uma época que estava com um aperto financeiro, mas tinha que estudar. Na época, tinha um cursinho chamado ‘Eu sou vencedor’. “Eu falei pro meu pai: ‘paga só um mês de cursinho, que o resto eu vejo como conduzir’. Aí ele pagou esse primeiro mês, e havia um vestibular no cursinho onde o primeiro lugar ganhava 100 reais e um mês de bolsa. Eu fiz esse vestibular e consegui ficar em primeiro lugar, de todo o cursinho”.

Esse primeiro mês de cursinho permitiu o delegado ter as ferramentas para pagar outros meses, como também ingressar em outras preparações pré-vestibulares, onde ia colecionando bolsas e descontos. “Mas a principal, a minha morada, era a biblioteca do Sesc. Manhã, tarde, noite, era um ambiente bem silencioso e fechado”.

Com 17 anos, Samuel passou no vestibular de Direito, quando estudava com ninguém menos que seu irmão, que havia cursado Enfermagem e decidiu mudar de área, passando no mesmo vestibular que Samuel, para a mesma turma. No futuro, eles seriam aprovados em alguns dos mesmos concursos, como o de agente da Polícia Civil.

Delegado Samuel. Foto: Cedida

Desde o começo, Mendes, filho de funcionário público concursado, mirava nos diversos concursos que abriram durante sua graduação. Na época que prestou o vestibular para Direito, também realizou o concurso para Policial Militar Voluntário. “Quem tinha nível superior poderia se inscrever no vestibular e concorrer para oficial, quem não tinha, como no meu caso, se inscrevia para policial voluntário. Aí passei no vestibular e também nesse concurso da Polícia Militar, em terceiro lugar. Então, consegui a vaga na universidade e, ao mesmo tempo, um emprego”.

Na faculdade, e estando trabalhando na PM, Mendes passou no concurso de agente da Polícia Civil, em nono lugar. Enquanto fazia a academia de polícia para agente, um curso de formação de 4 meses, chegou a Samuel o edital do concurso para delegado. “Na época, eu até pensava que era impossível passar, porque eu ainda estava no sétimo período da faculdade, e ia concorrer com pessoas formadas, com pós-graduação. E o dinheiro era muito pouco naquela época e a inscrição caríssima. Mas resolvi me inscrever e pra minha surpresa, acabou dando certo. Fazendo academia de agente, indo pra faculdade a noite, consegui passar na primeira fase para delegado, em 2008, o ano que minha turma de agentes tomou posse. Foram duas notícias boas.”

Samuel precisou impetrar um mandado de segurança que permitisse ele a realizar o curso de formação para delegado, uma vez que ele ainda não havia terminado a graduação de direito, que era um dos requisitos para fazer a academia de delegado. Assim, ele fazia o curso de formação, pela parte da manhã e da tarde, e terminava a graduação pela parte da noite, torcendo para que não fosse nomeado antes de conseguir finalizar o bacharel em direito. Nesse meio tempo, ainda passou no concurso para oficial de justiça do Tribunal de Justiça do Acre, onde exerceu o cargo por 1 ano e 4 meses, até sua nomeação para delegado.

Empossado como delegado com apenas 23 anos, começava então uma nova fase na jornada do delegado Samuel Mendes na história da segurança pública do Acre. “Eu comecei na delegacia de Tarauacá, então de imediato comecei pegando Tarauacá e Jordão. Fiquei como coordenador da regional, de lá fui promovido pra Feijó, de Feijó fui pra Sena Madureira, de Sena fui para Manoel Urbano, respondendo também por Santa Rosa do Purus, depois de Manoel Urbano eu fui para Acrelândia, e lá em situações especiais acabei respondendo por Plácido de Castro, Capixaba e Senador Guiomard. O objetivo era chegar em Rio Branco, então eu caminhava em direção à capital onde, depois de 10 anos, consegui chegar.”

Nesses 11 anos na função, o delegado Samuel Mendes colecionou o apreço da população pelas cidades onde passou, especialmente na cidade de Acrelândia, que não registrou homicídios durante cinco meses em que Mendes esteve como delegado. Em 2018, ano em que foi transferido para a capital acreana.

“Teve essa grata surpresa que, em dois meses na cidade de Acrelândia, a população aprovou o trabalho. Mostramos bons resultados e em dois meses fizeram uma menção na Assembleia Legislativa, onde recebi uma moção de aplausos”, conta o delegado, que também colecionou elogios e honrarias em outras cidades acreanas.

Episódio de racismo

Recentemente, um episódio infeliz de racismo atingiu o delegado Mendes, dentro da delegacia, quando um idoso insistiu em ser atendido por um delegado branco, recusando o atendimento de Mendes, que é negro. Nesses 11 anos como delegado, Samuel Mendes não havia vivenciado uma situação de racismo tão direta como a da última terça-feira (3), mas destaca o racismo velado que enxergou ao longo dos anos.

“Eu posso dizer que não havia vivenciado uma situação de racismo tão expressa como essa, da pessoa evidenciar a cor. Mas, infelizmente, existem aqueles racismos velados, da pessoa já te olhar e te descartar de plano, isso aí já tive muitas experiências, faz parte da minha vida. Por exemplo, quando eu já era delegado em Feijó, almoçando em um restaurante junto do hotel onde eu morava, e onde havia várias pessoas comendo também, uma senhora estacionou o carro, andou pelas pessoas até minha mesa e falou ‘Te dou dez reais para você descarregar o meu carro’. Então fica aquela questão: qual critério que ela usou para achar que eu, em meio a tantas outras pessoas também almoçando, fosse um carregador?”

Com uma leitura inteligente sobre o mundo ao redor, Mendes viu que a melhor forma de ascender em vida era através dos estudos e do concurso público. “Eu imaginava assim, se eu for pra uma entrevista, muitas vezes a pessoa não vai nem me avaliar, vai me descartar de plano, nem sequer me ouvir. Então usei o concurso público como uma ferramenta para ascender socialmente. Comecei a estudar bastante, e a partir dali ver se eu conseguia servir de exemplo para outras pessoas. Eu vejo que essa minha história vai ajudar muita gente a vencer ainda, através do estudo, ver que é viável. Lógico, tem suas barreiras e dificuldades, mas tem um resultado positivo no final. Mas é também preciso entender que é um caso pontual, existe o mérito, mas também existe a questão do milagre”, explica.

Em uma soma de oportunidades que começou com a vinda do pai concursado para Rio Branco, até chegar na aprovação como delegado da Polícia Civil, Samuel Mendes colecionou concursos e elogios durante sua trajetória profissional.

Em um terreno de apoio familiar e incentivo aos estudos, o delegado da Polícia Civil desenvolveu uma visão holística da segurança pública, por ter passado por diferentes postos de trabalho, e uma empatia à realidade alheia, enxergando sua história como, além de um grande exemplo, uma exceção.

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